“Hoje sabereis que o Senhor vem e nos salva, amanhã vereis a sua glória!”(cf. Ex 16,6-7)
A glória de Deus se manifesta nesta noite Santa pelo nascimento do Salvador: “Magno cum gaudio Christum natum adoremus. Salvator noster, dilectissimi, natus est: gaudeamus”. Com Júbilo no coração adoremos Cristo nascido, com um novo cântico. Caríssimos, alegrai-vos pois, o nosso Salvador é Nascido!
Assim nesta noite Santa nos preparamos com grande alegria para esta notícia jubilosa: Jesus nasceu para nos salvar! Vamos nos centrar no principal do Natal: não as festas exteriores, mais a interioridade, a luminosidade que vem do Menino que é nos é dado, homem e Deus, em tudo igual a nós, exceto no pecado, com uma missão muito específica: apagar a mancha do antigo inimigo, o pecado original, e nos conceder a salvação eterna.
Meus irmãos,
A liturgia desta noite santa transcorre com a santa lembrança da preparação da vinda do Cristo na história da Salvação. A Primeira Leitura(cf. Is. 62,1-5) retoma o nascimento de um príncipe, no tempo de Isaías, setecentos anos antes do nascimento de Cristo, que significa esperança para o povo abalado pelas invasões assírias. Deus volta a seu povo. A leitura situa-se no tempo pós-exílico. O profeta desempenha o papel de intercessor e consolador. Deus parece calar-se. Por isso, o profeta fala, lembra a Deus a necessidade de seu povo. Deus o atenderá, pois a Cidade Santa é sua jóia. Ele a reconstruirá, fará novas núpcias com ela.
Depois do edito de Ciro, que autoriza a volta do exílio e a reconstrução de Jerusalém, por volta de 538 ou 537 a.C., o profeta vê de novo a cidade protagonista da história da Salvação envolvida pelo amor de Deus. Este amor é descrito com termos extraídos de uma festa de núpcias, aos quais, porém, se acrescenta uma terminologia que evidencia o conteúdo salvífico da mensagem. O encontro de Deus com Jerusalém, encontro que se dá com a humanidade, no Natal, é justiça, isto é, sinal da ação salvífica de Deus, isto é, glória, isto é, sinal de que Deus ainda está no meio do povo; é salvação, enquanto Deus resgatou aquela que era desamparada e abandonada, povo no exílio ou humanidade afastada de Deus, e a desposou, lembrando-lhe o seu amor por ela.
O salmo responsorial comenta que tais fatos são a prova de que Deus governa o mundo com justiça e os povos segundo sua fidelidade.
Caros irmãos,
A Segunda leitura(cf. At 13,16-17.22-25) anuncia o tempo de Cristo como o tempo em que se manifesta sua graça e a amizade de Deus, transformando a nossa noite em dia e em luz. A pregação de Paulo; testemunho a respeito do “Filho de Davi”. Paulo, na sua primeira viagem, é convidado a falar na sinagoga de Antioquia da Psídia. Resume a História da Salvação, chegada à plenitude em Jesus Cristo, Filho de Davi, anunciado por João Batista, que convocara o povo para a conversão.
São Paulo dirigindo-se aos judeus da sinagoga de Antioquia da Psídia, Paulo lembra das grandes etapas da história da Salvação: os patriarcas – libertação do Egito – deserto – conquista da terra – juízes e rei Davi(cf. At 13,16-22). Nesta linha, Jesus é aquele que dá cumprimento à salvação, por isso é o Salvador e à promessa feita a Davi(At 13,23). É, pois, o messias; por isso, segundo a pregação de João(cf. Lc 1,76;3,3-17), a sua vinda exige do povo mudança de mentalidade.
Estimados Irmãos,
Jesus é colocado hoje como o Sol invencível, o sol da justiça, o sol sempre nascente, o sol sem ocaso, a luz que apareceu nas trevas para iluminar os povos. Isaías relembra que o povo caminhava nas trevas e viu a luz, uma grande luz que hoje podemos afirmar que é o Senhor Jesus(cf. Mt 1,1-25 ou 1,18-25).
As trevas sempre representaram nas sagradas Escrituras a desgraça, a dor, a opressão em todas as suas facetas, a escravidão e a própria morte. E a luz indica prosperidade, felicidade, vida plena, fecundidade, bem-estar, presença de Deus. No meio da noite de Natal, Deus se faz presente na carne humana. Troca-se o próprio destino do homem, que caminhava pela estrada da morte e a partir de hoje caminhará com Jesus, pela estrada da vida. Jesus vem nos trazer, com seu nascimento, a graça e a vida plena, a vida eterna, as alegrias celestiais.
Essa genealogia(cf. Mt 1,1-17) deve ser explicada à luz da segunda leitura. Jesus é aquele que dá cumprimento às três grandes etapas da história da salvação(cf. Mt 1,17) e, como descendente de Abraão e de Davi(cf. Mt 1,1), na linha jurídica de José(cf. Mt 1,16.20), é o que dá cumprimento às promessas e é aquele que salva o povo dos seus pecados(cf. Mt 1,21). Citando, literalmente, o texto de Is 7,14(cf. Mt 1,23), o evangelista declara que Jesus está na linha das promessas feitas a Davi e é, portanto, filho de Davi segundo a carne(cf. Rm 1,3), embora seu nascimento virginal exclua a cooperação do homem(cf. Mt 1,16.18)e é juridicamente filho de Davi só através de José, que fisicamente não seu pai(cf. Mt 1,20). José que é justo – não porque procura separar-se de Maria(cf. Mt 1,19), mas porque, como exige o termo, procura em todas as coisas o cumprimento da vontade de Deus – reconhece Jesus como seu filho e lhe transmite, dando-lhe o nome, todos os direitos de um descente de Davi(cf. Mt 1,21-24). O fato demonstra como é Deus que opera a salvação, mas também como esta não se concretiza na terra sem a cooperação do homem.
Queridos amigos,
Contemplando a riqueza desta noite Santa nós temos a certeza de que todos nós éramos protagonistas da salvação. Lá estava, no teatro da salvação, os homens e as mulheres de todos os tempos: na simplicidade de um curral estava Maria e José, dois homens simples do povo, a quem coube realizar, por desígnio de Deus, o sonho do humano e do divino: o nascimento do Salvador. Bem no meio da natureza, num ambiente rural como o nosso santo ambiente das Minas, chamadas de Gerais e de Católica, para contemplar o teatro da salvação. Tudo estava representado para o Nascimento do Redentor: as pedras, as plantas, os animais, os homens. O mundo racional e o mundo irracional se ajoelha, reverentemente, diante do Deus Nascido, do Divino Infante.
A humanidade está representada por JOSÉ E MARIA. José, o homem justo, descendente da casa real de Davi, tornado pai adotivo de Jesus, por vontade de Deus, dá ao Menino o estado legal de descendente davídico, como previam os profetas e como esperava o povo eleito. Jesus se torna o “rebento do tronco de Jessé, cheio do Espírito Santo do Senhor”. Maria, a Mãe, pelos mistérios de Cristo, preservada de todo o pecado, a “cheia de graça”, a bendita entre todas as mulheres. Assumindo a carne humana em Maria, Jesus assumiu nossa condição, para que nós entrássemos na condição d’Ele. Foi na carne de Maria que nós, na expressão de São Pedro: “nos tornamos participantes da natureza divina”. E o sonho de Deus, de todas estas verdades, se realizou nesta noite Santa.
Estimados irmãos,
O Menino que nasce nesta noite veio fazer a maior de todas as revoluções: uma revolução silenciosa, amorosa em favor da humanidade. Jesus vem como o Príncipe da Paz, conforme anuncia Isaias em 9,5. Seu Reino se construirá com muito trabalho e empenho, em meio a muitas dificuldades e perseguições, mas Jesus “se estabelecerá, firmando no direito e na justiça, para sempre”(cf. Is 9,6). A partir desta Noite Santa, a paz é possível, porque o Filho de Deus passa a morar entre nós, como fermento na massa.
Firme, sólido e eterno se coloca a missão que Jesus nos convida a viver: o seu Reino. Reino estabelecido neste mundo por Jesus que nem o furacão mais violento nem as portas do inferno prevalecerão sobre ele. Jesus é a pedra angular que dá equilíbrio a Igreja e a humanidade. Sobre Jesus se constituirá o novo destino da humanidade. São Paulo chama Jesus Cristo de Pedra da qual jorram as águas da espiritualidade, isto é, a água que pode saciar a sede de Deus. O Menino nascido esta noite é a única ligação existente entre o céu e a terra, entre Deus e o homem. E é o único que pode dar ao homem toda a divindade e a eterna juventude, sempre desejada pelo homem. Cristo é, à partir de agora e sempre, a nossa segurança e refúgio, nossa liberdade e garantia.
Jesus é o primogênito de todas as criaturas animadas e inanimadas, porque n’Ele foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, as visíveis e invisíveis. (cf. Cl. 1,15)
Com Jesus, nesta noite Santa, nos veio a adoção divina, com Ele nos veio a pacificação e a graça, com Ele e por Ele formamos uma definitiva comunhão com Deus.
Caros irmãos,
O Menino Jesus, que nasce pobre em Belém, é que dá sentido às profecias anunciadas por Isaías. Ele é aquele que vem arrancar o povo da escuridão e das sombras da morte. O nascimento de Jesus, que celebramos nesta noite, significa que Ele é, para nós, a esperança da nova ordem que as profecias apontam. E acolhê-lo implica entrar na dinâmica de seu projeto de paz. Sua chegada nos interpela: é realmente nele que depositamos toda a nossa confiança e esperança?
O presépio nos ajuda a contemplar que a lógica de Deus é muito diferente da lógica do mundo em que vivemos. Deus se manifesta na pequenez de uma criança, que nasce cercada de pessoas simples e de seres da natureza, e não em um ambiente de riqueza e esplendor. É na manjedoura, na fragilidade, na simplicidade que a luz do mundo brilha. Sua chegada é Boa Notícia, é ternura que enche de felicidade aqueles que estão à margem.
Nossa cultura globalizada institucionalizou e sacralizou muitos valores efêmeros, como dinheiro, status, bens de consumo, sucesso, poder e visibilidade midiática, e montou um sistema publicitário que nos induz à busca da felicidade falsa ou aparente. No entanto, esses valores frequentemente levam as pessoas a uma vida vazia e sem sentido. A celebração do Natal nos confronta, fazendo-nos pensar nos valores que norteiam nossa vida. É Jesus Cristo nossa referência? É ele que conduz nossa vida, ou preferimos seguir as propostas das autoridades deste mundo, que não passam de ídolos?
Meus amigos,
Jesus nos dá nesta noite uma demonstração do espírito que deve reinar nos cristãos: tudo em comum, tudo para que Deus seja manifestado em nosso meio como o Deus da partilha e da misericórdia. O nascimento de Jesus no meio dos pobres é o sinal de que Deus dá aos pastores – gente bem pobre – para mostrar que o Messias veio ao mundo. No meio das trevas, eles se encontram envolvidos em luz… a luz que é o Cristo que nos dá a salvação.
Feliz Natal a todos! O centro desta noite e de nossa vida deve ser o Cristo nascido, luz da humanidade e centro de nossa santidade. Amém, Aleluia!

