Solenidade de todos os santos – B

Solenidade de Todos os Santos
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​A Festa de Todos os Santos abrange os três momentos do tempo, além da dimensão universal do espaço. De fato, celebramos os justos do passado, celebramos a vocação à santidade futura – o “céu” – e celebramos a santidade como dom – graça – presente.

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​Como esta dimensão presente é a em que menos se pensa quando se fala de santidade, achamos que ela merece uma atenção especial: é a mensagem das Bem-Aventuranças, no Evangelho que hoje refletimos(cf. Mt 5,1-12a). As Bem-Aventuranças devem ser entendidas como uma proclamação da chegada do Reino de Deus para as pessoas que vão ficar felizes como isso. São, ao mesmo tempo, a proclamação da amizade de Deus para aqueles que participam do espírito que é evocado por oito exemplificações, e um programa de vida para todos os que escutam a palavra de Cristo. Este programa de vida já entra em ação desde que alguém se torna discípulo de Jesus: os que estão realizando este programa já são “santos”. Por isso, este evangelho foi escolhido para a festa de hoje. Jesus proclama a bem-aventurança – a felicidade, o bom encaminhamento, a boa venturança dos pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus, ele não quer dizer o além da morte – uma recompensa futura pela carência na terra – mas a realidade presente. Reino dos Céus é uma maneira semítica de dizer Reino de Deus. E o Reino de Deus começa onde se faz à vontade de Deus, como aprendemos do Pai-Nosso, que Jesus ensina em seguida. Se entendêssemos as Bem-Aventuranças somente como uma compensação para depois da morte, elas seriam “ópio do povo”. Mas o contrário é pura realidade: elas são um verdadeiro incentivo para realizar, aqui e agora, o novo espírito, que traz presente o Reino de Deus entre nós, na nossa comunidade de fiéis.

​Caros irmãos,

​Somos filhos de Deus. Somos criados à imagem e semelhança de Deus. Assim somos hoje chamados a contemplar à cidade santa do céu, habitada por milhões e milhões de homens e mulheres, de todas as raças, línguas e tempos, que glorificam a Santíssima Trindade e gozam da mais perfeita e íntima comunhão de amor e vida divina como Senhor: aqui está o conceito mais perfeito e exato da Festa de todos os santos canonizados e anônimos que hoje celebramos. É uma festa de louvor perene e de doce esperança. De louvor a Deus que, aceitando-nos como filhos e filhas, nos tornou herdeiros do céu, da bem-aventurança eterna. De esperança, porque, apesar das tentações, dos pecados da vida terrena, temos um destino, um viés de eternidade.
​Celebramos os nossos santos, os que nos precederam rumo ao céu. Mas celebramos, sobretudo, o caminho de santidade dos santos e santos e o nosso caminho para esta santidade de vida e de estado.
​Celebramos a santidade em dois caminhos. O primeiro caminho é a santidade aqui e agora. Porque já agora somos filhos de Deus, como nos ensina a segunda Leitura retirada da 1 Carta de João 3,1-3: “Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é!”. (cf. 1 Jo 3,2). Sim, veremos Jesus tal como ele é. Por isso neste mundo nós devemos ser como Jesus é: pobres de espírito, pacíficos, aberto aos aflitos, àqueles que procuram a justiça, porque assim seremos santos aqui e agora.
​O segundo caminho é o caminho que coincide com a nossa irmã Morte: vamos caminhando ao encontro do Cristo Misericordioso. A morte é o aguilhão da vida plena. Não é castigo ou muito menos motivo de desespero, é o encontro definitivo como Cristo. Por isso é necessário estarmos preparados. É o Momento do Encontro com o Cristo Juiz Misericordioso e Compassivo. Os santos passaram por essa porta estreita. Por isso vêem a Deus tal como ele é e são nele transfigurados (cf. 1Jo 3,2). Também nós o veremos como ele é e seremos nele transfigurados, quando, pela morte biológica, nasceremos para a eternidade. Por isso a vida não é tirada, mas sim transformada. Nesta mensagem de esperança ela responde às nossas interrogações sobre o destino dos defuntos. Que vieram a ser? Como sabê-lo, pois desapareceram dos nossos olhos? E nós próprios, que viremos a ser? A resposta é uma dedução absolutamente lógica: se Deus, no seu imenso amor, faz de nós seus filhos, não nos pode abandonar. Ora, em Jesus, vemos já a que futuro nos conduz a pertença à família divina: seremos semelhantes a Ele.

​Caros irmãos,

​Na primeira leitura(cf. Ap 7,204.9-14), entre as visões das catástrofes do fim do mundo, surge a visão da glória dos eleitos, fruto da salvação que vem “de nosso Deus… e do Cordeiro”(cf. Ap 7,10). Por seu sacrifício, o Cordeiro venceu a morte. Desta vitória participam os que, especialmente no sacrifício do martírio, “branquearam suas vestes no sangue do cordeiro”. Não o número dos eleitos é o que esta leitura quer mostrar, mas a vitória sobre as forças do mau que se opõem a Cristo e a sua comunidade. As visões do profeta cristão trazem uma mensagem de esperança nesta provação. É uma linguagem codificada, que evoca Roma, perseguidora dos cristãos, sem a nomear diretamente, aplicando-lhe o qualificativo de Babilônia. A revelação proclamada é a da vitória do Cordeiro. Que paradoxo! O próprio Cordeiro foi imolado. Mas é o Cordeiro da Páscoa definitiva, o Ressuscitado. Ele transformou o caminho de morte em caminho de vida para todos aqueles que O seguem, em particular pelo martírio, e eles são numerosos; participam doravante ao seu triunfo, numa festa eterna.

​Queridos irmãos,

​Hoje o Santo Evangelho(cf. Mt. 5,1-12) propõe as Bem-Aventuranças do Sermão da Montanha. Este Sermão é o Retrato do Senhor Ressuscitado. Um ideal ao nosso alcance, não a ser alcançado pelos critérios humanos, mas pela graça santificante, pelo auxílio do Cristo, pela abertura de nosso coração e de nossa alma ao Salvador. Assim, os santos foram capazes de se enamoraram pelas bem-aventuranças e de crerem que seriam capazes de medir a sua vida por elas, ora ressaltando uma, ora se penitenciando para alcançar outra bem-aventurança.
​A felicidade de Jesus é bem diferente da felicidade passageira deste mundo. O mundo nos reserva o ser, o poder e o prazer que são transitórios. A felicidade que Jesus prega envolve o passado, porque se enraíza na doutrina que ele deixou; o presente, porque é dinâmica e exigente; e o futuro, porque é à base do Reino dos Céus, que começa aqui e plenifica-se na eternidade.
​As criaturas, ou seja, todos nós seus filhos, fomos criados para a eternidade, não para a desgraça. O desejo de felicidade é para todos. A plenitude da felicidade depende da vivência feliz nesse mundo, porque o Reino dos Céus começa e se constrói na vida presente. Jesus de Nazaré é o modelo de quem viveu na terra a plenitude das bem-aventuranças. Por isso é ele também o modelo da felicidade eterna.
​As bem-aventuranças são o espelho daquilo que o verdadeiro discípulo deve ser. O discípulo é construtor do Reino, mas, antes de agir, ele precisa se caracterizar e qualificar. Daí Jesus exigir qualidades. Elas serão condição e roteiro ao mesmo tempo. Ponto de partida e ponto de chegada. No mesmo sentido de quando dizemos que caminhamos para Deus. Só caminha para Deus quem parte de Deus.
​As três primeiras bem-aventuranças propõem a libertação da criatura humana de três grandes empecilhos: o apego ao dinheiro, a soberba da auto-suficiência e o preconceito de que só é feliz quem não sofre dificuldades. Aos três obstáculos, o Senhor contrapõe o espírito de pobreza, a mansidão e serenidade nas lágrimas.
​Se as três primeiras bem-aventuranças asseguram-nos independência, desapegando-nos das coisas, libertando-nos da soberba que gera violência, e pondo-nos dentro da realidade conflituosa de cada dia, as outras cinco estão voltadas para a ação e, no seu conjunto, perfazem a grandeza do homem novo: justiça, misericórdia, pureza de intenção, paz, paciência. Não há misericórdia sem justiça. Não há paz para quem lavra na falsidade. A paciência é a força histórica do povo de Deus que espera a realização do Reino, não de braços cruzados, mas na atividade da construção da paz e da justiça.

Caros irmãos,
Jesus proclama que os pobres em espírito são felizes, enquanto o mundo diz que isso se conquista com bem-estar, dinheiro, poder, prestígio. As bem-aventuranças trazem outra proposta de felicidade. Construir a paz, ter um coração misericordioso, lutar pela justiça constituem a verdadeira bênção. O discurso de Jesus nos leva a refletir sobre o que de fato nos traz a vida plena.
As bem-aventuranças revelam a realidade misteriosa da vida em Deus que abraçamos por meio de nosso batismo. A solenidade de Todos os Santos nos faz lembrar as muitas pessoas que buscaram a santidade, aproximando-se do rosto de Deus; pessoas em cuja vida transparecia a imagem e semelhança dele, porque, mesmo com defeitos, se deixaram transformar pelo amor e misericórdia divina.
Ser santo exige andar na contramão das propostas do mundo, a exemplo de Jesus, e resistir às tentações do ter e do poder. Que a exortação do Papa Francisco possa nos inspirar a não ter medo da santidade; a sermos mais humanos e ter compaixão de quem necessita de nosso cuidado; a sermos alegres porque nos aproximamos de Deus.

Meus irmãos,
​Vivamos sempre, no cotidiano desta preparação para o ano da misericórdia, o Evangelho desta festa, ao anúncio das Bem-Aventuranças, que há pouco ouvimos ressoar neste dia santo em nossos corações. Jesus diz: Bem-aventurados os pobres de espírito, bem-aventurados os aflitos, os mansos, quem tem fome e sede de justiça, os misericordiosos, bem-aventurados os puros de coração, os pacificadores, os que sofrem perseguição por causa da justiça (cf. Mt 5, 3-10). Na realidade, o Bem-Aventurado por excelência é somente Ele, Jesus. No seu conjunto, as “bem-aventuranças” deixam uma mensagem de esperança e de alento para os pobres e débeis. Anunciam que Deus os ama e que está do lado deles; confirmam que a libertação está a chegar e que a sua situação vai mudar; asseguram que eles vivem já na dinâmica desse “Reino” onde vão encontrar a felicidade e a vida plena.
​São João Paulo II, no ano santo de 2000, ensinou que: “Os Santos levaram a sério estas palavras de Jesus. Acreditaram que a “felicidade” haveria de lhes advir se a traduzissem concretamente na sua própria existência. E experimentaram a sua verdade no confronto quotidiano com a experiência: não obstante as provações, as obscuridades e as adversidades, saborearam já aqui na terra a profunda alegria da comunhão com Cristo. N’Ele descobriram, presente no tempo, o gérmen inicial da futura glória do Reino de Deus”.
​O Reino de Deus identifica-se na pessoa de Jesus e com a pessoa Dele. E Jesus continua presente no meio de nós(cf. Mt 28,20), como confessamos em todas as missas. Esta é a festa em que unimos as três dimensões da Igreja: a Igreja militante, padecente e triunfante. A Santidade é participar da vida de Deus, que é “o Santo”. E sendo nós pecadores, supõe um processo de conversão permanente. Para ser santo, Cristo nos deixou alguns meios: como Os Sacramentos, a Igreja, a Oração, a Palavra de Deus. Acolhamos o Apelo de Deus à Santidade e que os Santos sejam nossos modelos e intercessores. Amém!

Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura..

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