Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, A

Que Maria nos ensine a sermos autênticos discípulos e missionários de Jesus Cristo, pregando a Boa Nova e testemunhando o Cristo Salvador
Nossa Senhora Aparecida
Home Homilia DominicalAno A – 2023 Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, A

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“Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas jóias”.

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Meus queridos irmãos,

O Brasil e o seu povo santo estão unidos, de norte a sul, de leste a oeste, para a grande festa de nossa augusta padroeira: a Virgem da Conceição, Aparecida das águas do Rio Paraíba, no vale do mesmo nome, no ano de 1717.

A devoção à Virgem Maria, depois da Fé Católica, é o maior legado que nossos colonizadores nos deixaram. “Em Portugal se conservará o dogma da fé”, predisse Nossa Senhora em Fátima, há mais de 200 anos após a aparição da Virgem Aparecida. No Brasil, por conseqüência, essa fé há-de ser sempre inabalável, pela forma sólida como sempre foi fundada no coração de nossos fiéis.

Poderia a Providência Divina ter, como sinal, conduzido às redes dos dedicados e sofridos pescadores do Paraíba uma cruz – símbolo da nossa fé; ou um ícone do Divino Redentor ou até de algum santo. Mas, não. É a imagem daquela que nos foi dada por Mãe, a Eva do Novo Tempo, numa expressão plácida, orante, imersa no diálogo com o Deus que a criou, como que meditando todas as maravilhas que lhe foi dado conhecer, que vem guiar a espiritualidade daquele povo sofrido, massacrado pelo poder exacerbado, pela injustiça, pela opressão.

Essa imagem da Virgem que se apresenta como ícone de veneração, de contemplação e de modelo tornou-se, com o passar do tempo, uma referência para os brasileiros – para o povo e para a nobreza. A similitude com o povo pobre, a cor negra, a simplicidade de sua escultura tem muito em comum com o povo brasileiro, na sua simplicidade, a ponto de ser consagrada como Rainha e Padroeira do Brasil e, por Decreto Pontifício, coroada como tal. Daí o 12 de outubro ser um dia de grande felicidade e de contentamento espiritual.

No majestoso Santuário Nacional de Nossa Senhora, na paulista Aparecida, ou nas catedrais, igrejas matrizes e filiais, capelanias e oratórios públicos de todo o imenso território nacional, os fiéis, precedidos de seus Pastores, louvam a Deus, por intermédio de sua Mãe que nos legou o mais simples e profundo modo de seguir a Jesus Cristo, o Redentor: “Fazei tudo o que Ele vos Disser!”.

Irmãos e irmãs,

Na solenidade de Nossa Senhora Aparecida a Sagrada Liturgia no-la apresenta como a intercessora de seu povo, mais que súditos ou vassalos, seus filhos amados, nós todos, brasileiros. Assim, a Primeira Leitura nos relata sobre a intervenção da rainha Éster junto ao Rei Assuero em favor do povo judeu, ao qual ela mesma pertencia. Ao mesmo tempo, menciona-se a graciosa beleza desta “flor do seu povo”. É, pois, a Senhora Aparecida a intercessora junto ao trono do Altíssimo, de pé, orante, insistente.

Ao meditarmos o relato sagrado, vêm-nos recordações importantes da vida cristã: como a ternura maternal de Maria, sua dedicação a Jesus, mulher de fé e seu serviço prestado a toda a humanidade. Em MARIA temos o mais perfeito exemplo do discípulo de Jesus, que sabe cumprir os mandamentos e fazer realizar a única vontade do Pai, que se concretiza na salvação do povo de Deus.

A Virgem Maria deve ser apresentada como o Modelo perfeito de fidelidade do ser humano para com Deus. Maria da fraternidade. Maria da acolhida. Maria da graça. Maria da partilha. Maria da misericórdia. Maria da graça santificante. Maria da generosidade. Maria do serviço. Maria, a Mãe da nova evangelização. Maria, a Mãe que zela pelos seus filhos.

Talvez aí esteja o motivo de sua manifestação por ocasião da visita do governador –general de São Paulo e Minas, o Conde de Assumar, em 1717, a Guaratinguetá. Na ocasião, os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso teriam sido escalados para pescar os peixes que seriam servidos à refeição do ilustre visitante. Era uma sexta-feira e, conforme rígido costume da época, dia de abstinência de carne.

E os homens simples do Vale do Paraíba nada pescaram.

Quando já estavam quase desanimados, jogaram a rede e retiram uma imagem pequena de Nossa Senhora da Conceição, um pouco enegrecida pela água, sem a cabeça. Outro arremesso, veio a cabeça da imagem. Mais um arremesso, veio a pesca abundante. Deus abençoava, naquele momento, os três pescadores.

A imagem da Virgem da Conceição, feita de barro cozido, enegrecida pelas águas e pelo tempo, medindo 36 centímetros, foi levada para o culto divino.

Em 1745, foi construída uma capela no alto do Morro dos Coqueiros. Nascia, assim, a devoção à Virgem Aparecida, Mãe do Povo Brasileiro.

Em 1888, foi substituída a primitiva capela por uma igreja maior. Em 1894, a Igreja e a devoção a Nossa Senhora foram enriquecida com a chegada dos primeiros Missionários Redentoristas que passaram a gerir o Santuário Nacional.

Desde 1953, a festa de Nossa Senhora Aparecida tem como dia de celebração o 12 de outubro. Desde 1930, Nossa Senhora Aparecida abençoa o povo brasileiro como sua Padroeira Nacional.

Em 4 de Julho de 1980, o saudoso Sumo Pontífice João Paulo II consagrou o novo Santuário Nacional, uma das mais belas obras da arquitetura religiosa moderna, significante expressão da grandiosidade da devoção do povo brasileiro que a venera como mãe e rainha.

Caros irmãos,

Na primeira Leitura – Et 5,1b-2; 7,2b-7 – Ester, importante personagem bíblica, no livro que carrega seu nome, surge para justificar a origem da importante festa judaica de Purim, ou festa da Sorte – “tirar a sorte”, em tradução do hebraico. O cenário desse livro situa-se no período persa (aproximadamente 350 a.C.). Contudo, muitos estudiosos situam a redação do livro no período conturbado de Antíoco IV Epífanes, por volta do ano 170 a.C.

O livro de Ester narra a trajetória de uma personagem homônima, uma judia que é levada para o reino de Assuero. Ela tem um inimigo dentro do reino, chamado Amã, mas conta com a ajuda de seu primo Mardoqueu. O rei Assuero se encanta com Ester e a torna sua esposa. Ela, no momento certo – o qual se descortina na narrativa desta primeira leitura –, ao entrar nos aposentos do rei, faz-lhe um pedido: que ele conserve sua vida e a vida de seu povo (Est 7,3).

A trama se desenrola sob o clima de traição dos servidores do rei, e este conta com a fidelidade de Ester e de seu primo Mardoqueu. Amã, que havia conseguido deturpar a ideia do rei sobre a influência dos judeus naquelas terras, faz que Assuero decrete o Purim, o dia da sorte, para ver o dia da matança dos israelitas. Ester pede que o rei volte atrás em tal decreto, mas ele não pode reeditá-lo. Contudo, ela convencerá o rei a escrever outro decreto, permitindo que seu povo lute duramente, na resistência ao exército persa e medo (da Média). Os judeus, antes do ataque medo-persa, exterminam inúmeros persas e não são mortos, segundo havia decretado anteriormente o rei Assuero.

A trama narrada nesta solenidade começa com a afirmação de que Ester tocou na ponta do cetro real, símbolo de poder. Como Ester tem íntima proximidade com o poder do rei, ela o convence a não deixar o povo judeu perecer pela oposição de Amã e de todo o exército persa.

Meus queridos amigos,

O Evangelho de hoje (Jo 2,1-11), que relata as Bodas de Caná, tem como ambiente uma família. Nossa Senhora deve ser lembrada como a padroeira das famílias. Assim, a nossa família, toda ela mariana, deve buscar em Maria a proteção para as suas necessidades e a sua intercessão privilegiada junto de Deus, porque o que se pede a Mãe o Filho atende.

Maria intercede junto a Jesus. Por isso acreditamos que ela haverá de interceder pelo povo brasileiro em suas múltiplas necessidades, particularmente no grave momento político e social em que vivemos. O exemplo e a oração de Maria devem ser presentes e presença para que uma nova aurora surja em benefício do povo brasileiro.

Maria, nossa Mãe, mãe da misericórdia, cuja ternura toca o nosso coração, recebe e atende nossos pedidos, dos mais simples aos mais complexos e difíceis.

Maria deposita toda a sua confiança em Jesus, no seu poder salvador, na sua misericórdia e na largueza de seu imenso coração misericordioso.

Faltava o vinho e Maria intercede pedindo aos serviçais para que “fizessem tudo o que Ele dissesse” (Jo 2,5). Assim, com sua intercessão materna, houve abundância do vinho que era água. A riqueza desta graça que Maria distribui, também ela em abundância, distribui aos filhos que a ela recorrem. Dela podemos dizer o mesmo que a carta aos Hebreus aconselhava a respeito do Sumo Sacerdócio de Jesus: “Aproximemo-nos confiantemente do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia” (Hb 4, 16).

Irmãos,

A segunda leitura (Ap 12,1.5.13.15-16) remete-nos à liturgia da Assunção. Maria que protege a humanidade e a Igreja – exerce a missão de Mãe e Mestra. Maria gerou e levou o Salvador ao mundo e presenciou a sua vitória. Eis aí o que une Maria e a Igreja, que tem a missão de levar o Salvador ao Mundo e presenciar a Vitória de Cristo sobre o mundo, como Rei da Humanidade. Esses aspectos fazem de Maria e da Igreja uníssonas na obra da salvação.

Salvos das águas pela fé e pelo Batismo, os cristãos podem atingir algo daquilo que contemplam na Virgem Aparecida, a Imaculada, se seguirem o seu conselho: “Fazei tudo o que Ele vos disser!” Esta parte fica como a nossa missão na festa da Virgem Maria.

O capítulo 12 do Apocalipse de São João pode ser considerado o coração desse livro. Nele, a humanidade e a desumanidade contracenam num combate apocalíptico. A mulher é símbolo do que humaniza, do que traz o Homem-Deus ao mundo, irradiando a todos o poder salvífico. O dragão, em contrapartida, representa tudo o que desumaniza e destrói a humanidade. Personificação do mal, ele é derrotado pela mulher, a qual simboliza também a Igreja, que dá à luz o Cristo no mundo.

No céu aparece um grande sinal: uma mulher vestida de sol – a cor dourada simboliza Deus. Tem a lua debaixo dos pés, simbolizando o mistério daquilo que a ilumina, e, sobre a cabeça, doze estrelas que a coroam, símbolo dos apóstolos que adornam a Igreja, a esposa de Cristo. Ela dá à luz um filho – o próprio Cristo; o dragão, símbolo do mal, quer devorá-lo (v. 5). O filho é um varão com cetro de ferro, lembrando o Messias, o Senhor que vai governar o mundo. O dragão persegue essa mulher. Ele é símbolo do Império Romano, que, no final do século I, sob o domínio do imperador Domiciano, quer destruir a mulher, a Igreja. A mulher está sempre relacionada a Cristo (v. 15). Ela está ligada ao menino, o qual havia sido dado à luz.

Toda a cena confere ao dragão um poder dominador e destrutivo, que, no entanto, não causa danos ou males à mulher. Dela a terra vem em socorro, abrindo a boca e engolindo o rio que o dragão havia vomitado (v. 16). Embora muitas vezes seduzida por aquilo que o dragão é capaz de lhe oferecer, nesse momento a terra se sente responsável por se solidarizar com a mulher, figura que denota fragilidade, mas também vitalidade, pois trouxe seu filho à vida. O filho que tal mulher apresenta ao mundo é Cristo Jesus, aquele e somente aquele que pode salvar a humanidade.

Caríssimos irmãos,

Neste ano estou publicando a homilia da Solenidade de Nossa Senhora Aparecida com antecedência para convidar a todos os meus leitores, para que comigo, participem deste novenário, de 03 a 11 de outubro. A Arquidiocese de Aparecida e o Santuário Nacional para este ano propõe maior atenção àqueles que vivem alguma dor e, a partir dos exemplos de dedicação de Nossa Senhora aos que sofreram, quer motivar o devoto fiel, romeiro e a todo o povo brasileiro, fiel ao que pede o Papa Francisco reiteradamente, a acolher em sua vida também esta prática. Com o tema “Maria, ensinai-nos que vocação é graça e missão”, a Novena da Padroeira de 2023 lembrando-nos que toda vocação vem de Deus e é também missão dada por Ele.

Prezados irmãos,

Somos chamados a compreender o significado libertador das atitudes das mulheres nas leituras. Ester (primeira leitura), a mulher, símbolo da Igreja (segunda leitura), e a mãe de Jesus (Evangelho) demonstram força e cuidado. Elas se preocupam com a vida da humanidade, com o bem-estar social e com a realização de cada ser humano. A força das mulheres na sociedade e na Igreja deve ser mais valorizada. Elas devem ter maior espaço, voz e direitos nas esferas de decisão, de organização e nas frentes de trabalho. A mulher exerce no mundo uma força criativa exuberante. Cabe-nos perceber que a humanidade pode conviver harmoniosamente se todos cooperarmos para assegurar justiça e direitos a cada pessoa.

Caros irmãos,

Que Maria nos ensine a sermos autênticos discípulos e missionários de Jesus Cristo, pregando a Boa Nova e testemunhando o Cristo Salvador, a exemplo de Maria, modelo para todo cristão.

Ó Virgem Aparecida, rogai por nós que recorremos a Vós! Amém!

homilia recebida por email

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