“Ó Deus, vós tendes compaixão de todos e nada do que criastes desprezais: perdoais nossos pecados pela penitência porque sois o Senhor nosso Deus.” (Sb 11, 24s.27)
Iniciamos com a Quarta-Feira de Cinzas um tempo muito especial na vida da Igreja Católica. A Igreja quer santificar o tempo e neste sentido nos convida a viver um momento de retiro espiritual: a SANTA QUARESMA.
Na Santa Quaresma tudo nos leva a pensar no tripé de conduta de vida: a penitência, percorrendo estes quarenta dias preparando-nos para a Páscoa, quando então celebraremos o mistério da morte e ressurreição de Nosso Senhor, centro da nossa fé, dedicando maior atenção para a ORAÇÃO, AO JEJUM e à RECONCILIAÇÃO com Deus e com os nossos semelhantes.
A Quarta-feira de Cinzas é marco de um tempo novo, repleto de significados e símbolos que nos preparam para a Páscoa do Senhor Jesus. Iniciamos tanto o tempo quaresmal quanto a Campanha da Fraternidade de 2024. Nesta, meditamos o tema: “Fraternidade e amizade social”, convidados pelo lema bíblico de Mateus (Mt 23,8): “Vós sois todos irmãos e irmãs”. Na primeira leitura, o profeta Joel nos convida ao arrependimento. Já na segunda leitura, São Paulo nos convida a ser embaixadores da ação salvífica de Cristo, unindo as pessoas a Deus. No Evangelho, Jesus nos ensina novas práticas de piedade: a verdadeira esmola, a oração sincera e o agradável jejum.
Meus irmãos,
As cinzas que serão impostas no dia de hoje são o principal símbolo litúrgico do início da Santa Quaresma, tanto que dão o nome ao dia e ao sagrado ofício litúrgico. As cinzas representam a pequenez do homem. Abraão ao falar com o Senhor, no Antigo Testamento, intercedendo por Sodoma, considera-se uma nulidade diante de Deus e, por isso mesmo, considera uma ousadia fazer um pedido: “Sou bem atrevido em falar a meu Senhor, eu que sou pó e cinza” (Gn 18,27). Por isso, ao recebermos as cinzas na Liturgia hodierna vamos pensar em duas atitudes fundamentais da vida cristã: ARREPENDIMENTO e PENITÊNCIA, PURIFICAÇÃO e RESSURREIÇÃO.
A origem das cinzas usadas tem um significado muito especial: elas são preparadas pela queima das palmas usadas na procissão de Ramos do ano anterior. As cinzas, portanto, lembram o Cristo vitorioso sobre a morte. A palma é o símbolo da vitória e do triunfo de Cristo Ressuscitado. Se os cristãos aceitam reconhecer a sua condição de criaturas mortais, e transforma-se em pó, ou seja, passar pela experiência da morte, a exemplo de Cristo, pela renúncia de si mesmos, participarão, também, da vida que ressurge das cinzas. As palmas são símbolos da ressurreição de Cristo e dos que aceitam viver na atitude de Cristo.
Receber as cinzas é um compromisso de conversão: o abandono do pecado, de penitência pública, pedindo perdão a Deus pelos nossos pecados, purificando de nossas faltas e ressurgindo para uma vida nova, a vida da graça e da amizade com Deus, para viver nos quarenta dias do tempo quaresmal uma permanente e contínua vontade de retorno à vida da graça e mudança de vida, atendendo a própria oração de imposição de cinzas: “Convertei-vos e credes no Evangelho”.
Irmãos caríssimos,
Quaresma é tempo de oração, de penitência, de jejum e de abstinência de carne, tudo isso em função de ser a morte e a ressurreição de Jesus o centro da celebração de nossa fé. Por isso, para fazer penitência e se converter, é preciso muita humildade, muita disposição de mudança e muita persistência.
A penitência começa conosco mesmos, dentro de nossas pequenas e grandes limitações, procurando corrigir nossos desvios e pecados e buscando lucrar a graça santificante de Deus. O orgulhoso é incapaz de fazer penitência, pois ela pressupõe humildade, o reconhecimento da pequenez de nossa natureza humana diante do Criador, diante do próprio mistério da criação.
Irmãos e Irmãs,
A Sagrada Liturgia insiste na autenticidade da penitência: rasgar o coração, não apenas as vestes. “Agora – diz o Senhor –, voltai para mim com todo o vosso coração com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes, e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar do castigo” (Joel 2,12-13). O profeta faz forte apelo à conversão, à mudança de vida. Não basta, porém, simplesmente submeter-se a um ritual, com o intuito de se preparar para uma celebração. É necessário que a pessoa, em sua integridade, se volte para Deus no templo(celebração) e no dia a dia. Rasgando o coração e não as vestes, encontraremos a misericórdia de Deus, diz o livro de Joel. As cinzas simbolizam o caminho de conversão. Além disso, a Liturgia insiste no caráter interior do jejum, juntamente com as outras “boas obras”, a esmola e a oração.
Na Segunda carta de São Paulo aos Coríntios (2Cor 5,20-6,2), o Apóstolo proclama o novo tempo de reconciliação com Deus, com vistas à iminência da Parusia: “Em nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus. Aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornemos justiça de Deus” (2Cor 5, 20b-21). São Paulo diz que somos como que embaixadores de Deus, o qual age por nosso intermédio. Somos seus colaboradores e nossa missão é tornar este mundo sempre melhor. Para isso, é necessário estarmos reconciliados também com Deus. O tempo quaresmal é o momento propício para trilhar o caminho da conversão.
Caros irmãos,
No Evangelho (Mt 6,1-6.16-18) apresenta as três importantes práticas da piedade judaica e cristã: a esmola(caridade), a oração e ao jejum. Elas devem permear nosso relacionamento e compromissos com os outros, com Deus e com nós mesmos. Se não atendermos a essas exigências para uma justiça autêntica, há o risco de alimentarmos o verme da vaidade. As três práticas são como que um resumo de tudo o que nos cumpre procurar viver ao longo dos 40 dias da Quaresma.
São Mateus convida sua comunidade à prática da atenção (em grego, proséxete), que é a mesma atenção com a qual este tempo da Quaresma merece ser vivido: “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens só para serdes vistos por eles” (v. 1). Grosso modo, a ética cristã, o modus vivendi ao qual Jesus exorta seus seguidores, neste primeiro discurso de Mateus, deve ser superior à forma de viver dos seguidores da Lei. Jesus chama os discípulos e seus ouvintes a seguir a ele, a nova Lei. Por isso, Jesus está como um novo Moisés, sentado sobre a montanha e ensinando (Mt 5,1). Sentar-se é o modo como o mestre, didáskalo, ensina.
O Evangelho deste dia de cinzas está inserido no “Discurso da montanha” (Mt 5-7). Do ponto de vista bíblico, poderíamos considerá-lo como uma sabedoria escatológica, ética ou também como lei – percebida como instrução (Torá) –, com vistas ao Reino vindouro, que não se impõe de maneira coercitiva, mas escatológica e misteriosamente.
São Mateus oferece a seus ouvintes-leitores uma reforma nas obras de piedade: a esmola (v. 1-4), a oração (v. 5-15) e o jejum (v. 16-18). Jesus, portanto, é o novo Moisés que reformula os sistemas legais antigos com nova concepção, nova forma de viver, como se fosse vinho novo colocado em odres novos (Mt 9,17) para os novos seguidores.
A esmola é uma forma de relacionar-se com o outro que nada tem. No entanto, não pode ser realizada da mesma maneira que os outros agiam: “quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos homens”. Jesus afirma: “Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. Ao contrário, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita” (v. 2-3). Jesus os convida a uma nova forma, gratuita e não retributiva, de viver a tsedaqah (termo aramaico para “justiça”, que quer dizer “esmola”). Viver a nova justiça (dikaiosyne) proposta por Jesus é viver com retidão e de forma justa, não hipócrita. Hypókrites era um termo do teatro para significar “ator”. Ele também é usado em Mt 23 para designar os falsos intérpretes das Escrituras, os mestres religiosos que falham em sua missão. Ser hipócrita significa fazer tudo para aparecer, para tirar proveito da esmola dada. O cristão, pelo contrário, deve fazer tudo em silêncio e de forma modesta.
A oração é uma forma de relacionar-se com Deus, pelo diálogo sincero e fiel (v. 5-6). Deve ser espontânea comunhão pessoal com Deus, para nosso benefício. Ele sabe daquilo de que necessitamos. A oração alimenta nossa fé e nos insere na missão. Em Mateus, Jesus ensina, na sequência do texto, a oração espontânea do pai-nosso (v. 7-15).
O jejum é a forma de nos relacionarmos com nós mesmos, controlando nossos desejos e paixões (v. 16-18). Novamente, Mateus utiliza o termo hipócritas, referindo-se aos atores que se desfiguram histericamente, quando estão jejuando, só para se mostrarem piedosos. Essa falsa piedade não agrada a Deus nem faz bem àquele que a pratica. Pelo contrário, quando jejuar, o discípulo de Jesus deve lavar o rosto e perfumar a cabeça, retratando a alegria. Todas essas práticas de piedade, agora na perspectiva teológica do Senhor, terão sentido novo e serão recompensadas por Deus, o Pai.
Caros irmãos,
Nós devemos perceber a relação teológica existente entre as três leituras, que convidam à penitência, ao arrependimento e à prática do amor cristão. A comunidade cristã é levada por esta celebração às verdadeiras práticas de piedade: esmola, oração e jejum. Por isso somos chamados a leitura e meditação da Campanha da Fraternidade, que visa à vida fraterna na comunidade de fé.
Meus Irmãos,
A celebração de hoje tem outro significado muito importante: louvar e agradecer ao Senhor pela sua abundante misericórdia: “Lembra-te de que és pó e ao pó tornarás”. Perante a grandiosidade de Deus nós somos um “verme”, o menor, o mais ínfimo de todos os servidores. Por isso, Deus nos ama com profundidade e derrama sobre nós a sua misericórdia e a sua paz. Mesmo sendo pó, Deus sempre se lembrará de nós e cumprirá a Sua promessa de conceder o Reino das Bem-aventuranças.
Fazer penitência não é ficar triste, mas, pelo contrário, é ficar alegre e feliz. “Misericórdia, ó Senhor, pois pecamos” (Sl 50), rezamos no Salmo Responsorial desta celebração. É o canto da humildade clamando a misericórdia do Deus da Vida, sempre pronto a nos acolher, santos pela sua graça e pobres pecadores pelas nossas misérias, e nos coloca dentro da economia de sua Salvação. Nesse contexto de penitência e conversão, devemos perceber a misericórdia de Deus que confia com abundância na capacidade do homem de assimilar o Reino de Deus.
Converter-se “ao Evangelho”! O Evangelho para nós, mais do que um livro, é uma pessoa, Jesus Cristo. É necessária a “conversão” ao verdadeiro conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não um conhecimento intelectual, como aquele que se obtém nas aulas de teologia. É preciso um conhecimento de fé, uma experiência viva, como aquela de fala São Paulo: “Na verdade, em tudo isso só vejo dano, comparado com o supremo conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Põe Ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo. Assim poderei conhecê-Lo, a Ele, à força da Sua Ressurreição e à comunhão nos seus sofrimentos, configurando-me à Sua morte, para ver se posso chegar à ressurreição. Não que eu já tenha alcançado a meta, ou que já seja perfeito, mas prossigo a minha carreira para ver se de algum modo a poderei alcançar, visto que já fui alcançado por Jesus Cristo” (Fl 3, 8.10-13).
Desta forma, a Liturgia de hoje nos ensina que penitência é um reflexo de reparação depois de uma falta. Sentimos a insuficiência do homem natural que somos. Tratamos de reparar isso, mas sabemos que o único que pode reparar mesmo é Deus. Por isso, a melhor penitência é: abrir espaço para Deus.
Abrindo espaço para Deus, caminharemos quarenta dias, para vê-lo em toda a sua majestade, o SENHOR RESSUSCITADO QUE NA CRUZ MORREU PARA QUE RESSUSCITEMOS COM ELE. AMÉM!

