“Alegremo-nos todos no Senhor: hoje nasceu o Salvador do mundo, desceu do céu a verdadeira paz!”.
Irmãos e Irmãs,
Vivemos nesta noite santa o mistério da encarnação. A liturgia nos demonstra que o centro da celebração desta venturosa noite é o Evangelho, com o anúncio do nascimento do Salvador.
São Lucas esboça a situação histórica: ocupação romana, recenseamento, viagem de José e Maria para sua cidade de origem – Belém, cidade de Davi, em circunstâncias dificílimas e com grandes percalços, o nascimento da criança que é colocada numa manjedoura, por não haver lugar na hospedaria da cidade. A salvação, a partir do relato, manifesta-se lá, naquele lugar pobre, reclinado numa manjedoura.
Os olhos do mundo não poderiam acreditar: naquele lugar pobre, mas de sincero aconchego, é o Deus forte e invencível quem se faz humilde como os humildes, pobre como os pobres, anunciando a salvação e a redenção pela encarnação.
As testemunhas do teatro da encarnação foram como que escolhidas a dedo pelo anjo do Senhor: os que viviam à margem da sociedade, os que não eram socialmente identificados: pobres pastores. Devem procurar o Salvador, cujo sinal de reconhecimento é sua pobreza, que o identifica com eles: envolto em panos, numa manjedoura. Para dar sinal de veracidade a todo esse teatro da salvação, os coros celestes juntam sua voz à do arauto e entoam o portentoso hino: “Glória a Deus nas alturas e paz aos homens de boa vontade”.
Meus irmãos,
Nesta noite santa, relembramos a promessa do povo do antigo testamento que, desde outrora, esperava o nascimento do rei prometido, aquele que, finalmente, faria valer os interesses de Deus, cuidando do bem-estar do povo, dando-lhes paz e segurança, fazendo justiça. Aqui está a síntese dos anseios do povo eleito que esperava o Messias para que se cumprissem as escrituras.
Desde ontem, todos nós aguardamos esta esperança: “Quando é que Deus virá nos visitar? Quando nascerá a luz desse dia?”.
Noite do nascimento do Salvador é noite de pobreza, de contemplar o cotidiano do homem e da mulher que sofrem e padecem da fome de comida e da fome de dignidade. E o nascimento é o momento em que se irrompe a luz que brilha na escuridão, anunciando aquele que vem visitar nossa casa, o Salvador.
A Boa Nova é para os pobres e para todo o povo. Os pastores representam os que acreditavam nas promessas de Deus, lá no fundo de suas almas. Eles recebem a notícia e logo se põem a caminho de Belém para verem aquilo que lhes foi comunicado.
Meus irmãos,
Um Menino pobre que nos torna rico é o maior presente que recebemos nesta noite santa.
Duas coisas escandalizavam os contemporâneos de Jesus: o fato de ser homem, declarar-se Deus, e, ainda mais, sendo pobre, declarar-se Messias, ou seja, o Salvador.
Jesus nasceu e renasce para andar no meio dos pobres, estropiados, prostitutas, cativos, desempregados, sem teto, sem caso, sem dignidade, doentes, marginalizados, aidéticos, homossexuais, leprosos, todos aqueles e aquelas que se encontram à margem da sociedade.
Jesus nasce nesta noite, pobre no meio dos pobres, sem o direito de nascer em um local mais digno, humanamente falando. Nasceu “sem teto”, não teve berço e suas primeiras visitas foram os pastores, a classe dos excluídos.
Irmãos amados,
Celebramos nesta noite venturosa, como os pastores de antanho, o nascimento da Luz admirável que é o Cristo Senhor.
Abstraiamos em nossas almas o teatro da salvação, em Belém, extasiando-nos com a Luz admirável que é o Cristo que nasce para a nossa salvação.
Jesus nasce para salvar nossos pecados e para inaugurar um novo tempo, tempo de graça, tempo de salvação, tempo de santidade e tempo, que se efetivam hoje como um tempo de evangelização, exercendo o papel de missionários e evangelizadores que pelo Batismo nos foi conferido. Na pregação da Palavra estaremos assegurando a edificação de uma sociedade cristã, em que “justiça e paz se abraçarão”.
Caros irmãos,
O presépio apresenta-nos a lógica de Deus que não é, tantas vezes, igual à lógica dos homens: a salvação de Deus não se manifesta nos encontros internacionais onde os donos do mundo decidem o destino dos homens, nem nos gabinetes ministeriais, nem nos conselhos de administração das multinacionais, nem nos salões onde se concentram as estrelas do jet-set, mas numa gruta de pastores onde brilha a fragilidade, a dependência, a ternura, a simplicidade de um bebé recém-nascido. Qual é a lógica com que abordamos o mundo: a lógica de Deus, ou a lógica dos homens?
Prezados irmãos,
Na primeira leitura (cf. Is 9,1-6) o profeta fala de um “povo que andava nas trevas” e que habitava “nas sombras da morte”. O panorama é sombrio e parece não haver saída, pois os reis de Judá já provaram ser incapazes de conduzir o seu Povo em direção à felicidade e à paz. Mas, de repente, aparece uma “luz”. Essa luz acende a esperança e provoca uma explosão de alegria. Para descrever essa alegria, o profeta utiliza duas imagens extremamente sugestivas: é como quando, no fim das colheitas, toda a gente dança feliz celebrando a abundância dos alimentos; é como quando, após a caçada, os caçadores dividem a presa abundante. Mas por que essa alegria e essa felicidade? Porque o jugo da opressão que pesava sobre o Povo foi quebrado e a paz deixou de ser uma miragem para se tornar uma realidade.
No quadro que representa a vitória da paz, vemos os símbolos da guerra (o pesado calçado dos guerreiros e as roupas ensanguentadas) a serem destruídos pelo fogo. Quem é que provocou a alegria do Povo, derrotou a opressão, venceu a guerra, restaurou a paz? Ninguém duvida que tudo isso é ação do Deus libertador. Como foi que Deus instaurou essa nova ordem? Foi através de “um menino”, enviado para restaurar o trono de Davi e para reinar no direito e na justiça (as palavras “mishpat” e “zedaqa”, utilizadas neste contexto, evocam uma sociedade onde as decisões dos tribunais fundamentam uma reta ordem social, onde os direitos dos pobres e dos oprimidos são respeitados e onde, enfim, há paz).
O quádruplo nome desse “menino” evoca títulos de Deus ou qualidades divinas (o título “conselheiro maravilhoso” celebra a capacidade de conceber desígnios prodigiosos e é um atributo de Deus – cf. Is 25,1; 28,29; o título “Deus forte” é um nome do próprio de Deus – cf. Dt 10,17; Jr 32,18; Sl 24,8; o título “príncipe da paz” leva também a Deus aquele que é “a paz” – cf. Is 11,6-9; Mi 5,4; Zac 9,10; Sl 72,3.7). Quanto ao título “Pai eterno”, é um título do rei – cf. 1 Sm 24,12 – e é um título dado ao faraó nas cartas de Tell el-Amarna). Fica, assim, claro que esse “menino” é um dom de Deus ao seu Povo e que, com Ele, Deus residirá no meio do seu Povo, oferecendo-lhe cada dia a justiça, o direito, a paz sem fim.
É Jesus, o “menino de Belém”, que dá sentido pleno a esta profecia messiânica de Isaías. Ele é “aquele que veio de Deus” para vencer as trevas e as sombras da morte que ocultavam a esperança e instaurar o mundo novo da justiça, da paz e da felicidade. O nascimento de Jesus que celebramos esta noite significa que, efetivamente, este “Reino” chegou e incarnou no meio dos homens. Acolher Jesus, celebrar o seu nascimento, é aceitar esse projeto de justiça e de paz que Ele veio trazer aos homens. Reparemos, ainda, no “jeito” de Deus: Ele não se serve da força e do poder para intervir na história e para mudar o mundo; mas é através de um “menino” – símbolo máximo da fragilidade e da dependência – que Deus propõe aos homens o seu projeto de salvação.
Caros irmãos,
Na segunda leitura (cf. Tt 2,11-14), temos como verdadeiro centro e coração de toda a carta, o autor tenta dar aos cristãos razões válidas para viver uma vida cristã autêntica e comprometida. Quais são essas razões? A primeira é o amor (“kharis”) de Deus, que foi oferecido a todos os homens. É esse amor que possibilita a renúncia à impiedade e aos desejos deste mundo e a vivência da temperança, da justiça e da piedade; sendo os destinatários desse amor transformador e renovador, temos de viver uma vida nova e comprometida com o Evangelho. A segunda é a esperança na manifestação gloriosa de Cristo, que convida os homens a perceber que a terra não é a sua pátria definitiva; quem espera a segunda vinda de Cristo, percebe que só faz sentido olhar para os bens essenciais; consequentemente, desprezará os bens materiais, que só interessam a este mundo. A terceira é a obra redentora levada a cabo por Cristo. Cristo entregou-Se totalmente, até à morte, para nos salvar do egoísmo, do orgulho, do pecado e para fazer de nós homens novos. Ligados a Ele pelo batismo, tornamo-nos um com Ele e recebemos vida d’Ele. Se estamos ligados a Cristo e se recebemos d’Ele vida, essa vida tem de manifestar-se na nossa existência diária.
Irmãos e irmãs,
No Evangelho (cf. Lc 2,1-14) o menino de Belém leva-nos a contemplar o incrível amor de um Deus que Se preocupa até ao extremo com a vida e a felicidade dos homens e que envia o próprio Filho ao mundo para apresentar aos homens um projeto de salvação/libertação. Nesse menino de Belém, Deus dá um longo grito da radicalidade do seu amor por nós. O presépio apresenta-nos a lógica de Deus que não é, tantas vezes, igual à lógica dos homens: a salvação de Deus manifesta-se numa gruta de pastores onde brilha a fragilidade, a dependência, a ternura, a simplicidade de um bebé recém-nascido. A presença libertadora de Jesus neste mundo é uma “boa notícia” que devia encher de felicidade os pobres, os débeis, os marginalizados e dizer-lhes que Deus os ama, que quer caminhar com eles e que quer oferecer-lhes a salvação. Jesus – o Jesus da justiça, do amor, da fraternidade e da paz – já nasceu, de forma efetiva, na vida de cada um de nós, nas nossas casas religiosas, nas nossas comunidades cristãs? Ou a noite de Natal é apenas um evento gastronômico ou cheio de bebidas e comidas? O verdadeiro dono do aniversário, Jesus, o Deus Menino, é pelo menos celebrado?
Caros irmãos,
Nesta noite santa, no seu conjunto, as leituras desta liturgia nos apresentam Jesus como o menino que dá sentido às profecias de Isaías, como aquele que vem dissipar as trevas, as sombras da morte, com sua luz, instaurando um mundo de paz, justiça e amor. Contemplar o presépio nos leva a pensar que a lógica de Deus não corresponde à lógica do mundo, a qual se fundamenta, muitas vezes, em encontros entre alguns poucos poderosos, que tomam grandes decisões, de impacto para muitos. Deus vem ao encontro da humanidade na fragilidade, na ternura de uma criança recém-nascida. Podemos nos interrogar: Qual lógica norteia minha vida? A celebração do nascimento de Cristo nos anima a acolher concretamente a proposta evangélica que ele oferece ao mundo? Como lidamos com situações de violência, discriminação, indiferença… e com todas as obras e atitudes que são trevas?
Prezados irmãos,
Esta noite é a noite da evangélica opção preferencial pelos pobres e pelos excluídos.
Deus Menino, que nasce assume a nossa humanidade e redime esta humanidade, vem ao nosso encontro.
Esta noite é à noite da misericórdia. Noite que significa “ter o coração aberto ao miserável, ao necessitado”. Os necessitados somos nós, pecadores, todos, sem exceção.
Nesta noite de Natal Deus abre o seu coração, rico de misericórdia (Ef 2,4) e derrama sobre nós o seu incomensurável amor, dando-nos a plenitude dos bens, seu Filho, encarnação da misericórdia divina. Misericórdia que é para nós perdão e graça, santificação e vida.
Assim, abrindo nosso coração, esta noite é a noite da Alegria. Nesta noite não há espaço para tristeza, porque nasceu vida, uma vida que destrói o medo da morte e traz a felicidade da comunhão com Deus. Ninguém está excluído dessa felicidade.
Exulta de alegria o santo, porque hoje a santidade é oferecida em abundância a todos.
Exulta o pecador, porque Deus lhe oferece a facilidade do perdão na ternura de uma criança.
Esta é a noite da fraternidade. O Filho de Deus se fez nosso irmão e nós nos tornamos filhos do mesmo Pai, irmãos e irmãs em Cristo (Mt 23,8-9). Por isso, cantamos com Maria: “A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador, porque grandes coisas fez o Todo-poderoso” (Lc 1,46-47).
Que esta noite santa seja a noite da Paz em que, no presépio, reúne pastores e reis, animais e plantas, a terra e as estrelas, num silêncio reverente, e adorem todos a Paz que veio a este mundo!
Cantemos, com renovado entusiasmo: “Glória in excelsis Deo!”.
Nesta noite venturosa nasceu o salvador, assumiu nossa humanidade, venceu o pecado e anunciou a paz e o amor!
LAETO CORDE NOVOQVE CANTO CHRISTVM NATVM ADOREMVS! – De coração alegre e com novo cântico adoremos o Cristo Nascido! Amém!

