3° Domingo da Páscoa – A

Os discípulos de Emaús nos ensina as duas maneiras de ter Cristo: ler as Escrituras à luz de sua memória e celebrar a fração do pão
Homilia discípulos de Emaús
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“Aclamai a Deus, toda a terra, cantai a glória de seu nome, rendei-lhe glória e louvor, aleluia!”(Cf. Sl. 65, 1s).

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Celebramos neste terceiro Domingo da Páscoa o “Querigma”. A Primeira Leitura de hoje(At 2,14.22-33) nos apresenta o “protótipo” da pregação apostólica ou o “querigma”, a pregação de Pedro no dia de Pentecostes. Suprimida a introdução, At. 2,1-21, por ser a leitura de Pentecostes, a leitura inicia com o v. 22, anunciando que o profeta rejeitado ressuscitou, cumprindo as Escrituras. Não se trata de ver aí um cumprimento “ao pé da letra”, mas de reconhecer nos escritos antigos a maneira de agir de Deus, que se realiza plenamente em Jesus Cristo. O importante neste querigma é o anúncio da Ressurreição como sinal de que Deus homologou a obra de Jesus lhe deu razão contra todo o mundo.

Na primeira leitura ressalta-se que Jesus passou pelo mundo realizando gestos que testemunhavam a dinâmica de Deus e a sua proposta de salvação para os homens (At 2, 22); a proposta de Jesus chocou com a recusa do mundo e Ele foi morto na cruz (At 2,23); no entanto, Deus ressuscitou-O, mostrando que uma vida gasta ao serviço do projeto de Deus não pode terminar no fracasso, mas conduz à ressurreição, à vida plena (At 2,24). Pedro é aqui o porta-voz dessa comunidade que testemunhou a oferta de salvação que Jesus veio trazer e que recebeu de Jesus a missão de a anunciar aos homens de toda a terra.
Este primeiro anúncio é dirigido a judeus que conhecem as Escrituras e as promessas de Deus. Por isso, São Lucas vai utilizar argumentos tirados da própria Escritura para apresentar a catequese sobre Jesus. Em concreto, Lucas cita o salmo 16,8-11 (At 2,25-28), atribuído aqui a Davi: trata-se de um dos raros textos do Antigo Testamento onde se vislumbra a vitória da vida sobre a morte. O raciocínio do autor deste discurso é o seguinte: Davi falou de um “amigo” de Deus que haveria de vencer a morte; não era o próprio Davi pois, como todos sabem, ele morreu. Tratava-se, sem dúvida, desse descendente de Davi que, segundo a promessa de Deus, haveria de herdar o trono do seu pai e estabelecer um reino eterno (cf. 2Sm 7,12-16). Era a esse rei, da descendência de Davi, que os judeus chamavam “Messias” (“ungido”); era esse rei, da descendência de Davi que alimentava a esperança de Israel e que era aguardado ansiosamente. A conclusão é óbvia: Jesus é esse que venceu a morte; portanto, é o filho de Davi, o herdeiro do trono ideal de Davi, o Messias que Israel esperava. Temos aqui, portanto, o testemunho da comunidade cristã sobre Jesus, o Messias, enviado ao mundo para cumprir o plano de Deus – isto é, para libertar os homens e para instaurar um Reino de justiça, de abundância, de paz. A vitória de Jesus sobre a morte e a sua exaltação atestam que Ele é esse Messias, enviado por Deus com uma proposta de salvação para os homens. Os cristãos são as testemunhas disto diante de todo o mundo. Por agora, esse testemunho é dado em Jerusalém; mas Lucas irá descrever, ao longo do livro dos Atos, a forma como o anúncio sobre Jesus irá conquistando o mundo, até atingir o próprio coração do império (Roma).

Caros irmãos,

 Já a Segunda leitura(cf. 1Pd 1,17-21) continua a meditação da Primeira Carta de São Pedro iniciada no Domingo passado. Cristo é visto como aquele que nos conduz a Deus. Sua morte nos remiu de um obsoleto modo de viver; por ele, isto é, reconhecendo a validade de seu modo de viver – e morrer – chegamos a crer verdadeiramente em Deus, ou seja, conhecemos Deus verdadeiramente. Deus é aquele que ressuscita Jesus, aquele que dá razão a Jesus e “endossa” a sua obra.

A segunda leitura é uma exortação a viver na santidade (”vivei no temor” – diz o texto; o ”temor” define, no Antigo Testamento, a obediência, a confiança, a entrega a Deus a Deus) ”durante o tempo de exílio neste mundo” (cf. 1Pd 1,17).

O autor apresenta aos batizados a razão pela qual eles são convidados a viver na santidade: Deus pagou um alto preço para os resgatar da antiga maneira de viver. E esse preço não foi pago com ouro ou com prata, mas com o sangue precioso de Cristo, derramado na cruz. A tipologia do Êxodo/libertação está bem expressa na referência (cf. 1Pd 1,19) ao ”cordeiro sem defeito e sem mancha” (qualidades do ”cordeiro pascal”, segundo Ex 12,5), que recordava a noite gloriosa da libertação da escravidão do Egito. A questão é esta: Deus amou de tal forma os homens que enviou ao mundo o próprio Filho (o ”cordeiro” da libertação) com uma proposta de salvação e de vida nova para o Povo de Deus. O egoísmo e o pecado não acolheram essa proposta de salvação e mataram Jesus: esse foi o ”preço” do amor de Deus e da sua vontade de nos fazer chegar à vida plena. Mas a morte de Jesus não foi em vão: da sua fidelidade à missão do Pai, do dom da sua vida, nasceu uma comunidade de homens novos, que acolheram a proposta de Jesus e que aceitaram caminhar ao encontro da vida plena. O cristão é, pois, convidado a contemplar o plano de salvação que Deus quer concretizar em favor do homem e que leva Jesus (o Filho de Deus) a morrer na cruz. Constatando a grandeza do amor de Deus e a sua vontade salvífica, o homem aceita renascer para uma vida nova e santa (mesmo no meio das dificuldades e perseguições). Dessa forma, nascerá um Povo novo, consagrado ao serviço de Deus.

Da fidelidade do Filho ao projeto do Pai resultou o seu confronto com o egoísmo e o pecado e a morte na cruz. Não há maior expressão de amor do que entregar a vida em favor de alguém; e é dessa forma que Deus nos ama. Nesta Primeira Carta de Pedro, essa resposta deve traduzir-se numa conduta nova de obediência a Deus, de entrega incondicional nas mãos de Deus, de adesão completa aos seus planos, valores e projetos.  O mundo em que vivemos potencia mais o egoísmo e a autossuficiência do que o amor e a doação. Os homens do nosso tempo vivem, de forma geral, voltados para si mesmos, para os seus pequenos interesses pessoais e para a realização imediata dos seus sonhos, desejos e prioridades. Nós, os batizados, no entanto, somos convidados a viver e a anunciar a lógica de Deus, que é a lógica do amor e da entrega da vida até às últimas consequências.

Estimados irmãos,

Jesus ressuscitou de fato e se tornou nosso companheiro. O Evangelho deste Domingo(Lc 24, 13-35) nos traz grandes acontecimentos. A sua finalidade principal é documentar uma vez mais a Ressurreição de Jesus de Nazaré e mostrá-lo vivo verdadeiramente, como uma pessoa inteira e verdadeira, embora numa situação diferente e misteriosa. Como a Ressurreição de Jesus é o fundamento da fé católica e apostólica, da fé cristã, o episódio dos Discípulos de Emaús é também o retrato da comunidade, feita de discípulos de boa vontade, mas nem sempre inteiramente identificados com o mistério de Jesus Cristo. Apesar de ler as Escrituras, apesar de conhecer plenamente a vida de Cristo, apesar de escutar as testemunhas do Senhor Ressuscitado, vivem sem esperança, fogem a verdade e preferem andar pela vida mais como simpatizantes longínquos do que como membros conscientes e sensíveis de seu corpo e participantes plenos da missão e do destino de Jesus.

Amigos e Amigas,

Cleófas e seu companheiro de viagem não eram judeus. Por isso São Lucas ressalta estes personagens para nos demonstrar que a salvação veio para todos, indistintamente, para todos mesmo. Jesus não veio somente para os judeus, o povo eleito. Jesus veio para todos, por isso falamos teologicamente na universalidade da salvação. Jesus veio salvar a todos, sem distinção de raça ou de nacionalidade. Para se salvar é preciso aderir ao Cristo Ressuscitado. Na dúvida dos apóstolos e do discípulo está a grandeza da manifestação do Ressuscitado, para abrir os nossos corações, as nossas mentes para vivenciarmos a ressurreição.

Os próprios discípulos tinham uma idéia um pouco vaga de Jesus. Faltava ver Nele o Senhor e Salvador e não pura e simplesmente mais um profeta. A maioria dos discípulos ou dos apóstolos pensavam num Messias que viesse salvar todo o povo judeu, como líder militar. E um general morto nada poderia representar para aquele povo. Mas Jesus não era um general. Jesus era o Filho de Deus. Por isso foi necessário os sinais. Lendo os sinais os discípulos podiam enxergar o Cristo Ressuscitado, como o libertador e o Salvador, Aquele que redimiu a humanidade pela sua paixão, pela sua morte e pela sua ressurreição.

Jesus tinha o maior de todos os poderes: “o poder de dar a vida e retomá-la quando quisesse” (cf. Jo. 10,18). Jesus era homem, filho de carne humana, mas era o Filho de Deus. Não basta simpatizar com a causa de Jesus; é preciso nunca perder de vista a sua dimensão divina. O túmulo está vazio, mas isso não pode ser decepção, mas grande alegria, grande festa, porque Jesus ressuscitou verdadeiramente.

Estimados Irmãos,

Jesus é hoje verdadeiro discípulos de Emaús. O que é o companheiro? O Companheiro é aquele que parte e come o pão com o outro. Sem não houvesse a longa caminhada a pé e a conversa amiga, Jesus não teria tido a ocasião de ser companheiro. E isso era o mais importante. O comportamento de Jesus é o comportamento que cala profundamente no coração daqueles que crêem: Jesus caminha com seus discípulos, adapta-se ao itinerário deles, compreende, tem o coração de amigo, e só depois reparte o pão com eles. Um pão de mesa que, logo, logo, se torna o pão que lhes revela a divindade. Assim, nos também temos que caminhar com Cristo na Eucaristia, ouvir o Cristo, repartir com ele as nossas alegrias e as nossas esperanças, as nossas tristezas e as nossas angústias. Ser companheiro é perder o tempo com o outro. Ser companheiro é caminhar com o outro e repartir o pão na mesma mesa, é mais do que dar de comer, é mais do que esmola. No gesto de Jesus, há uma extraordinária lição de comportamento cristão. Dar de nosso precioso tempo aos outros, do essencial é a vivência plena da novidade cristã.

Caros irmãos,

A perícope de hoje é exclusiva de São Lucas: nenhum outro evangelista a refere. O texto põe-nos a caminhar com dois discípulos de Jesus que, no dia de Páscoa, vão de Jerusalém para Emaús. Os dois homens dirigiam-se para uma aldeia chamada Emaús, a sessenta estádios de Jerusalém (cerca de 12 quilômetros). Uma localidade com esse nome, a essa distância de Jerusalém é, no entanto, desconhecida. Não estamos diante de uma reportagem jornalística de uma viagem geográfica, mas de uma catequese sobre Jesus. O que interessa ao autor não é escrever um relato lógico e coerente (se Lucas estivesse preocupado com a lógica e com a coerência, teria mais cuidado com a situação geográfica de Emaús; e, certamente, explicaria melhor algumas incongruências do texto – nomeadamente porque é que estes discípulos partiram para a sua aldeia na manhã de Páscoa sem investigar os rumores de que o túmulo estava vazio e Jesus tinha ressuscitado). O que interessa ao autor é explicar aos cristãos para quem escreve – na década de 80 – como é que podem descobrir que Jesus está vivo e como podem fazer a experiência do encontro com Jesus ressuscitado. Trata-se, portanto, de uma página de catequese, mais do que a descrição fiel de acontecimentos concretos.

Prezados irmãos,

A liturgia deste dia nos conscientiza de que Jesus, apesar – e por meio – de seu sofrimento e morte, é aquele que realiza plenamente o que a experiência de Deus, no Antigo Testamento, já deixou entrever, aquilo que se reconhece nas antigas Escrituras quando se olha para trás à luz do que aconteceu a Jesus. Ao tomarmos consciência disso, brota-nos, como nos discípulos de Emaús, um sentimento de íntima gratidão e alegria (“Não ardia nosso coração […]?”,  Lc 24,32) que invade a celebração toda, especialmente quando, ao partir o pão, a comunidade experimenta o Senhor ressuscitado presente no seu meio.

A saudade é a benfazeja presença do ausente. Quando alguém da família ou uma pessoa querida está longe, procuramos nos lembrar dessa pessoa. É o que aconteceu com os discípulos de Emaús. Jesus fora embora… Mas, sem que o reconhecessem, estava caminhando com eles. Explicava-lhes as Escrituras. Mostrava-lhes o veio escondido do Antigo Testamento que, à luz daquilo que Jesus fez, nos faz compreender ser ele o Messias: os textos que falam do Servo sofredor, o qual salva o povo por seu sofrimento (Is 52-53); ou do Messias humilde e rejeitado (Zc 9-12); ou do povo dos pobres de Javé (Sf 2-3) etc. Jesus ressuscitado mostrou aos discípulos de Emaús esse veio, textos que eles já tinham ouvido, mas nunca relacionado com aquilo que Jesus andou fazendo… e sofrendo.

Isso é uma lição para nós. Cumpre-nos ler a Sagrada Escritura por intermédio da visão de Jesus morto e ressuscitado, dentro da comunidade daqueles que nele creem. É o que fazem os apóstolos na sua primeira pregação, quando anunciam ao povo reunido em Jerusalém a ressurreição de Cristo, explicando os textos que, no Antigo Testamento, falam dele, como mostra a primeira leitura. Para a compreensão cristã da Bíblia, é preciso ler a Bíblia na Igreja, reunidos em torno de Cristo ressuscitado.

O que aconteceu em Emaús, quando Jesus abriu as Escrituras aos discípulos, é parecido com a primeira parte de nossa celebração dominical, a liturgia da Palavra. E muito mais parecido ainda com a segunda parte, o rito eucarístico: Jesus abençoa e parte o pão, e nisso os discípulos o reconhecem presente. Desde então, a Igreja repete esse gesto da fração do pão e acredita que, neste, Cristo mesmo se torna presente. Emaús nos ensina as duas maneiras fundamentais de ter Cristo presente em sua ausência: ler as Escrituras à luz de sua memória e celebrar a fração do pão, o gesto pelo qual ele realiza sua presença real, na comunhão de sua vida, morte e ressurreição. É a presença do Cristo pascal, glorioso – já não ligado ao tempo e ao espaço, mas acessível a todos os que o buscam na fé e se reúnem em seu nome.

Estimados Irmãos,

Jesus explica as Escrituras aos discípulos de Emaús e reparte o pão com eles. Hoje o Ressuscitado continua a caminhar conosco. Quando partimos o pão da Palavra e quando repartimos o pão da Eucaristia, com os mesmo sentimentos com que Jesus o repartiu com os discípulos de Emaús.

A Missa tem essa dimensão grande: A Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucaristia. Devemos beber das duas fontes: a fonte da Palavra e a fonte da Eucaristia. Uma parte não existe sem a outra, formando uma unidade na missa. Depois de refletirmos os mistérios da criação e da salvação somos chamados a comer o próprio Cristo como maná que desce do céu para alimentar o nosso quotidiano. E isso nós devemos fazer como os discípulos de Emaús. Quando repartimos o que temos e o que somos com nossos irmãos, se estamos sentados à mesa eucarística do pão fraterno, estamos vivendo a eucaristia na vida diária. Repartir o Cristo Eucarístico, em seu Corpo e Sangue; repartir a Palavra de Deus e nossos pedidos pela comunidade, formando uma só família demonstra que somos seguidores do Cristo porque colocamos tudo em comum.

Sejamos fiéis a Cristo, na fração Eucarística, presença real em nossa vida, comunhão de paixão, morte e ressurreição para vivermos uma vida nova, uma vida pascal, do Cristo glorioso que nos chama pelo nome e conosco caminha. Amém! Aleluia!

Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.

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