Enriqueça a sua fé - Artigos e Espiritualidade para formação católica
O que estamos dispostos a perder para viver de verdade? Porque na fé é preciso perder para ganhar!
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O instinto, presente da natureza, é uma das maiores forças existentes nos animais, inclusive no homem. Instinto é impulso, inclinação, tendência natural ou inata; é pulsão de vida para a preservação da espécie e para a autoconservação. Ações ou reações instintivas diante das situações mais complexas ou corriqueiras da vida humana, estão presentes nas atitudes de qualquer indivíduo. Diante da fome, comemos; diante da tristeza, choramos; diante da agressão, nos defendemos; diante do ataque, revidamos; diante do medo, trememos; diante da guerra, lutamos.
O jogador não vai ao campo para perder a partida. O atleta não vai à pista para perder a corrida. O político não vai ao pleito para perder a eleição. O candidato não vai ao concurso para não passar na prova. O aluno não entra na escola para não formar-se. A seleção não vai à Copa para não trazer o título.
Não digerimos perdas com muita facilidade. Perder, em ultima análise, significa morte, frustração, decepção, fracasso, ruína, destruição, tragédia e aniquilamento. Por isso, a natureza instintiva do ser humano pode joga-lo, cada vez mais, no caldeirão fervente da presunção, do orgulho indomável, do altaneirismo, das obsessões desmedidas, das ilusões e do triunfalismo.
De fato, o instinto é pulsão de vida, para a vida, porém, misturado com certas emoções adoecidas, pode gerar, em qualquer indivíduo pulsão de morte, que sobrevive nalgumas manias, fobias e doenças. Nesse sentido podemos nos tornar reféns de nós mesmos.
O instinto é 'fera' que precisa ser domada! Entretanto, a busca, não só do controle e da domesticação dos instintos, mas da aceitação, da compreensão, do entendimento, da autocrítica e da autoconsciência é que faz a diferença e confere sentido à vida, apesar dos instintos. Ora, a fé cristã fala de perdas, de renúncias, de sofrimentos, de sacrifícios, de pobreza, de martírio... identificando-os como valores e virtudes.
Mas, que história é essa? Que conversa é essa? Que valores são esses? Que virtudes são essas? Como aceitar isso como verdade? Ninguém, em sã consciência, deseja perder, sofrer ou morrer! Então, como falar de valor e virtude sobre situações que, imediatamente, remetem ao indesejável?
Para dar razões de fé à vida, é preciso voltar à Sagrada Escritura: voltar ao Evangelho, voltar ao Cristo. Na Sagrada Escritura a vida é, reconhecidamente: um dom, um presente, um chamado de Deus e, ao mesmo tempo, uma tarefa humana. Em outras palavras a vida é dom e conquista; vocação e missão!
Preciosa, a vida só encontra seu verdadeiro sentido, razão e finalidade no seu autor e criador: Deus! Nesse sentido, a verdade e o bem da vida humana no pensar ou no agir, no querer ou no sentir, no fazer ou no esperar dependem da estreiteza da relação de fé com o pensar e o agir, o querer e o sentir, o fazer e o esperar de Deus, como a grande medida. Trata-se, não apenas de viver mas, de saber viver em Deus, por Deus e com Deus. Nesta ótica, faz sentido as palavras de Paulo que diz: "De modo nenhum considero minha vida preciosa para mim mesmo, contanto que eu leve a bom termo a minha carreira e o serviço que recebi do Senhor Jesus, ou seja, testemunhar o Evangelho da graça de Deus" (At 20,24).
Viver deve ser, sempre, uma escolha, uma convicção, uma decisão atual, de cada indivíduo, em vista do Bem Supremo. Mesmo que isso traga renúncias, perdas, sofrimentos, sacrifícios, entregas. Mesmo que isso pareça superar as nossas forças. Mesmo que isso pareça ir contra a natureza. Mesmo que isso pareça restrição à felicidade. É exatamente aqui que se encontra o grande nó, das questões de fé: nem sempre, o contraditório é desprezível; nem sempre o negativo é ruim; nem sempre a perda é frustração; nem sempre a morte é destruição. Nem sempre! A vida não é só prazer, bem estar ou sentir-se bem. A vida é muito maior e mais bonita! Principalmente quando olhamos para cruz e nos damos conta de que a ressurreição (vida nova) é um broto profético de uma vida entregue ao sacrifício de amor.
"Então Jesus disse aos discípulos: 'Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. Com efeito, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que um homem pode dar em troca da sua vida?'" (Mt 16,24-26)... "Quem põe a mão no arado e olha para trás, não
serve para o Reino de Deus" (Lc 9,51-62)... "'O meu justo vive pela fé; mas, se ele volta atrás, nele eu não encontro mais nenhuma satisfação.' Nós, porém, não somos como aqueles que voltam atrás para se perder, mas somos homens de fé, para salvar a nossa vida" (Hb 10,38-39)
Será que não vale a pena fazer uma revisão pessoal da própria vida, para encabeçar algumas mudanças pessoais na forma de viver? O que estamos dispostos a perder para viver de verdade? Porque na fé é preciso perder para ganhar!
Padre Edivaldo Pereira dos Santos
Paróquia de Tarumã - SP