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O tempo da chamada “escravatura” passou pela chamada “abolição”. No entanto, a escravidão continua. Diariamente os noticiários denunciam o “trabalho escravo” nas carvoarias, no corte da cana, nos latifúndios, nas empresas, na prostituição, em outras mil atividades e de outras mil formas. As belas leis garantindo os “direitos sociais”, os “direitos do indivíduo” e a enaltecida “proclamação dos direitos humanos” estão no papel e no papel ficam. Eis por que a Carta a Filemon, que foi escrita a partir de um problema concreto, exigindo uma solução prática, é da maior atualidade. É no concreto, no singular que repousam os valores universais.
1.A agapê. Geralmente é traduzida por “caridade”. Talvez a palavra “solidariedade” expresse melhor o seu sentido. É mais do que um sentimento, mas uma dinâmica das relações sociais de igualdade e de reciprocidade (Gl 5,13-15). As pessoas cristãs, associadas na prática da agapê, vivem fraternalmente, responsáveis em conjunto pelo bem de todos (Rm 8,28; 2Cor 5,14).
2.Koinonia. É a “comunhão”, a comum-união, que se estabelece na solidariedade e na igualdade dos membros da comunidade e é geradora de uma nova sociedade (1Cor 8,1). A razão de ser de uma sociedade é “bem comum”. É ele que confere valor às leis. É ele que justifica a existência de pessoas responsáveis e que se chama de “autoridade”. Portanto, é ele também que justifica a obediência, cuja melhor definição é: virtude do bem comum. Uma virtude que não comporta cegueira, mas que exige lucidez e iniciativa.
3.Escravidão. É uma coisa ignóbil, intolerável, que destrói e arrasa a dignidade da pessoa, reduzindo-a à condição de vil mero objeto, de simples coisa, ferramenta, artigo de barganha. O sociólogo Betinho, que não conseguiu vencer a fome, mas abalou a consciência nacional, costumava dizer que, por causa de nossa triste herança histórica, cada brasileiro tem introjetada a consciência do escravocrata. A Carta a Filemon nos ensina a colocar o dedo nessa consciência e despertar para o verdadeiro valor da fraternidade.
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