Liturgia Dominical
27º Domingo do Tempo Comum - A
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"Senhor, tudo está em vosso poder e ninguém pode resistir à vossa vontade. Vós fizestes todas as coisas: o céu, a terra e tudo o que eles contêm; sois o Deus do universo"(cf. Est 1,9ss).


A liturgia deste domingo nos coloca na perspectiva da reflexão sobre A VINHA DE DEUS.

Um dos textos mais populares da literatura profética era o Cântico da Vinha, alegoria do profeta Isaías sobre a ingratidão da vinha escolhida por Deus, rodeada por ele com todos os cuidados possíveis e que, contudo, não produziu frutos. A vinha é Israel que, em vez de produzir a justiça – o bem que Deus deseja para todos -, institucionalizou o derramamento de sangue e a opressão. Assim se desenrola a Primeira Leitura de Hoje do Profeta Isaías(Is 5,1-7).

Queridos irmãos e irmãs,

Entre as parábolas de Jesus, certamente a deste domingo é a mais dura. Quase diria que esta parábola é a mais direta e radical de todas. Jesus se mostra desanimado de esperar que os corações dos fariseus e dos escribas se amoleçam, que seus ouvidos se abram. É o auge da queixa que Jesus fizera noutra ocasião: “Têm ouvidos e não ouvem, têm olhos e não vêem” (Mt 13,14-15).

Se a parábola de Jesus tinha um endereço certo, e que foi atingido naquele momento, ainda hoje ela continua atual e alcança os que rejeitam a pessoa divino-humana de Jesus de Nazaré e seus ensinamentos? Ou aqueles que, julgando-se donos da verdade, querem apoderar-se da vinha, ou seja, do Reino de Deus?

A vinha sempre foi e sempre será do Senhor. A criatura humana, exatamente por ser criatura, nasceu para o serviço do Senhor e do Reino do Senhor. Por não acreditarem na evidência da divindade de Jesus, fariseus e escribas frustraram a justificação (santificação) que Jesus trouxe; não entram no “Reino dos Céus”.

Na parábola de hoje, Jesus se torna ainda mais forte e duro. Não só não quiseram crer, mas assassinaram os profetas e o próprio Filho de Deus. A parábola foi tão clara que “os sumos sacerdotes e os fariseus entenderam que falava deles” (Mt 21, 45) e se enfureceram.

Jesus toma uma figura bastante familiar: a vinha. Familiar não só porque havia muita vinha na Palestina e era comum seu arrendamento, mas também porque, desde os profetas antigos, o povo de Israel era comparado à vinha.  Por isso mesmo a primeira leitura de hoje lembra que “a vinha do Senhor é a casa de Israel” (Is 5,1-7), por quem Deus tudo fizera. Dela, Deus esperava frutos de direito e de justiça, mas só colheu violência e traição. Também o Salmo Responsorial compara o povo de Israel a uma videira transplantada do Egito para a Terra Prometida e cultivada com carinho por Deus.

Irmãos e irmãs,

A vinha é o Reino dos Céus, por causa de quem Ele viera ao mundo e fizera todo o bem possível. No Reino há lugar para todos trabalharem ou, como dirá em outra parábola, também contada em Jerusalém, há tempo para todos cultivarem e multiplicarem os talentos recebidos de Deus. Talentos que não pertencem à criatura, mas a Deus e só a Ele devem ser devolvidos e multiplicados.

Hoje, Jesus lamenta que, em vez de multiplicar os frutos em santidade ou justiça, os frutos são o homicídio. Os enviados de Deus são assassinados e os fariseus se preparam para matar o próprio Filho de Deus. Jesus prevê a morte que terá cabo a sua vida. Uma morte violenta em que até o lugar é anunciado, ou seja, fora da cidade, no Calvário. É um anúncio profético, porque apresenta a decisão de Deus de substituir o velho pelo novo povo de Deus: “Arrendará a vinha a outros lavradores, que lhe dêem frutos” (Mt 21, 41).

A decisão da traição e da morte de Jesus não é da vontade do dono da vinha, ou seja, de Deus, mas é resultante da vontade, da maldade dos vinhateiros. Jesus faz nascer a decisão de seus próprios lábios. A parábola ainda é profética porque confirma que Ele, Jesus, morto e rejeitado, será a pedra principal, a pedra angular da nova casa de Deus, da nova família de Deus, do novo povo de Deus, da nova e eterna aliança. Na nova vinha, anunciada por Cristo, o Pai encontrará toda a justiça e todo o direito (Is 5,7); encontrará a mais perfeita resposta ao seu amor e ternura.

A parábola deste domingo é profética, ao afirmar que, apesar do homicídio na cruz, a obra de Cristo triunfará e se tornará motivo de admiração. A admiração é o primeiro passo da fé. As obras de Jesus serão sempre, de novo, raiz de uma fé que deverá alcançar e envolver a pessoa inteira do Messias Salvador.

A grande novidade da liturgia de hoje, pela leitura atenta da parábola, é que ninguém é dono da vinha, do Reino. Somos filhos de Deus. Fomos redimidos pela paixão, morte e ressurreição do Filho do Dono da Vinha. A verdade e a salvação pertencem a Deus. E esta verdade e esta salvação só poderão dar frutos se semearmos aqui na terra boa o amor, a acolhida do diferente, a caridade e a misericórdia, tudo o aquilo que vai à contramão do homicídio, da morte e da destruição.

Amor que é misericórdia! Amor que é acolhida! Amor que é gratuidade!

Os vinhateiros homicidas da parábola são os que matam em nome da religião ou em nome de qualquer outro pressuposto direito. Matar alguém é matar o Filho de Deus presente em cada filho e filha de Deus.

As nossas comunidades cristãs e religiosas são constituídas por homens e mulheres que se comprometeram com o Reino e que trabalham na “vinha” do Senhor. Deviam, portanto, produzir frutos bons e testemunhar diante do mundo, em gestos de amor, de acolhimento, de compreensão, de misericórdia, de partilha, de serviço, a realidade do Reino que Jesus Cristo veio propor. É isso que acontece, ou limitamo-nos a ter muitos grupos paroquiais, a preparar organigramas impressionantes da dinâmica comunitária, a construir espaços físicos amplos e confortáveis, a recitar a liturgia das horas, a produzir liturgias solenes, faustosas, imponentes… e completamente desligadas da vida?

Estimados irmãos e irmãs,

Jesus é a pedra que os pedreiros rejeitaram e que se tornou a pedra angular. Isso porque Jesus é o fundamento do novo povo quanto à coroação de tudo e de todos. Jesus é o alfa e o ômega, o princípio e o fim de toda a história da salvação. Somos, assim, convidados a aderir a Cristo e aos seus ensinamentos, com amor e com abertura à sua palavra e à sua misericórdia.

São Paulo (Fl 4,6-9) nos fala e nos mostra, na segunda leitura de hoje, os frutos da justiça, realizada plenamente na pedra que os pedreiros rejeitaram e que se tornou pedra angular: o Cristo – tudo quanto for verdadeiro, nobre, reto, puro, amável, honrado, tudo o que for virtuoso e digno de louvor... Paulo não oferece um elenco de boas ações, de coisinhas para se fazer. Ele tem confiança na consciência do bem que Deus nos deu.

Sejamos gente, em nome de Cristo Jesus, e então produziremos frutos de justiça e o Deus da Paz estará conosco!

Com São Paulo, apoiemo-nos na oração. Devemos pedir a graça da fidelidade para que possamos dar muitos frutos, guardando nossos corações e pensamentos em Cristo Jesus. Amém!

 
 

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