Liturgia Dominical
3º Domingo da Quaresma - A
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"Tenho os olhos sempre fitos no Senhor, porque livra os meus pés da armadilha. Olhai para mim, tende piedade, pois vivo sozinho e infeliz"(Cf. Sl. 24, 15s).

Meus estimados Irmãos,

Como nós já havíamos refletido no primeiro domingo da Quaresma, nos primórdios da Igreja, a Quaresma era o tempo de preparação dos catecúmenos para a solenidade do Batismo. E o terceiro domingo da Quaresma era o momento em que os catecúmenos prestavam o exame de admissão, ou seja, os escrutínios. Neste dia liam-se os grandes textos bíblicos com alusões ao Batismo em referência ao Evangelho de João. Na renovação da vida Litúrgica da Igreja os textos que se referem ao Batismo são lidos e refletidos de hoje até ao 5o. Domingo da Quaresma.

A Primeira Leitura deste domingo e o Evangelho relacionam-se como figura e realização: a água pedida pelos israelitas no deserto prefigura a água viva que Jesus dá. Mas a água exigida pelos hebreus era coisa que eles conheciam e queriam; murmuraram até, pondo Deus à prova, conforme nos anuncia o Salmo Responsorial: “Não fecheis, irmãos, o vosso coração, como outrora no deserto!”(Cf. Sl. 94). A samaritana, entretanto, não conhece nem pede o dom que Jesus, misteriosamente, lhe oferece gratuitamente. Jesus tem de conduzi-la para além de sua incompreensão. E assim, ela mesma provoca a busca dos samaritanos, que acabam se dirigindo a Jesus.

A liturgia deste domingo coloca em evidência a água no sentido simbólico que se apresenta no Santo Batismo. Significa o dom de Deus, que é Jesus mesmo. E como nos ensina a Segunda Leitura, esse dom de Deus é gratuito: seu representante, seu Filho, deu a vida por nós enquanto éramos seus inimigos! Receber essa água, no batismo, é deixar-se envolver com esse amor gratuito de Deus em Jesus Cristo, é comprometer-se com essa imensurável bondade. Isso só é possível porque Deus nos amou primeiro.

Estimados amigos,

O episódio da samaritana nos é apresentado porque ele dá um encantamento a quaresma que é tempo de penitência, de jejum e de oração para bem celebrarmos a Páscoa do Senhor. E este episódio coloca em evidência que a samaritana nos ensina a adorar verdadeiramente a Deus, e com isso nos diz como manter vivo e intenso o contacto entre nós e Deus.

Assim, a conversão é um reavivamento do nosso Batismo, onde a água, pela força divina, nos lavou dos pecados, nos abriu as portas do céu. Não a água em si, mas aquele que ela significa: o Redentor, o Salvador, o Cristo Senhor.

O Batismo não pode ficar preso apenas a um ritualismo de tirar a criança do paganismo. O Batismo envolve toda a vida do cristão e gera um compromisso de participar da vida da comunidade, de crescer em sabedoria, em caminhar em santidade para termos três atitudes básicas na vida dos batizados: o louvor, a reverência e o serviço a Cristo pelos irmãos.

Meus irmãos,

Jesus usa, por doze vezes, o termo mulher no Evangelho de hoje. Por isso é importante notar que a Samaritana se torna o modelo de verdadeira discípula de Jesus. Isso porque ela convida seus conterrâneos com as palavras da fé: “vinde e vereis!”. Verdadeira discípula porque a samaritana ouve, abre o coração e a mente à verdade, crê com fidelidade e dá ao mundo o testemunho. Essa deve ser a nossa atitude nesta preparação mais próxima para a Páscoa.

Isso porque Jesus, um Judeu, passando pela Samaria, teria que superar uma antiga rivalidade entre os judeus e os samaritanos, que se evitavam, se odiavam e se provocavam mutuamente. E isso, muitas vezes, infelizmente ocorrem em nossas famílias, em nossas comunidades e em nossas Paróquias. Jesus estava sentado ao lado do poço, Ele o Filho predileto do Pai do Céu, capaz de dar não apenas um poço de água corrente, mas água viva, que jorra para a vida eterna.

Naquele tempo, nenhum homem descente abordava uma mulher em público, conforme o costume, tanto judeu quanto samaritano. Assim, um judeu que se prezasse não pedia jamais um favor a um samaritano. Jesus, entretanto, quebra dois preconceitos ao mesmo tempo, coisa que escandalizou aos seus próprios discípulos: conversa com a samaritana, mulher e pede a ela que lhe desse de beber.

Isso tem um significado muito especial para todos nós: Jesus veio para chamar os pecadores à conversão, não importando qual a categoria de seu pecado, se leve ou grave, se público ou privado, Jesus veio dar um rio de água viva, que é a mudança de vida, a emenda de comportamento e a graça pela santidade.

Jesus chocou os hebreus que detestavam os pecadores. Os hebreus que não acolhiam o diferente, como a samaritana que era pagã, de vida desregrada, e, infelizmente mulher. Seria uma insanidade perder tempo, qualquer rabino que fosse, passando ensinamentos para uma mulher.

Jesus vai na contra-mão: tem uma atitude de misericórdia, abrindo o coração a uma pessoa necessitada de sua ajuda.

Essa “água viva” de que Jesus fala faz-nos pensar no batismo. Para cada um de nós, esse foi o começo de uma caminhada com Jesus… Nessa altura acolhemos em nós o Espírito que transforma, que renova, que faz de nós “filhos de Deus” e que nos leva ao encontro da vida plena e definitiva. A minha vida de cristão tem sido, verdadeiramente, coerente com essa vida nova que então recebi? O compromisso que então assumi é algo esquecido e sem significado, ou é uma realidade que marca a minha vida, os meus gestos, os meus valores e as minhas opções?

Atentemos no pormenor do “cântaro” abandonado pela samaritana, depois de se encontrar com Jesus… O “cântaro” significa e representa tudo aquilo que nos dá acesso a essas propostas limitadas, falíveis, incompletas de felicidade. O abandono do “cântaro” significa o romper com todos os esquemas de procura de felicidade egoísta, para abraçar a verdadeira e única proposta de vida plena. Eu estou disposto a abandonar o caminho da felicidade egoísta, parcial, incompleta, e a abrir o meu coração ao Espírito que Jesus me oferece e que me exige uma vida nova?

Estimados Irmãos,

A misericórdia que tem muitas faces: misericórdia que gera justiça, misericórdia que dá o pão a quem tem fome. E o pão que interessa é o pão da vida eterna, que dá alimento para o contacto com o Criador. Por isso somos convidados a nos esforçarmos não pelo pão que perece, mas pelo alimento capaz de dar a vida eterna, a vida em Deus, conforme nos ensinou Jo 6,27.

A água do Batismo gera a fonte da vida eterna. O Batismo é o sacramento porta, que abre as portas da eternidade, apagando nossos pecados e nos tornando herdeiros da vida divina. No Batismo nos tornamos morada da Santíssima Trindade.

Para ser Batizado é necessário conhecer o dom de Deus; reconhecendo no Cristo o Messias e Salvador e sair do pecado e de si mesmo e ir ao encontro de Jesus, fazendo a vontade do Pai, realizando no  mundo as obras que o Pai quer e continuar a missão de Jesus na terra, dando sempre o testemunho da pessoa divina-humana de Jesus.

Amados Irmãos,

Ao lado do poço, aonde a humanidade vem buscar a água que mata a sede e purifica o corpo, Jesus se apresenta como a água viva, capaz de satisfazer por inteiro a sede espiritual da humanidade. Jesus é a fonte de água viva e quem beber desta água nunca mais terá sede. Amém!

 
 

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