Liturgia Dominical
32º Domingo do Tempo Comum – C
Por: Padre Wagner Augusto Portugal
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"Chegue até vós a minha súplica; inclinai vosso ouvido à minha prece" (cf. Sl. 87,3)

Meus caros irmãos,

Neste domingo, queremos pedir a Deus a graça da vida eterna. Os antigos judeus acreditavam que a virtude era recompensada pelo bem-estar: paz na terra que receberam de seus pais, longa vida e muitos filhos. Porém, as crises nacionais fizeram suspeitar que o sentido da vida era outro. Na perseguição do século II a.C., morreram muitos jovens virtuosos, sem ter possuído a terra, nem desfrutado uma longa vida, nem suscitado prole. Onde estava, então, a recompensa?  Foi se firmando a fé numa pós-vida, já entrevista por alguns profetas e salmistas. Essa pós-vida  era conhecida como ressurreição do homem todo; o judaísmo não imaginava uma pós-existência da alma separada. Alguns acreditavam numa ressurreição dos justos, enquanto os ímpios seriam para sempre esquecidos. Por isso parece ser a fé dos mártires macabeus, relatada pela primeira leitura deste domingo.
        
Caros fiéis,

Na Primeira Leitura(cf. 2Mc 7,1-2.9-14), encontramos a fé na ressurreição dos justos para a vida. No relato do martírio dos sete irmãos, no tempo da revolta dos macabeus, aparece claramente a fé na ressurreição. Os homens não podem destruir a vida, se é Deus que a quer. Ele pode ressuscitar os mortos. Biblicamente falando, o homem é uma unidade inseparável de corpo e alma. O homem inteiro recebe de Deus esperança de vida eterna. Para os ímpios não há ressurreição para a vida, mas – conforme Dn 12,2, escrito contemporâneo de 2Mc – sim para a rejeição e vergonha eterna.

Na Segunda Leitura(cf. 2Ts 2,15 – 3,5), encontramos a Oração do apóstolo da comunidade e da comunidade pelos apóstolos. A oração pela comunidade, dirigida a Deus e Jesus ao mesmo tempo, baseada no amor que Deus mostrou mandando ao mundo seu Filho, que se ofereceu por nós. Depois, o apóstolo pede a oração da comunidade para os mensageiros: primeiro, para que a Palavra de Deus seja difundida; segundo, para que os homens a acolham como Palavra Divina. O que, em última análise, acontece pela força do próprio Deus.
        
Irmãos,

Jesus chegou a Jerusalém(cf. Lc 20,27-38 ou 20,27.34-38). Jesus chorou sobre a cidade. Fez uma entrada triunfal, expulsando os vendilhões do templo. E, na casa de Deus, pôs-se a ensinar o povo “anunciando-lhe a boa nova, quando os sumos sacerdotes e os escribas com os anciãos do povo apareceram para interrogá-lo”. (cf. Lc 20,1)

O capítulo 20 do Evangelho de São Lucas traz algumas discussões de Jesus com os sábios do templo: os escribas e os anciãos do povo que pertenciam ou ao grupo dos fariseus ou ao grupo dos saduceus. Observe-se a semelhança de Jesus adulto, ensinando no templo, sendo interrogado pelos sumos sacerdotes e outros sábios, com o episódio contado por Lucas, quando ele tinha apenas 12 anos e entrava para a comunidade dos adultos. O menino, como que por acaso, ficara no templo e fora encontrado por José e Maria, “sentado no meio dos doutores, que o ouviam e lhe faziam perguntas; e todos que o escutavam, maravilhavam-se da sua inteligência e de suas respostas”(cf. Lc 2,46-47).

Terminado o tempo de sua vida pública, Jesus está novamente no templo sendo interrogado pelos doutores. Não com simpatia, mas para conseguirem motivos para prendê-lo e para matá-lo(cf. Lc 20,19). Os grandes de então foram ouvir Jesus: os sumos sacerdotes, os anciãos do povo, os fariseus, os escribas, os saduceus. Eram eles que dirigiam o povo. Eram eles que decidiam o que era certo e errado em todos os campos da sociedade: na religião, na justiça, na política, na família e no social.

Os saduceus, fundados por Sadoc, que representavam os sumos sacerdotes, eram hebreus, mas só aceitavam o que Moisés dissera no Pentateuco, que é o conjunto formado pelos livros de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Neste grupo estava representada a aristocracia sacerdotal e laical, a classe mais rica e influente do povo de Israel. Os saduceus se interessavam mais pelo jogo político do que pelo jogo religioso. Os saduceus negavam a existência dos anjos e de outros espíritos(cf. At. 23,8). Mas, sobretudo, os saduceus negavam a ressurreição(cf. Mc 12,18-27; At. 4,1-2), tema, aliás, bastante obscuro no Antigo Testamento. Só textos sagrados mais recentes falavam da vida depois da morte, como Daniel 12,2: “Muitos dos que dormem na terra despertarão; uns para a vida eterna, outros para a eterna abominação”. Ou passagens como as da morte dos irmãos Macabeus e sua mãe(cf. 2Mc 7), escritas em torno de 130 a.C., quando já existia a seita dos fariseus, que acreditavam na ressurreição. Ora, a ressurreição seria o tema fundante e fundamental da Nova Aliança. Jesus devia esclarecê-lo, também em vista de sua Ressurreição, que seria a prova cabal de sua divindade e de sua missão.

Irmãos e Irmãs,

Os saduceus fizeram uma pergunta a Jesus sobre a ressurreição, de forma irônica, provavelmente para chacotear os fariseus, a quem pouco antes Jesus comparava a homicidas(cf. Lc 20,19). Jesus, entretanto, leva a sério a pergunta. Jesus foi buscar a resposta no Pentateuco, aceito sem discussão por fariseus e saduceus. E a tira da boca de Deus em diálogo com o maior e mais considerado homem da história dos judeus, Moisés, no episódio da sarça ardente, exatamente o momento em que começa toda a história da libertação dos hebreus e o nascimento deles como povo, povo escolhido por Deus: “Eu sou o Deus de Abrãao, de Isaac e de Jacó(cf. Ex 3,6). Deus não diz “Eu fui o Deus de Abraão”, mas “eu sou”. o que significa que Abraão, Isaac e Jacó estão vivos e continuam a adorar a Deus.

O alcance do argumento de Jesus era bem mais amplo do que aquele contexto de ressurreição para os fariseus que acreditavam que a ressurreição fosse um prolongamento da vida presente, uma espécie de plenitude dos prazeres terrenos.

Para Jesus, quem morre entra na vida eterna, na contemplação da vida divina. O mundo futuro não consiste na continuação da vida atual do corpo, por isso não precisam de casamento. Jesus, porém, não esclarece que tipo de corpo teremos, mas apenas afirma que seremos iguais aos anjos(cf. Lc 20,36), e faremos uma comunhão com Deus(cf. Lc 20, 36), ou seja, viveremos a vida do próprio Deus. O mistério da ressurreição foi explicitado por Jesus, sobretudo com sua própria Ressurreição. A partir da Páscoa, os Apóstolos passaram a chamar-se “testemunhas da Ressurreição”(cf. At 2,32) e dela fizeram o centro de toda a pregação e o fundamento da fé cristã.

Assim, Jesus ressuscitou dos mortos. Jesus distingue entre os dois tempos: o presente, na carne, que é marcado pelo ter, pelo possuir e pelo poder. Neste tempo tudo é transitório, marcado por inúmeras separações, a mais sentida delas que é a morte. O outro tempo vem marcado pelo dar-se e dar a vida: Deus dá a vida(cf. Lc 20,38), uma vida que não conhecerá mais a morte; Deus dá-se a si mesmo, fazendo com quem se revestiu da eternidade uma só comunhão, embora conservando nós nossa identidade de criaturas, que Jesus chama de “filhos de Deus, iguais aos anjos”(cf. Lc 20, 36). Iguais aos anjos, porque a vida que recebemos através da geração carnal, como pensavam os fariseus e ensinavam ao povo, mas mediante a graça da ressurreição na Ressurreição do Cristo.

É participando da Ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo que participaremos do mistério de sua filiação divina. Se a ressurreição consiste em “estar sempre com o Senhor”(cf. 1Ts 4,17), o viver neste mundo exclusivamente para o Senhor e com o Senhor já tem o gosto da eternidade. A certeza da Ressurreição não deve ser, apenas, uma realidade que esperamos; mas deve ser uma realidade que influencia, desde já, a nossa existência terrena. É o horizonte da Ressurreição que deve influenciar as nossas atitudes; é a certeza da ressurreição que nos dá a coragem de enfrentar as forças da morte que dominam o mundo, do ter, do ser, do poder indiscriminado, de forma a que o novo céu e a nova terra que nos esperam comecem a desenhar-se desde já.

Somos convocados pela liturgia de hoje a sermos testemunhas da ressurreição. Hoje, para muitos, custa crer numa vida futura. Esse fenômeno, por um lado, à crítica marxista que vê na esperança da vida eterna uma evasão da responsabilidade pela transformação deste mundo e, por outro lado, à civilização do bem-estar toda voltada para uma felicidade hedonista neste mundo. Nós, católicos, somos testemunhas da ressurreição, dizendo que o nosso Deus é o Deus dos vivos e não dos mortos, fazemos uma afirmação que não se refere só à vida futura, mas também ao presente. Deus dos vivos, dos que hoje já são verdadeiramente vivos, empenhados inteiramente na vida, para melhorar a situação da humanidade. A vida que não pode terminar, porque é a própria vida de Deus; vida que, portanto, continua além da morte física.

Viemos de Deus, e com a morte, voltamos para Ele. A Morte é o encontro maravilhoso com os amigos e parentes, na visão beatífica do Pai. Para este encontro queremos nos preparar, na companhia do nosso melhor amigo, DEUS. Demos graças a Deus pelo dom da vida e a garantia da ressurreição em Cristo Jesus, Amém!

 
 

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