Liturgia Dominical
 
18º Domingo do Tempo Comum - B
 
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"Meu Deus, vinde libertar-me, apressai-vos, Senhor, em socorrer-me. Vós sóis o meu socorro e o meu libertador; Senhor, não tardeis mais." (Sl 69,2.6)

Somos chamados a refletir neste domingo sobre resignação diante da vontade de Deus e o verdadeiro “Pão da Vida”. A prefiguração do sagrado alimento vemo-la na primeira leitura (Ex 16,2-4.12-15), em que Deus sacia o povo com o maná no deserto. O Senhor concede o alimento necessário para a caminhada de seu povo, caminhada ambígua, a caminho da terra prometida. Deus ouve a súplica de seu povo e os sacia com o “pão que desce do céu”, como canta o salmista: “O Senhor deu a comer o pão do céu” (Sl 78). Concretamente o maná é um produto natural – resina de tamareira -, mas no contexto do Êxodo, era um sinal da incansável providência de Deus.

O caminho de Israel pelo deserto é ambíguo. O povo é duro de cerviz e de coração e murmura contra Javé. No entanto, Deus é generoso e atende ao murmúrio do povo com “o pão que desce do céu”, como diz poeticamente o Salmo 78. Na realidade, o maná é um produto natural, resina de tamareira, mas, no contexto do Êxodo, era um sinal da incansável providência divina. 

O maná, no Antigo Testamento, é um pão material, dado por Moisés apenas como um bem transitório diante da fome eminente. É uma antecipação das delícias que no tempo vindouro seria concedido ao povo que fosse fiel a Deus e aos seus preceitos. A transitoriedade daquela fonte de energias constata-se na disposição do Senhor, de que não se poderia conservá-lo, e todos os dias o concederia novamente àquele povo. Mas o alimento que um dia iria se perpetuar pelo sacrifício da cruz, até nossos dias, esse é o alimento para a vida eterna, o lídimo “Pão da Vida”.

Meus caros irmãos,

Na meditação da palavra, nesta celebração, estamos diante de uma oposição tipológica ente o maná, o “Pão do Céu” do Antigo Testamento, e Jesus, o verdadeiro “Pão da Vida” do Novo Testamento. Constitui-se, assim, a explicitação daquilo que foi sugerido pelo “sinal do pão”, na liturgia do último domingo. Como o maná do Antigo Testamento, também o pão da multiplicação dos pães é apenas material e quem o procura por seu valor material está perdendo o mais importante. Nesse ponto inicia-se a reflexão sobre o Evangelho de hoje (Jo 6,24-35).

No Evangelho de São João, Jesus revela a si mesmo como o dom de Deus, assinalado por esta realidade para quem quiser acreditar. Ele quer abrir os olhos da multidão, que no milagre do pão só viu fartura material, ao invés de um “sinal” (Jo 6,26). É a pedagogia do Divino Mestre realçando o alimento espiritual que não perece (Jo 4,29).

O acesso ao alimento que Jesus propõe está na fé no Enviado de Deus (Jo 6,29). Quando os judeus pedem um sinal, como o de Moisés, que fez descer o pão do céu, Jesus responde diretamente: “Moisés não deu o pão do céu. O pão do céu é o que desce do Pai e que dá a vida ao mundo. Os judeus, ainda pensando em termos materiais e humanos, pedem este pão para dispensar do trabalho” (Jo 6,34). E o Cristo se revela como o dom que vem de Deus para dar a vida ao mundo.

Jesus multiplicou os pães e se retirou com seus discípulos para rezar, porque vira que o povo o entendera mal (Jo 6,14-15). Na montanha, estava sozinho, enquanto os seus discípulos atravessavam o lago. O povo observava tudo isso. Procuravam então Jesus perto do lugar onde tinha sido realizado o milagre, mas, não o encontrando, voltaram a Cafarnaum, em outros barcos (Jo 6,22-24). Em lá chegando, encontram o Mestre, quer atravessara o lago andando sobre as ondas. A primeira pergunta que lhe dirigem demonstra seu espírito sensacionalista, o mesmo espírito que os levou a ver na multiplicação dos pães não um sinal, mas apenas a saciação de sua fome. E a repreensão de Jesus é imediata (Jo 6,26). Os judeus não entenderam a atuação de Jesus.

Ora, se o maná para Moisés era um alimento transitório dado aos judeus, naquela circunstância Jesus coloca o maná em oposição ao pão. Isso se deve ao fato de o pão ser uma comida que não perece, mas que permanece para a vida eterna. Trata-se do “Pão da Vida”, uma obra de Deus mesmo. O pão é uma realidade determinada: é Jesus em pessoa, acolhido na fé (Jo 6,35).

Emoldura essa oposição o diálogo em que os judeus, por um lado, aparecem preocupados com a Lei, mas obtusos, por outro, quanto à realidade de Deus. Recolher o maná no deserto era uma obra mandada por Deus (Ex 16,4). Eles estão procurando mais uma obra assim, mas Jesus lhes diz que a obra do Pai é acreditar no seu Filho Jesus (Jo 6,28).

Quando os judeus pedem um sinal como o de Moisés - que era o maná -, Jesus responde que o sinal não era de Moisés, mas de Deus. E este mesmo Deus dá agora um novo sinal de sua vontade. Ao mesmo tempo, mais do que um sinal, Deus oferece a plenitude mesma de sua obra: o seu enviado bendito, Jesus Cristo, que faz o homem viver verdadeiramente por sua palavra. Por isso mesmo, o Salmo Responsorial evoca a maravilha do pão que Deus “fez chover do céu”.

Meus irmãos,

A segunda leitura, da Carta de São Paulo Efésios (4,17.20-24), apresenta-nos a necessidade de revestir-se em Jesus Cristo do homem novo. Cristo é o homem novo. Nele se plenifica a palavra do Criador, ao criar o homem à sua imagem e semelhança (Gn 1,27 - Ef 4,24). Por isso, devemos despir-nos do homem velho, inautêntico, e revestir-nos com o homem novo, que vive pra sempre a verdade e a santidade.

Assim, Paulo nos apresenta uma dialética do novo e do velho. O antigo ou velho, não é tanto o sistema da Lei judaica, mas o paganismo, do qual boa parte dos cristãos de Éfeso são oriundos. Nem mesmo se pode dizer que os pagãos procuravam “obras de Deus” ultrapassadas, como os judeus. Simplesmente, eram movidos pelas concupiscências.

Mas, se os judeus procuravam Jesus por causa de serem saciados com pão, será que seu interesse era realmente as “obras de Deus?” Seja como for, tanto o judeu apegado ao sistema mosaico, quanto o pagão envolvido com ídolos falsos, deve abrir o ouvido para Cristo, a palavra da verdade, que vem de Deus.

Irmãos e Irmãs,

Somos chamados a ir ao encontro de Jesus, o “Pão da Vida”. Muitas vezes, iludimo-nos com sinais e milagres externos, com práticas levianas, imediatas. Devemos entregar nossa vida e nossos caminhos àquele que traz o selo de garantia de Deus (Jo 6,27), arriscar o caminho da vida que ele nos mostra em nossa própria pessoa. Ele não apenas ensina. Ele é a Palavra, fala por sua maneira de ser. Ele se nos apresenta e, na medida em que temos comunhão com ele, imbuindo-nos de seu modo de ser, de seu espírito, vivemos realmente. A vida dada é a verdadeira que nunca perece.

Caros irmãos,

Neste domingo, celebramos a memória de Jesus Ressuscitado que se revela como Pão da Vida, pão que alimenta e sacia nossa fome de sentido, de rumo e direção na vida. Celebramos, também, a páscoa de Jesus que se manifesta na vida das pessoas que se comprometem na luta contra a miséria e a fome e assim revelam a vontade do Pai de alimentar todos os seus filhos e filhas.

O mês de agosto é dedicado à oração e à valorização das vocações específicas. Por isso, neste domingo, continua sendo a celebração da Páscoa de Cristo, servidor de todos e doador da Vida.

Neste domingo, recordando São João Maria Vianney, padroeiro não só dos párocos, mas de todos os sacerdotes, somos chamados a rezar pelo nosso Bispo Diocesano, pelo nosso pároco e por todo o clero. Graças ao sacerdócio ministerial, renova-se a partilha do pão. Pão de Deus que vem em socorro de nossas misérias.



 
 

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