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"Recebemos, ó Deus, a vossa misericórdia no meio do vosso templo. Vosso louvor se estenda, como o vosso nome, até os confins da terra; toda a justiça se encontra em vossas mãos." (Sl 47,10s)
Meus irmãos e minhas irmãs,
Neste domingo, vamos refletir sobre a sorte do profeta: a rejeição. Trata-se de um tema muito atual no continente americano, particularmente no nosso Brasil, que clama por justiça e por dignidade social.
A primeira leitura(Ez 2,2-5) nos ensina que Ezequiel é enviado a um povo “duro de cerviz”, mesmo enquanto vivia no exílio. Como Jeremias no passado, Ezequiel lembra a Israel seu passado rebelde. O povo hebreu se revolta contra Deus e mata os seus profetas, inclusive o Enviado, Jesus de Nazaré.
Ezequiel é chamado “filho do homem”, o que significa sua pertença à frágil raça humana – não confundir o “Filho do Homem”, a figura celestial de Dn 7,13, identificada com Jesus como Juiz escatológico. Ele nada mais é do que um homem, um servo, e nesta humilde condição incumbe-se a ingrata missão de explicar ao “resto de Israel”- o povo desmembrado depois da parcial deportação em 597 aC – sua situação aos olhos de Deus. Não gostarão do recado: rejeitar os profetas é costumes deles, desde Moisés até o próprio Cristo. Mas, pelo menos, saberão que está um profeta no meio deles, isto é, que Deus não fica calado.
O profeta deve marcar presença, por isso o povo deve saber que o porta-voz de Deus esteve no meio dele. Daí a missão do profeta: comer a palavra de Deus, que é doce como mel, mas causa amargura ao profeta. Aceito ou rejeitado, o profeta tem que proclamar, oportuna ou inoportunamente, o Reino de Deus. Profeta não é uma missão de diplomata. Pelo contrário, há um momento em que a palavra deve ser dita com toda a clareza: é o tempo, é o momento do profeta.
Meus irmãos,
O Evangelho(Mc 6,1-6) relata-nos que o povo de Nazaré não soube enxergar em Jesus o Filho de Deus. Não tiveram fé para enxergar com os olhos da fé e ouvir com os ouvidos da esperança, e entender com o coração repleto do amor.
Nazaré, cidade em que Jesus se criou, era uma cidade sem expressão no Antigo Testamento. Talvez uma vila sacerdotal, uma cidade ignorada por todos os homens do tempo de Jesus. Cidade pobre, lugarejo onde se cultivava trigo, linho, vinhedos, olivais e árvores frutíferas, como a figueira. Naquela localidade, José, pai votivo de Jesus, era carpinteiro e certamente ensinou a seu Divino Filho o mesmo ofício.
Jesus entra na sinagoga no dia de sábado. O povo hebreu reuni-se em sua assembléia, sobretudo no dia do descanso. Depois de uma oração, lia-se um trecho, ou em torno da Lei ou em torno dos Profetas. Depois dessa leitura, alguém com mais de 30 anos fazia um comentário e, por fim, era dada a bênção de Aarão (Num 4,24-26).
A sinagoga de Nazaré era um local muito familiar a Jesus, porque a freqüentara desde criança e todos ali o conheciam. Mas, até então, Jesus não tinha a idade exigida para explicar os Profetas. Agora, passando os 30 anos, aceitou o pedido da comunidade que, ao ouvi-lo, espantou-se com sua sabedoria e com a interpretação que dava aos textos sagrados. Como era possível tanto conhecimento, se não fizera nenhum curso especializado com os rabinos e os escribas? Que estalo acontecera?
A primeira reação dos nazarenos deveria ser de reconhecer em Jesus um enviado especial de Deus, como o povo eleito teve Isaías, Jeremias, Moisés e outros grandes homens repletos da ação de Deus. Essa atitude levaria os hebreus a ouvirem Jesus e levar em consideração o seu ensinamento. Uma segunda atitude seria ver em Jesus um momento em que estava possuído pelo demônio. E, por fim, uma terceira atitude, olhando apenas o lado humano, o lado familiar, escandalizando-se como Jesus sendo profeta.
Infelizmente, os nazarenos preferiram rejeitar Jesus.
O que houve?
Foi o escândalo. Os Nazarenos não acreditaram na mensagem de Jesus; suas palavras, ao invés de abrir o coração e a mente daquela gente, fixou-a na incredulidade.
Assim, muitas vezes, vemos se concretizar a palavra de Jesus no Evangelho de hoje: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares” (Mc 6,4).
Meus irmãos,
A experiência de Paulo(2Cor 12,7-10), relatada na segunda leitura, vai na mesma direção. Paulo descreve as dificuldades de seu apostolado, gloriando-se contra aqueles que se gloriam na observância judaica e outros pretextos para destruir a obra da evangelização que ele está realizando. Pede a seus leitores suportarem um pouco de loucura de sua parte: seu próprio elogio.
Mas que elogio! O currículo de Paulo não está cheio de diplomas, concursos e obras publicadas, mas de loucuras mesmo. Ele se gloria de sua fraqueza, de sua prisão, de suas tentações, de seu remorso do passado de perseguidor de cristãos, “anjo de Satanás”, uma provação semelhante à de Jô.
No entanto, importa-nos a releitura e o sentido que Paulo dá: impedir que se encha de soberba. O evangelho vale mais que ouro; o apóstolo é apenas um recipiente de barro. Se ele produz efeito, é o espírito de Deus que o produz. Para o apóstolo, basta a graça, isto é, que Deus realize a sua redenção, sem depender de nossas qualidades humanas. Em nossa fraqueza é que seu poder se manifesta. Jesus não pode fazer milagres em Nazaré: fraqueza também. Mas Deus realizou seu plano na suprema “fraqueza” de Cristo: sua morte na Cruz. Junto a ele há lugar para os “fracos”, que nele tornam-se fortes.
Irmãos e irmãs,
Hoje a Santa Igreja deve ser para o povo o profeta que denuncia os desvios da mensagem do Evangelho e protesta em nome dos mais fracos e injustiçados, lutando por mais justiça social, por mais inclusão de emprego, de moradia, de comida. A voz profética deve também ser ouvida dentro da Igreja para uma vivência cada vez mais autenticamente evangélica. Só assim, estaremos realizando o Reino de Deus neste mundo. Amém!
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