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“O Senhor é a força de seu povo, fortaleza e salvação do seu ungido. Salvai, Senhor, vosso povo, abençoai vossa herança e governai para sempre os vossos servos”. (Sl 27, 8s)
Meus irmãos e minhas irmãs,
Na meditação do Evangelho de hoje(Mc 4, 35-41), vem-nos a pergunta que permeia toda a liturgia deste domingo: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (Mc 4,41).
Falando das tempestades, poderíamos dizer tempestades da fé. Estamos ainda em pleno segredo messiânico. Aproximamo-nos, porém, do momento em que esse segredo será parcialmente desvendado, pelo menos para os discípulos, embora sem que o compreendam.
A Jó é feita uma pergunta por Deus: “Quem fechou com comportas o mar?” (Jó 38,8). Até Jó se dá conta do estado nebuloso de seu pensar e confessa: “Disseste bem: quem obscurece assim a providência com discursos tolos? Falei de maravilhas que me superam sem compreendê-las. Fizeste bem, interrogando-me para que respondesse. Meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora meus olhos te viram. Agora posso retirar-me” (Jó 42,2-6).
O livro de Jó não é só, nem principalmente, um livro de lamúrias. É uma profissão de fé no Deus criador e mantenedor da criação. Reclamar contra a manutenção de Deus testemunha uma visão muito curta, se Ele fez tantas coisas maravilhosas e insondáveis no universo. A Sagrada Escritura nega-se a dar uma resposta superficial à problemática de Jó, mas lhe dá como pano de fundo o mistério do Deus vivo e verdadeiro. A lamentação de Jó ganha, finalmente, uma resposta: Deus lhe fala, não para resolver o mistério do sofrimento, mas para mostrar a sua presença. Mostra-a no meio das forças da natureza, apresentando-se como o que a domina. Ao experimentar a presença de Deus, Jó aprende que há alguém que é maior do que o seu sofrimento, e volta em si memo.
Meus irmãos,
Jesus dá ordens para que os discípulos tomem uma barca e atravessem o lago em direção às terras pagãs de Gérasa. A noite, no Evangelho que refletimos, tem um significado escatológico, de salvação daqueles que estão nas trevas, na escuridão, no pecado. A aventura do grupo, em companhia de Jesus, no meio da tempestade, lembra o acontecido na sinagoga de Cafarnaum: um espírito imundo reage à presença de Jesus. Jesus dá-lhe ordens de calar-se e sair do homem. O espírito, agitando-o violentamente, deu um grande grito e saiu. E todos ficaram admirados.
Esse mesmo ensinamento se repete no Evangelho de hoje. Os discípulos estavam apavorados com a situação da viagem dentro do mar. Eram muitos os questionamentos e estávamos no início da missão: noite tempestuosa. Quando sentiram que o barco iria afundar apelaram para Jesus, que deu ordens ao vento e ao mar e recompôs a calmaria.
Assim nós devemos relembrar da passagem bíblica: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Realmente, sem a presença de Deus em nossas vidas, pela mediação de Jesus Cristo, nada poderemos fazer. Por isso devemos fazer ponte com outra passagem do Evangelho de João: “Coragem! Eu venci o mundo!” (16,33). Que o poder de Jesus estava evidente ninguém mais duvida. O que ocorre, entretanto, é que os discípulos sentiram e deveriam dar testemunho que Jesus dominava os demônios que moravam no fundo do mar e era o Homem que veio para dar a libertação aos cativos, conforme ficou evidenciado quando libertou um possesso em Gérasa.
Cristo foi o verdadeiro catequista para os apóstolos no Evangelho de hoje, corrigindo os erros e as doutrinas que não condiziam com o seu projeto de salvação. Por isso, Ele venceu o mundo quando ao morrer na Cruz redentora anunciou uma nova e eterna aliança: a vida eterna. Essa era, pois, a mensagem que os apóstolos deveriam pregar, a da chegada do Reino de Deus a hebreus e pagãos.
Apesar do mal, apesar das borrascas tenebrosas ocasionadas pela presença do mal no mundo, o Reino é possível, porque Jesus está presente. A atenção e a luta serão incessantes, o medo virá, mas o pensamento de que Jesus “está conosco” no mesmo barco de nossa vida, de nossa caminhada cotidiana, significa a garantia para a nossa vida.
Irmãos e irmãs,
A tempestade do mar da Galiléia foi provocada, segundo entendimento dos apóstolos, pelos demônios que moravam no fundo do mar. Este episódio toma um sentido de luta de poderes entre os espíritos do mal e Jesus de Nazaré, encarnação do espírito do bem.
Esta luta entre o bem e o mal ocupa largo espaço na literatura bíblica. A idéia de que os espíritos do mal morassem nos abismos do mar aparece clara nalguns salmos que cantam a passagem do Mar Vermelho, sempre vista pelos israelitas como uma tremenda vitória de Deus para libertar o povo do mal da escravidão. O livro de Jó foi escrito exatamente para mostrar a existência dos dois princípios, do bem e do mal, e no trecho que lemos hoje, como a primeira leitura, encontramos um Deus soberano do mar, pondo-lhe limites, isto é, mostrando-se senhor e acima dos espíritos do mal, exatamente como Jesus hoje na barca.
O Evangelho deste domingo também nos fala da humanidade de Jesus. Uma humanidade que está tão presente em sua vida na terra, quanto hoje ela se manifesta no gesto de dar ordens ao mar revolto. O evangelista quis ressaltar a verdade de seu poder divino a que se sujeitam todas as criaturas, boas e más.
Não se travam batalhas para ver quem é mais forte. Simplesmente, Jesus tem poder, dá ordens, é obedecido. Sua natureza humana, que lhe traz cansaço e sono, não se altera com o gesto de sua natureza divina.
Meus irmãos,
O amor de Cristo por nós é tão grande que, de algum modo, nós nos identificamos com ele: somos seu corpo. Para Paulo, isso é muito real. Nossa incorporação com Cristo é uma realidade espiritual. Diz respeito à criatura nova que somos no Espírito. O Apóstolo nem quer mais conhecer a Cristo de modo carnal. Isso não quer dizer que Ele não dê importância à história humana de Jesus, mas que essa história não é apenas humana, mas divina. É a história de Deus que nos renovou em Cristo.
Ora, se Jesus parece estar dormindo ou recostado no travesseiro estamos muito enganados. Muitos preferem ver o Cristo da Sexta-feira da Paixão: morto e ponto final! Assim ele não incomoda nossas situações de pecado. Mas, o Cristo é a luz que ilumina a nossa vida, que caminha conosco lado a lado, que é nosso porto seguro.
Meus irmãos,
O amor de Cristo nos tem em seu poder. Esta parte da Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios é fortemente marcada pela idéia de morte, que, nesse domingo, toma ares místicos, ao ponto de parecer loucura para alguns. Se Cristo, diz Paulo, morreu por nós, solidariedade, nós todos morremos, naquele que tomou nosso lugar. Vivermos, então, não mais por nós, mas por aquele que morreu por todos. Morremos para tudo que seja meramente humano. O modo de perceber a realidade - inclusive o próprio Cristo – mudou radicalmente. Para quem é de Cristo, tudo é novo.
Nosso Deus não é o deus das falsas seguranças humanas. Não é a fórmula que soluciona as nossas dificuldades e os nossos problemas; seria ele um Deus alienante, tapa-buracos. Nossa fé nele não é fuga nem irresponsabilidade. Mereceria suspeita uma fé tranqüila, fácil, sem problemas. A fé é compromisso contínuo, exatamente, porque crê apesar das tempestades nas quais é continuamente posta à prova.
O silêncio de Deus é uma das grandes qualidades que distingue Deus dos homens. No silêncio da história caminha a voz que deve guiar nossas vidas. Assim, nas aflições da vida, procurando segurança em Deus, encontramos Jesus diante de nós. Poderoso, sim, mas isso, em última instância, por meio da Cruz, por meio de sua doação de amor. Aí, Jesus revela o poder maior de Deus em sua pessoa. Reconhecendo isso, teremos confiança para enfrentar as tempestades de nossa história.
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