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"O Espírito do Senhor encheu o universo; ele mantém unidas todas as coisas e conhece todas as línguas, aleluia." (Sb 1,7)
Meus amados Irmãos,
Nesta solenidade de Pentecostes, celebramos o grande mistério de nossa fé em que a Paz anunciada pelo Ressuscitado, ascenso ao céu, retorna ao Cenáculo para impor os dons do Espírito Santo sobre os seus Apóstolos, na presença da Bem-aventurada Virgem Maria, como havia prometido: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece, mas vós o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós. Não vos deixarei órfãos. Voltarei a vós” (Jo 14,15-18).
A Solenidade de Pentecostes é, pois, a plenificação do mistério pascal. A comunhão com o Ressuscitado só é completa pelo dom do Espírito Santo, o “outro Paráclito”, que continua em nós a obra do Cristo e a sua presença gloriosa.
A liturgia desta festa acentua menos, no entanto, este lado teológico, insistindo mais na manifestação histórica do Espírito Santo, no milagre de Pentecostes, conforme nos ensina a Primeira Leitura, e nos carismas da Igreja, de acordo com o relato da Segunda Leitura, sinais de unidade e de paz que o Cristo veio trazer.
A Igreja, sacramento da unidade, nos relembra que a pregação dos apóstolos, anunciando o Cristo Ressuscitado, supera a divisão de raças e línguas e a diversidade de dons na Igreja serve para a edificação do povo unido, o Corpo do qual Cristo é a cabeça.
Caros fiéis,
A Primeira Leitura apresenta o milagre das línguas(cf. At 2,1-11). A Solenidade de Pentecostes é interpretado como o acontecimento escatológico a partir da profecia de Joel. Mas, sobretudo, é o cumprimento da palavra do Cristo. Passa como um vendaval ao ouvido, como fogo aos olhos; mas permanece como transformação do pequeno rebanho em Igreja Missionária. Também hoje a Igreja de Cristo se reconhece pelo espaço que dá ao Espírito e pela capacidade de proclamar a sua mensagem.
Meus amigos,
Disse o Apóstolo dos Gentios que “o amor de Deus se derramou em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rom 4,5). Por isso, a celebração maior de Pentecostes, a manifestação de Cristo Glorificado, é considerada a maior festa da Igreja, em comum união com a festa da Páscoa.
Pentecostes é a festa da plenitude dos tempos, predita pelos profetas. É a festa do início dos tempos da Santa Igreja Católica, da nova e definitiva aliança, a que todos somos convidados, a que todos somos vocacionados. É a festa da comunidade cristã, da comunidade eclesial, da comunidade de fiéis, porque estas comunidades não existem sem o Espírito Santo, que é a alma, que é a fonte de vida para a Igreja. Pentecostes é a festa da unidade que dá o impulso apostólico da pregação a todos os povos, para todas as línguas, para todas as nações. A fé transcende os umbrais do povo hebreu, devendo ser anunciada a todos sem distinção.
Com Pentecostes, em que o Senhor desce na presença redentora do Cenáculo, os discípulos, inundados com os sete dons do Espírito Santo, tornam-se APÓSTOLOS, ou seja, passam a ser enviados em nome de Cristo, como Cristo, um dia, fora enviado em nome do Pai.
A presença da Bem-aventurada Virgem Maria tem um significado muito especial: presente na Cruz, dada a João, o discípulo amado, a sua presença no meio dos apóstolos a coloca como Mãe e Mestra da Igreja de Cristo.
Ali em Pentecostes estava a Igreja nascente, o Corpo Místico de Cristo. Por isso, os novos Apóstolos, hoje batizados no Espírito Santo, correrão mundo afora, reunindo crentes e não crentes, para criar comunidades, animá-las e santificar aqueles que aceitarem o nome glorioso do Senhor Jesus.
Irmãos e irmãs,
A festa de Pentecostes nos pede uma reflexão sobre a presença do Espírito Santo na história da salvação. Não conhecido no Antigo Testamento, ou mesmo chamado de Deus desconhecido por Paulo em Atenas, coube a Jesus revelar a existência de um Deus único e verdadeiro em três pessoas distintas. É pelo Espírito Santo que se abrem os horizontes pelos quais se movimentam e se compreendem todas as verdades da fé cristã.
O Espírito Santo é visível como o próprio Cristo. Representado por símbolos como o vento, a pomba e as línguas de fogo elas não são uma espécie de encarnação do Espírito Santo, mas figuras que nos ajudam a compreendê-lo em linguagem humana, o quanto é possível entendê-lo e guardá-lo em nossos corações.
O Espírito Santo Paráclito. O que é o Paráclito? Vem do grego que significa “aquele que vem para nos ajudar”. O Espírito Santo pode ser considerado o nosso ADVOGADO, o nosso CONSOLADOR ou, ainda, O ESPÍRITO DE VERDADE.
Orígenes disse que o Espírito Santo é o beijo: o Pai beija, o Filho é beijado, o Espírito Santo é o beijo. Uma figura bonita, assimilável ao homem moderno. Outros dizem que o Espírito Santo é o abraço. O Pai abraça o Filho com todo amor. Esse amor é o Espírito Santo. Ora, poderíamos dizer, a mãe abraça e beija o filho com todo o amor de mãe, querendo dar-se inteiramente nesse beijo e abraço. Nem por isso consegue dar-se totalmente.
O rosto do Espírito Santo tem muitas maneiras de se mostrar. A mais significativa figura do rosto do Santo Espírito é o AMOR, que se consubstancializa pela proteção que Ele dá aos batizados e pelo auxílio de seus sete dons a todos os homens e mulheres para sua santificação.
Meus queridos irmãos,
A segunda Leitura(1Cor 12,3b-7.12-13) mostra-nos a operação “intra-eclesial” do Espírito: a multiformidade dos dons, dentro do mesmo Espírito, como as múltiplas funções em um mesmo corpo. Paulo chama a multiformidade de dons de CARISMAS, dons da graça de Deus. Sabemos muito bem que essa unidade na diversidade não é algo que conseguimos na base de nosso empenho pessoal, é, entretanto, o Espírito de amor de Deus que une tudo isso. Jesus é o Senhor é a confissão que une a Igreja primeva. E esta confissão só se consegue manter na força do Espírito. Como a unidade da confissão, o Espírito dá, também, a multiformidade dos serviços na Igreja. Todos que pertencem a Cristo são membros diversos do mesmo corpo.
Assim, no Evangelho encontramos a visão de São João de “exaltação” de Jesus: é a realidade única de sua morte, ressurreição e dom do Espírito, pois sua morte é a obra em que Deus é glorificado, seu lado aberto é a fonte do Espírito para os fiéis.
Portanto, este Espírito do Senhor exaltado é o laço de amor divino que nos une, que transforma o mundo em uma nova criação, sem mancha, nem pecado, na qual todos entendem a voz de Deus. É esta a mensagem da liturgia de hoje. O mundo é renovado conforme a obra de Cristo, que nós, no seu Espírito, levamos adiante. Assim é a festa da Igreja que nasceu do lado aberto do Salvador e manifestou sua missão no dia de Pentecostes.
Meus irmãos,
Com a missão da Igreja colocada em relevo no dia de hoje, devemos aprender a ver os sinais da presença do Espírito Santo e a valorização dos diferentes dons que ele confere a diferentes pessoas. Na Igreja, de muitas faces e facetas, de grandes diversidades na eclesiologia, reside a única missão: anunciar a PÁSCOA e vivenciar em nós a maior comunidade de amor a partir da visão Trinitária.
Pentecostes é festa da paz. Mas, para ter essa paz é preciso estar em estado de graça. Pelo perdão de nossos pecados e de nossas atitudes, o Espírito age. Na diferença de pessoas, de carismas, de modos eclesiais, todos somos convidados a vivenciar o perdão como remédio que não deve faltar ao cristão, convocado a carregá-lo para aliviar as doenças deste mundo confuso e necessitado de paz.
Paz é a palavra de hoje. Paz, primeiro, em nossas comunidades eclesiais, paz na Igreja, paz no mundo. Paz de consciência para a construção do amor e da concórdia.
Por isso, cantemos a seqüência “Veni Sancte Spiritus”, pedindo paz ao mundo:
“Espírito de Deus, enviai dos céus um raio de luz!
Vinde, Pai dos pobres, daí aos corações vossos sete dons.
Consolo que acalma, hóspede da alma, doce alívio, vinde!
No labor descanso, na aflição remanso, no calor aragem.
Enchei, luz bendita, chama que crepita, o íntimo de nós!
Sem a luz que acode, nada o homem pode, nenhum bem há nele.
Ao sujo lavai, ao seco regai, curai o doente.
Dobrai o que é duro, guiai o escuro, o frio aquecei.
Daí à vossa Igreja, que espera e deseja, vossos sete dons.
Daí em prêmio ao forte, uma santa morte, alegria eterna. Amém!”.
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