Liturgia Dominical
 
Sagrada família, Jesus, Maria e José - B
 
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"Vieram apressados os pastores, e encontraram Maria com José e o Menino deitado no presépio".(cf. Lc 2,16).

A Festa da Sagrada Família insere-se, teologicamente, na linha da missa da Noite de Natal: a contemplação da condição humana de Jesus. Mas aproveita esta contemplação para encaminhar algumas atitudes concretas para a vida de todos os cristãos de boa vontade, especialmente no relacionamento para com a família, a célula “mater” da sociedade.

A vida da família de Jesus, e, especialmente, a vida de Jesus é um modelo para a vida de todas as famílias cristãs e de todas as comunidades, não somente na linha moralista, nas na linha de comunhão de vida e comunhão de amor, aonde as vidas se fundem em um só coração e em uma só alma.

O importante no dia de hoje é presenciarmos o mistério da Família de Nazaré, para, imbuídos pelo seu espírito, voltar à nossa própria situação pessoal.

Meus irmãos,

A primeira e a segunda leitura elenca um código moral para que possamos viver na nossa vida de família. Estas perícopes não ensinam apenas um bom comportamento, mas, sobretudo, a participação do Mistério da humanidade de Deus: o amor entre os pais e os filhos é extensão e seguimento do amor que Deus tem por nós. Somente depois de ter colocado esta fundamentação, Paulo lembra aos seus paroquianos os bons costumes da civilização judaica na qual vivem. A lição para nós hoje é a seguinte: tomando consciência de que a vida familiar é inserir-se no plano salvífico de Deus, valorizemos positivamente as chances que a estrutura familiar nos dá, para realizar algo de amor que Deus nos mostrou, nos ensinou e nos encaminhou, para que tudo o que fizermos, fazermos em nome do Senhor Jesus.

A Primeira Leitura(cf. Eclo 3,2-6.12-14) nos apresenta as regras para a vida familiar – Regras de sabedoria judaica para a vida familiar. Deve prevalecer o respeito dos pais, o bom comportamento e o bom senso.

A Segunda Leitura(cf. Cl 3,12-21) apresenta o amor de Cristo, fundamento das regras da vida familiar. São Paulo cita, brevemente, as regras da boa família helenística. A norma, porém, de tais regras não é o mero “bom comportamento”, mas Cristo mesmo. Ele dá aos homens viverem juntos na paz e no amor. Isso vale para a família e para a comunidade. Onde vive a paz, a Palavra de Cristo encontra acolhida; aí, também, descobre-se a alegria na oração e no trabalho em comum, cada dia.

Irmãos e Irmãs,

Hoje não é possível mais vivermos a família patriarcal. Na maioria das famílias já é reconhecida a paridade, isto é, os direitos iguais, responsabilidades semelhantes para o homem e para a mulher, dentro daquilo que o Código de Direito Canônico ilumina toda a vida matrimonial: “O matrimônio é uma união indissolúvel e unitária, como comunhão de vida e de amor, para toda a vida”. Dentro desta comunhão de amor e de vida, de doação, dando-se e recebendo-se mutuamente, todos nós somos convidados a construir a família na co-responsabilidade do amor, edificando a Igreja Doméstica, como prefiguração da “civilização do amor” nas palavras do Papa Paulo VI, de santa memória.

Meus irmãos,

Ao celebrar, hoje, a Sagrada Família, a Liturgia quer realçar o ambiente humano, concreto, em que se criou o Filho de Deus. Uma família externamente igual a todas as famílias de Nazaré. Uma mãe, que tecia a roupa do marido e do filho. Um homem, José, pai legal de Jesus, que trabalhava na carpintaria. Uma família normalíssima também na pobreza, que levava uma vida diária no trabalho, na oração, na alegria e no sofrimento.

A Sagrada Família ilumina a nossa reflexão acerca do papel de seus atores. José, chamado de “homem justo”(cf. Mt 1,19). Maria, a “agraciada por Deus”(cf. Lc 1,28). Jesus, o menino, por ser o primogênito, fora consagrado ao Senhor, como mandava a Lei de Moisés(cf. Ex 13,2.12.15). E Jesus teve que aprender a ler e a escrever como todas as crianças da escola e decorar as orações costumeiras das famílias judaicas e assimilar a Lei de Moisés, com as diferenças estabelecidas pelos Doutores do templo. Sobre esta família pousava o Espírito Santo de Deus. Com esta família “estava a graça de Deus”(cf. Mt 13,44), porque José fazia às vezes de Deus Pai, Maria se tornara a Mãe de Deus e o menino era o “Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os Séculos”(cf. ensinamento do Símbolo da Fé).

A Festa da Sagrada Família é o momento privilegiado que a liturgia nos oferece para celebrarmos esta realidade tão importante e atual em nossas vidas: somos família. O Pai Eterno quis ser hóspede em nossa vida: somos Igreja Família. Deus, na sua misericórdia infinita, se fez tão próximo, tão íntimo, que se tornou familiar para nós, tornou-se um de nós, membro da nossa família, gente muito próximo, ou seja, de casa.

Somos família também porque a fé em Cristo nos faz todos irmãos e irmãs. Jesus veio fazer parte da grande família humana, revelando a dignidade de todos e de cada ser humano. Veio também congregar numa só família, que é a Santa Igreja Católica, aqueles e aquelas que, acolhendo ao projeto do Pai, se põem a viver e construir novas relações entre si, relações de amor, de serviço e de vida.

Diante de tudo isso cabe uma pergunta: aonde vai a família? Como vai a família? Aqui vale a mensagem de Dona Carmem Damasceno Assis, falecida em 2008, depois de uma vida virtuosíssima, ao se dirigir a outro Santo, Dom Luciano Mendes de Almeida: “Senhor Arcebispo, reze muito pela família. Parece que ela está desaparecendo. Sem família não há Deus”.

A preocupação da saudosa confessora da fé, Dona Carmem, deve ser a preocupação de todos os homens e mulheres de boa vontade: olhar para a realidade de sua família e procurar ajudar que a sua família se configure cada vez mais aos mistérios da Família de Nazaré. Não há tesouro maior do que o amor de pai, o amor de mãe, o amor de filho para pai e vice-versa.

Como a Encarnação do Cristo eleva a natureza humana a ser capaz de conter Deus – assim também sua habitação num lar humano faz deste lar uma casa de Deus, o que é a vocação de todos os lares: serem lugares de tanta bondade, que até Deus aí se sinta em casa. Esta é a missão nossa, fazer de nossas famílias, casa e morada de Deus, assim, construiremos aqui e agora a grande família de paz e solidariedade em Cristo Senhor.

Caros fiéis,

O Evangelho de hoje(cf. Lc 2,22-40  ou 2,22.39-40) é o da Apresentação de Jesus no Templo e a profecia de Simeão. Era lei em Israel que os primogênitos deveriam ser resgatados de Deus, a quem pertenciam, por um sacrifício. Na mesma ocasião, a mãe apresentava um sacrifício para a sua purificação ritual. Os pais de Jesus submetem-se a estes costumes arcaicos. Nesta ocasião, Ana e Simeão testemunharam que Jesus não é liberado por Deus, mas, ao contrário, lhe pertence de modo especial. A profecia de Simeão conta o cumprimento da promessa de salvação, mas também anuncia já a sorte que aguarda Jesus e que tornará sua mãe a “Mãe das Dores”. Como as palavras dos pastores, ela guarda tudo isso no seu coração. No fim, segue uma notícia sobre a infância de Jesus no lar de Nazaré.

Maria e José apresentaram o seu filho a Deus. Este gesto nos ensina o sentido profundo do batismo das crianças: as nossas crianças, regenerados pelas águas do batismo, são entregues a Deus para participar da missão profética de sua Igreja. A missão da família é aquela que se abre à graça da comunidade dos batizados, participando da missão da Igreja, que é a vontade do Pai.

Meus caros irmãos,

A Família de Nazaré é para nós um vivo exemplo de modelo de fé.  Maria foi uma mulher, uma mãe que acreditou no Senhor em todas as circunstâncias, inclusive na paixão e morte de Jesus, inclusive quando sepultou o Filho, para quem estava prometido “o trono de Davi e um reinado sem fim”(cf. Lc 1,32-33). Pode-se dizer que aquilo que São José fez o uniu, de maneira magnífica e especial, à fé de Maria: ele soube aceitar como verdade proveniente de Deus o que Maria tinha aceitado na Anunciação. Maria e José fizeram o seu itinerário de caminhada de fé. Foram verdadeiros “peregrinos da fé”. Fé nas promessas escutadas. Fé vivida no cotidiano na guarda, educação e crescimento do menino. Foram os primeiros depositários do mistério divino.

A Liturgia de hoje, também, apresenta uma outra família, a de Abraão, Sara e Isaac. Abraão é chamado de nosso “pai na fé”. Ele funda toda a vida unicamente sobre Deus e não vacila nem mesmo no momento em que Deus lhe pede o sacrifício do filho único(cf. Gn 22,1-19). É bom notar a esperança de Abraão a quem Deus prometera multiplicar a descendência como as estrelas do céu(Cf. Gn 15,5). Podemos proclamar que Abraão acreditou no Senhor. São Paulo, assim, nos ensina que Abraão encarna a fé que é o fundamento do que se espera e a convicção das realidades que não vêem(cf. Hb 11,1).

Por isso, a Igreja coloca a Sagrada Família e a Família de Abraão, Sara e Isaac como modelos a serem seguidos. Modelos de quem aderiu, com fé autêntica e verdadeira, à vontade de Deus. A fé verdadeira,que se abre para Deus, ouve a sua Palavra e a coloca em prática(cf. Lc 8,21), mesmo que seja necessário esperar contra toda a esperança humana(cf. Rm 4,18). A fé que devemos professar ao mundo é integrante da nossa família, da nossa condição humana, e é isso que hoje celebramos. Celebrar a vida na família, como experiência de uma caminhada de fé autêntica e atuante, evangelizadora. Que Jesus, Maria e José nos ajude neste bom propósito.



 
 

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