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"Hoje surgiu a luz para o mundo: O Senhor nasceu para nós. Ele será chamado admirável, Deus, Princípe da paz, Pai do mundo novo, e o seu reino não terá fim"(cf. Is 9,2.6; Lc 1,33).
Queridos irmãos,
Depois de termos celebrado a Solenidade da Noite de Natal, nas primeiras horas desta manhã, ainda de madrugada, celebramos a Missa da aurora de Natal que, substancialmente, é a continuação da missa da noite.
Na primeira leitura, o profeta Isaías(Is 62,11-12) canta para nós: “Eis, aí vem teu Salvador!”. O profeta, qual um arauto, dirige-se à Filha de Sião, isto é, os habitantes de Jerusalém, para anunciar a Salvação de Deus; ele re-adotou o seu povo, chamando-o de volta do exílio. Não porque o povo o mereceu, mas porque Deus assim quis fazer. Os nomes que a Cidade agora recebe ultrapassam a sua libertação política: só ganham seu pleno sentido no novo povo dos redimidos, na nova e eterna Aliança. Deus volta como salvador e remunerador da humilhação sofrida pelo seu povo. Perante Deus eles serão santos e, diante dos outros povos, redimidos pelo Senhor, enquanto a sua cidade não será mais como uma mulher abandonada, mas como uma mulher ansiosamente desejada.
Caros fiéis,
Na Carta de São Paulo a Tito(cf. Tt 3,4-7), observamos que em Jesus manifestou-se a bondade de Deus, que faz ver que diante de Deus ninguém é bom por si mesmo. A auto-justificação é auto-ilusão, por isso mesmo, somente Deus nos liberta em Jesus Cristo. Aprofundando um ponto fundamental da doutrina apostólica, São Paulo apresenta a manifestação de Jesus – no natal e em toda a sua vida: como não exigida pela obra do homem, mas como fruto unicamente do amor e da misericórdia de Deus. A finalidade desta ação de Deus é tornar-nos seus filhos, regenerando-nos através do batismo por meio do Espírito Santo, para que possamos tender à posse total da salvação. Deus amou tanto o mundo que nos mandou o seu Filho Unigênito. É graça, misericórdia, porque Deus é movido pelo amor por nós, não pelos nossos méritos e obras. Deus sente por nós benignidade e ternura, como uma mãe por seus filhos. Deus nos justifica, de graça. Sua única exigência é que aceitemos a sua benignidade e o seu amor humano; e este aceitar é a fé fiducial, a confiança que nos leva a dar pleno crédito a Deus.
Prezados fiéis,
O Evangelho desta aurora natalina(Lc 2,15-20) nos apresenta a adoração dos pastores. Os pastores são pouco contados na sociedade daquele tempo e na nossa. Não são graúdos, nem cultos, nem piedosos. São insignificantes. Mas recebem, por primeiro, a Boa-Nova, um Deus Menino nos é dado para nos salvar. Acreditam na Palavra e reconhecem na pobre criança o Salvador. Maria guarda suas palavras no coração, até o momento de as entender plenamente.
O Evangelho descreve os pastores que vão a Belém adorar o Senhor. O acontecimento é de salvação. Como é a salvação este evento deve ser anunciada. Os pastores acolhem o anúncio do Nascimento do Messias e por isso, encontram-se com Cristo. Deste doce e santo encontro emanam, como força irresistível, o anúncio ou testemunho e o louvor de Deus. Os pastores encontraram a Luz divina, que é Cristo. Esta luz invade o nosso coração, como há dois mil anos, invadiu os corações dos pastores. Mais do que uma luz, Jesus nasce no nosso coração e deve brilhar as nossas mentes, com uma fé viva, porque o Princípe da paz, o Pai do mundo novo, o Filho Admirável de Deus está em nosso meio, e o seu reinado jamais terá vim.
Queridos irmãos,
A aurora do Natal nos ensina a ter duas atitudes importantes diante do presépio: a fé e a transformação interior de nossas vidas. Se os pastores foram prestativos em atender ao convite do anjo, o que devemos acentuar nesta aurora é a nossa fé. Não a fé meramente doutrinária, mas a fé que consiste em ter confiança no Mistério que envolve a nossa existência com uma luz inesperada – acreditar numa voz de anjo, adorar um menino numa manjedoura, constatar que Deus é diferente, bem mais próximo de nós do que imaginávamos.
Maria Santíssima nos serve aqui de exemplo e de imitação: Maria guarda no seu coração e medita o que os pastores lhe contaram. Homenagem filial à fé dos simples, pois a fé dos simples é guardada no coração da Mãe do Salvador.
Caros irmãos,
O Senhor visita a Cidade Santa. Um mistério tão antigo mas sempre novo, em que o Senhor, também, visita a nossa cidade, a nossa vida.
Isaías transmite uma mensagem de esperança à Cidade Santa: o Senhor vai chegar, acompanhado do povo, que resgatou do exílio e salvou da solidão e do sofrimento. Desponta a aurora duma vida nova para Jerusalém, pois o salvador vem visitá-la, para a cumular de graça.
Esta mensagem de alegria não se destina apenas à Cidade Santa, mas deve ser proclamada até aos confins da terra, visto que só em Jesus Cristo se realiza, totalmente, a promessa divina de salvação para todos os homens. «N'Ele, de facto, todas as promessas de Deus se tornaram sim» (2 Cor 1, 20). Deus amou-nos tanto que nos mandou o Seu Filho para nos salvar e fazer de nós um Povo Santo.
Na Missa da Noite, a Igreja apresentou-nos o seu Cristo – o Verbo eterno, o dominador, porém, em carne, habitando entre nós, no meio do Seu povo. E nós contemplámos a Sua glória e a Sua humilhação, ao mesmo tempo que, unidos aos anjos e a todos os homens, demos graças a Deus pela paz que nos ofereceu em Cristo.
Agora a liturgia, inundada pela luz da nova aurora, que desponta para o mundo, descreve-nos os efeitos do Nascimento do Salvador para a humanidade de todos os tempos.
O Natal não é um acontecimento passado. Através da Igreja, o mistério do Natal conserva toda a sua actualidade. N'Ela, todos os homens são chamados a receber de Jesus a vida divina, «tornando-se filhos no Filho único. Feliz natal e que Cristo nasça de fato em sua vida!
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