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"Céus, deixai cair o orvalho; nuvens, chovei o justo; abra-se a terra, e brote o Salvador!" (Is 45,8)
Meus irmãos,
Chegamos ao quarto domingo do Advento, carregado de uma simbologia muito forte: a promessa de Deus e o “sim” do homem.
A Primeira Leitura(2Sm 7,1-5.8b-12.14a.16) diz que Senhor está interessado no bem-estar de seu povo. O rei Davi, que morava em um confortável palácio, preocupava-se com a situação da Arca da Aliança, que se encontrava abrigada numa tenda simples. A Arca representa muito mais do que a morada do Senhor. Ela acompanha o povo e a sua caminhada, por isso Davi queria dar uma acomodação melhor, mais digna e, por conseguinte, segura para Deus junto do seu povo.
Natan, no entanto, surpreendeu a Davi dizendo que Deus não está preocupado com a suntuosidade, com o luxo e com o bem-estar. Mais do que palácios e arcas, o primeiro para acomodar o poder e o segundo para o culto, o importante é o bem-estar do povo de Deus, do povo sofrido, do povo excluído, do povo espoliado por políticas de exclusão que priorizam o capital em detrimento da pessoa e da sua dignidade de filhos e filhas de Deus. O rei e o governante, que recebem a investidura de seu poder por parte do Senhor Deus, devem ter como preocupação precípua é o bem-estar e a bonança do povo de Deus.
O questionamento de Natan para com Davi é o questionamento que deve ser feito na nossa vida. Enquanto David foi ungido rei, ele logo se preocupou com a Arca, se esquecendo que o primordial é a preocupação com o povo a quem governava. Portanto, o importante é que os homens da Igreja e os homens e mulheres de boa vontade estejam preocupados na qualidade de vida, em todos os sentidos, do povo de Deus, sem ter medo de denunciar tudo aquilo que atinge a dignidade da pessoa humana.
Meus irmãos e minhas irmãs,
O Evangelho de hoje(Lc 1,26-38) traz o pleno cumprimento de todos os sinais que anunciam a vinda do Salvador. Um deles é a promessa feita a Davi, de que sua descendência teria seu trono firmado para sempre. Essa promessa se realiza no filho de Maria, juridicamente inserida, através de seu noivo José, na descendência de Davi. A este filho, Deus dar-lhe-á o trono de Davi, o governo da casa de Jacó para sempre.
O modo como Jesus é o Cristo, que reinará para sempre, e o modo como a casa de Israel se tornará um povo universal, nenhum contemporâneo de Maria o podia imaginar e ela só o vislumbrava como Mistério de Deus. As profecias não são programas a serem executados. São sinais da obra inesperada que Deus está fazendo, sinais que a gente só entende plenamente depois da obra realizada.
O Evangelho de hoje ensina que Maria acolheu o projeto de Deus e tornou possível a presença de Jesus no mundo, já que aceitou ser a mãe do Filho de Deus. Seu corpo foi a primeira casa onde ele se hospedou, por nove meses, até que desse à luz deste mundo.
Deus, com o gesto da encarnação, quer morar em cada um de nós, em nosso coração, em nossa vida, quer ser hóspede para sempre. Por isso, somos convidados a abandonar as futilidades, as comodidades e a viver a “radicalidade” do Evangelho que pede sacrifícios, que pede inserção no projeto de redes de comunidades, aderindo ao projeto de seguimento de Jesus Cristo.
Meus irmãos,
São Lucas, no Evangelho de hoje, vê chegada a plenitude dos tempos na Encarnação de Jesus Cristo. Vê chegado o começo dos novos tempos, caracterizados pelo Emanuel, isto é, Deus-conosco (Is 7, 14), um Deus sempre presente no meio da comunidade, misericordioso, legislador e mestre, santificador, mediador entre o céu e a terra.
Jesus é anunciado numa pequena vila mal afamada (Jo 1,46; 7,41) da Galiléia, semipagã. Embora seu nome, segundo São Jerônimo, signifique “flor”, Nazaré era mais conhecida pelas prostitutas à disposição, do que pelos valores religiosos-culturais. Ainda assim, Jerusalém não merecera a mensagem divina. A jovem e virgem Maria, na minúscula Nazaré, torna-se a nova Jerusalém, a nova cidade santa, aquela que os profetas chamaram de Filha de Sião (Is 37,22; Sf 3, 14).
Jerusalém continha o templo, coração do povo. Maria, a nova Jerusalém, contém o Senhor do templo, Deus encarnado em seu seio virginal. O templo de Jerusalém era o símbolo visível da Aliança de Deus com o povo. Agora, Maria de Nazaré é a iniciadora da nova aliança, que Jesus, na última ceia, dirá que é definitiva e eterna, porque garantida pelo seu sangue (Lc 22,20).
Portanto, se Maria concebeu em seu seio o Filho de Deus, está cheia de toda a graça, porque contém em si a plenitude da graça, todo o Bem, o Bem inteiro.
Meus amados irmãos,
O Filho de Deus, que o arcanjo Gabriel anuncia encarnado no seio de Maria, por obra e graça do Espírito Santo, não é dom para ela exclusivamente. As mães costumam falar sempre em “meu filho”, embora o filho seja tanto dela, quanto do marido.
Na Anunciação, Gabriel é claro: o Filho de Maria pertencerá a todos. A todos, sem distinção. E o afirma com a frase: “O chamarás Jesus”. No nome está uma missão. O nome já fora dado a Josué, que salvara o povo do deserto, conduzindo-o à Terra Prometida. O nome já fora dado ao sacerdote que organizara o culto ao Deus único durante o exílio da Babilônia. O Filho de Maria se chamará Jesus, isto é, Salvador.
Jesus é aquele que nos vem salvar do deserto em que vivemos. Jesus é aquele que vem restaurar o verdadeiro culto ao Pai do Céu, onde já não contam as coisas oferecidas, como bois, carneiros, incensos, mas à sua pessoa, sacerdote e sacrifício (Hb 7, 27), ao mesmo tempo, e à nossa pessoa, que deve se converter e voltar-se para o Senhor, para ser com ele sacrifício puro e agradável (Ef 5,2). Jesus veio nos ensinar como “adorar o Pai em espírito e em verdade” (Jo 4,24).
Irmãos e Irmãs,
Abramos, nas vésperas do Natal, os nossos corações ao Menino que vem, para que ele faça de nossos corpos sua morada e que esta presença permeie todos os nossos relacionamentos: nas festas, no lazer, nos trabalhos, na vida pessoal e na vida familiar, nunca se esquecendo da vida de comunidade, de paróquia, da Igreja Particular à qual estamos inseridos e, por fim, à Igreja Católica, de todo o mundo.
A proximidade da festa do Natal nos interpela a um questionamento muito sério: por que é tão importante celebrar o nascimento do Filho de Deus, do Salvador da humanidade? Ele vem para iluminar a existência dos seres humanos, levá-los pelo o caminho da vida plena, com a consciência viva de que o mundo precisa ser salvo. Começando pela salvação de cada um de nós, queremos clamar em alta voz: “Vem, Senhor Jesus, o mundo precisa de ti!”.
Meus irmãos,
A segunda Leitura(Rm 16,25-27) é uma profissão de fé: em Cristo se torna manifesto o que, desde séculos, a Sagrada Escritura, ao mesmo tempo em que o assinalava, escondia: o Mistério de Deus. Deve-se ver a história a partir de Jesus Cristo. Assim, entenderemos em todos os fatos narrados nos sagrados mistérios deste domingo indícios do que se manifesta, em plena clareza, nele mesmo. Pela graça de Deus que emana a todos os povos compreenderemos nitidamente a grandeza da fé católica e apostólica, pois tudo é dom de Deus, graça do Divino Infante.
A síntese desta liturgia é acolher um hóspede muito especial, o Deus Menino, não o deixando trancado em nossas casas, mas saindo com ele para todos os eventos de nossa vida. Natal é isso! Natal é não trancar Deus no nosso coração, mas comunicar o bem-estar que provém do Menino Deus.
Na celebração do Nascimento de Jesus, que já se nos avizinha, estejamos preparados, prontos para acolhê-lo em nosso coração, permitindo que ele se faça presente em nossa vida, por meio de nossas ações, de nossas palavras, de nossa conduta, para que sejamos lídimos discípulos e missionários de Cristo.
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