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"Ouvi, Senhor, as preces do vosso servo e do vosso povo eleito: daí a paz àqueles que esperam em vós, para que os vossos profetas sejam verdadeiros"(cf. Eclo 36,18)
Celebramos hoje o mistério e a realidade do perdão. Perdão que é uma necessidade ou apanágio da vida cristã, do “DNA” de todos os cristãos. Perdoar hoje, amanhã e sempre deve ser a bandeira diuturna dos seguidores de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Meus irmãos,
A primeira leitura retirada do livro de Eclesiástico(Eclo 27,33-28,9) nos diz que quem é capaz de perdoar o próximo, recebe o perdão de Deus. O perdão deve ser ilimitado, generoso e gratuito, sem nada em troca, muito menos com condicionamentos. O perdão é a máxima liberalidade dos cristãos.
Perdoar e ser perdoado. Eclesiástico capítulos 27 e 28 contêm uma série de ensinamentos acerca do que não se deve fazer aos irmãos, ao próximo, como por exemplo odiar. Contudo, o sábio que escreveu este livro fica ainda mais fiel ao pensamento vétero-testemanetário quanto à retaliação: algum dia, o mal tem que ser pago. Por isso estranhamos mais ainda a sua proibição da ira: Só o pecador agarra-se nela. Exatamente este pecador que quer que Deus lhe perdoe. Assim, colocando a vida na perspectiva do Altíssimo e sua Aliança, o Eclesiástico descobre que a mera retaliação deve ser superada, rompida, Deus é um Deus da paciência, como nos mostra a história da salvação.
O Evangelho de hoje, leitura do trecho final de Mt 18(Mt 18,21-35), vem todo dedicado sobre a fraternidade na vida de cada dia da comunidade dos crentes.
O que é colocado em evidência na leitura de hoje é a absoluta necessidade da fraternidade para poder acontecer o Reino de Deus na terra. Fraternidade que é sinônimo de tolerância e que tem como conseqüência à paz, a paz de Deus entre os homens e mulheres aqui na terra.
O Reino de Deus é reservado para quem tem alma de criança, paixão e comprometimento com a salvação dos irmãos e da comunidade de fiéis, perdoando sempre, com generosidade e gratuidade: seria isso o “index” da “práxis” da vida cristã, porque quem não sabe perdoar não sabe acolher. Perdão é sinônimo de coração generoso, sem orgulho, sempre aberto à alteridade e a construção da Jerusalém Celeste aqui e agora.
Irmãos e Irmãs,
A liturgia apresenta a parábola do administrador cruel. A última parte do “Sermão eclesial”(Mt 18) é totalmente consagrada ao perdão. Somente perdoa quem segue a regra: a regra do perdão sem fim, sem limites. Por isso a parábola de quem quer receber o perdão, mas não sabe perdoar. Nós todos vivemos porque Deus constantemente nos perdoa de todo o coração. Perdoar é imitar Deus, é dar chance à vida. Quem não perdoa, não tem comunhão com Deus. O Pai-nosso ensina-nos a perdoar como Deus perdoa.
O Reino de Deus pressupõe a correção fraterna e o perdão, porque o Reino de Deus se vive aqui e se plenifica na glória. O Evangelho ilumina a eternidade a partir da caminhada cotidiana que é feita e realizada aqui e agora. De conformidade com nossas atitudes, compromissos, relacionamentos, virtudes e agir cristão seremos assimilados na glória das bem-aventuranças. Construir o Reino de Deus, viver o Reino, pertencer a esse reino é tornar presente a parte divina que está no homem, imitando a prática humana de Jesus Cristo.
Deus nos perdoou uma grande dívida, porque o perdão das ofensas é um dos pontos mais realçados pelos Evangelhos e pelas Cartas apostólicas. O perdão constitui-se na condição fundamental para se entrar e permanecer no Reino de Deus. A salvação só é possível a partir da dimensão do perdão como o próprio Cristo anunciou do alto da Cruz: “Pai, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem!”.
Olhando e refletindo detidamente a oração da comunidade, o Pai-Nosso, Jesus nos ensina que o perdão é a condição cotidiana da vida cristã: “perdoai-nos as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (cf. Mt 6,12).
Agora a dimensão do perdão é a metodologia da alegria, da generosidade, da visão gratuita deste dom de Deus. O perdão dado ao primeiro devedor, isto é, o perdão da parte de Deus é tão grande e generoso que nós deveríamos envergonhar quando não perdoamos. Se Deus perdoa uma dívida tão grande, porque não perdoamos as nossas dívidas morais, bem menores, às vezes, pesadas, mas contingências de nossa condição de pecadores.
Tudo deve ser voltado para o perdão, principalmente aquilo que nos atinge como as decepções, menosprezos, traições, explorações, antipatias e, especialmente as ingratidões. Perdoar a atitude, mas mais do que isso, as pessoas, a pessoa ofensora e aqueles que tiveram participação nestes atos. Nosso pecado ofende a Deus, e Ele nos perdoa. Porque nós não podemos perdoar aos irmãos?
Amigos,
O gesto mais sublime, mais necessário nos dias de hoje, é o perdão, e o perdão continuado e sempre. Mais do que isso o perdão de coração, na totalidade de toda a pessoa humana, não somente no foro externo, mas especialmente no foro interno, no nosso íntimo, porque “O homem olha as aparências, mas o Senhor olha o coração” (cf. 1Sm 16,7).
Perdão sem aparências, sem condições, sem supérfluos, sem escamoteações, sem restrições, mas generoso, gratuito, na visão da Igreja Latino-americana: “NÃO HÁ GESTO MAIS SUBLIME DO QUE O PERDÃO”.
Irmãos e Irmãs,
A Segunda Leitura(Rm 14,7-9) sublinha o espírito de comunhão que se nos revelou na consideração do Evangelho. Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor Jesus. Se nossa vida já não nos pertence, mas a ele, como poderemos recusar a comunhão ao nosso irmão pecador? Pois Jesus deu sua vida por nós pecadores. São Paulo está tratando do problema dos fracos, dos escrupulosos, ligados à práticas secundárias, talvez de origem judaica e dos fortes, os chamados libertais. Embora Paulo mesmo se considere liberal, não condena os conservadores, mas diz que no amor de Cristo não há lugar para discórdia por causa de coisas secundárias. Em nossa diversidade, devemos pertencer completamente a Cristo e viver pelos nossos irmãos em Cristo.
Amigos,
Nesta quadra de setembro, em que relembramos mais um ano de falecimento do Eminentíssimo Senhor CARDEAL LUCAS MOREIRA NEVES. O mais ilustre Cardeal de Minas, que mais do que ninguém soube conjugar o verbo perdoar, nos ensinou que: “A visão cristã está num horizonte completamente diverso das pagãs. O cristão é, por convicção, alguém que não nega nem escamoteia o pecado para não ter que enfrenta-lo. Alguém que se reconhece pecador. Que descobre em si cicatrizes e um foco infeccioso do pecado. Alguém que sabe dizer: Eu nasci no pecado. Eu pecador. Confiteor..., mas, que, ao mesmo tempo, eleva a voz dizendo: Destrói, ó Deus, a minha iniqüidade e Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado. Reconhecer o pecado, o próprio e o do mundo. Mas ter a certeza de que ele não tem a última palavra, pois esta pertence à Redenção. Esta é a única postura saudável diante do mistério da iniqüidade. Do mistério do pecado”.
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