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“Sede o rochedo que me abriga, a casa bem defendida que me salva. Sois minha fortaleza e minha rocha; para honra do vosso nome, Vós me conduzis e alimentais”(cf. Sl 30,3-4).
A missa deste domingo nos coloca diante da Verdadeira justiça. Há três domingos estamos lendo o Sermão da Montanha. Começamos com as bem-aventuranças, que são o pórtico de todo o sermão e os valores que fundamentarão todo o Evangelho. Esses valores são bastante diferentes dos normalmente apresentados pelo mundo moderno, secularizado e que quer afastar a importância de Deus e da salvação na história humana, particularmente pelos postulados apresentados pela Psicologia e pela Economia. No domingo passado, Jesus chamava àqueles que aceitavam os valores das bem-aventuranças, de sal da terra e luz do mundo e os comparava a uma cidade construída sobre um monte, isto é, na segurança.
Neste domingo Jesus nega que as bem-aventuranças contrariam o Antigo Testamento, as leis e as tradições judaicas. Nosso Senhor Jesus Cristo diz expressamente que as bem-aventuranças não contrariam as leis e as tradições judaicas, mas também não se identificam com elas. As bem-aventuranças inovam e completam a antiga lei. Jesus não é um subversivo em sua pregação, mas se comporta como um profeta, como um novo Moisés, que “retira e propõe coisas novas e velhas”(Mt 13,52). E as propõe como quem tem autoridade(Mc 1,22) e exige radicalidade, isto é, que não sejam vividos sem meios-termos. São Paulo fala em “lei do espírito” da vida, trazida por Jesus Cristo(Rm 8,2). Talvez pudéssemos dizer que Jesus, em toda a lei do Antigo Testamento, procurou o miolo, sem dar maior valor à casca, encostada à lei pelos escribas e pela convivência com outros povos.
Caros irmãos,
A primeira leitura(cf. Eclo 15,15-20) nos apresenta o homem que tem a liberdade de escolher entre o bem e o mal – capacidade moral do homem. O livro do Eclesiástico – o sábio Jesus Bem Sirac – critica as seguintes afirmações: 1) o pecado é inevitável; 2) Deus não se preocupa com a gente e seus pecados. Ao contrário, o homem é livre para escolher entre o bem e o mal – o chamado livre arbítrio. Deus não abandonou o homem a uma existência absurda, mas quer que ele escolha o caminho da salvação.
Caros irmãos,
São Paulo nos apresenta a sabedoria dos poderosos e o Mistério de Deus(cf. 1Cor 2,6-10). A Primeira Carta aos Coríntios começa mostrando a fraqueza humana no início da obra evangelizadora. Agora quer mostrar também que nela existe grandeza – mas esta, só o fiel amadurecido a pode alcançar, pois ela vem do Espírito Santo, não de considerações humanas. O Mistério de Deus é o Mistério da Cruz. Ele escapou à perspicácia dos poderes mundanos, pois, senão, não se teriam tornado os instrumentos – involuntários – de sua realização, crucificando Jesus.
Irmãos caríssimos,
No Evangelho de hoje(cf. Mt 5,17-37) Jesus diz que são bem-aventurados os pacíficos e pacificadores. Jesus especifica a bem-aventurança nos versículos 21-26. A lei judaica dizia: “Não matar!” E os judeus pensavam com os critérios humanos de não morrer fisicamente. Em momento algum Jesus desdiz a lei, mas a amplia, alargando todo o campo da fraternidade. Não basta não matar o corpo. É preciso, antes, respeitar o outro, ter paciência com ele, não insultá-lo. O outro não é só o corpo. O outro é a pessoa humana. A ira e a violência são armas mortíferas, que não podem estar ao alcance do cristão. O Eclesiástico já afirmava com precisão: “Ira e rancor são coisas execráveis”(Eclo 27,30). A novidade apresentada por Jesus foi aproximar a cólera e a violência ao assassinato da pessoa. Porque se pode matar alguém com ódio, sem derramar seu sangue. Concomitantemente ao apelo de Jesus São Paulo nos ensina: “Não se ponha o sol sobre a vossa ira”(Ef 4,26). Por isso todos nós devemos esquecer o “pavio curto”, o ressentimento, a magia, qualquer desejo de vingança e de acertos de contas.
Assim, aqui poderemos contemplar uma virtude muito em desuso: a PACIÊNCIA. Longe de ser passiva e sinal de fraqueza a paciência é uma virtude que demonstra amadurecimento e equilíbrio. A paciência se conquista, é trabalhada, sofrida. A paciência é mais do que “contemporização”, e a paciência é o melhor remédio para qualquer mal. O apóstolo das gentes chamou a “paciência de fruto do Espírito Santo”(cf. Gl 5,22). São Tiago vaticina que a paciência nos garante e nos torna perfeitos e íntegros(cf. Tg 1,4). A paciência nos pavimenta para o caminho e para o itinerário do perdão. Por isso, para Jesus, alimentar brigas, tramar violências e negar o perdão são formas de matar o irmão e a irmã. Quem não procura a reconciliação é aquele que vive em estado de morte, fora, portanto, da família de Deus, que é um Reino de vida em plenitude.
Irmãos caríssimos,
Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou que “Bem-aventurados os puros de coração”. Vamos superar apenas a pureza sexual, mas de uma piedade sincera diante de Deus, sem o coração dividido entre os deuses do ter, do poder, da auto-suficiência. Uma piedade sem ídolos. Ser leal a Deus e para com o próximo. Fidelidade aos compromissos assumidos, seja para com Deus, seja para com o próximo. Ser um homem sincero, de uma palavra só de ser o nosso sim, sim, e o nosso não, não(cf. Mt 5,37).
Quem chega ao altar com o coração carregado de ódio e de inveja, ou mesmo de desconfianças é hipócrita e a sua oração e a sua oferta não tem valor nenhum. Jesus, assim pede primeiro a reconciliação com os outros e consigo mesmo. Não é puro o coração cheio de falsidades, enganos e dubiedades, más intenções e desejos desregrados. Jesus fala do adultério, que é a quebra da lealdade. A lealdade, o coração puro, vale mais que o próprio olho, vale mais que a própria mão. Jesus é forte na figura, para que não paire nenhuma dúvida sobre a seriedade e a grandeza de sua bem-aventurança.
Caros irmãos,
Não devemos pronunciar o nome de Deus em vão. Não é puro o coração falso e não é pura a boca mentirosa. Jesus recorda o juramento falso em primeiro lugar, porque envolve Deus como testemunha. “Não pronunciar o nome de Deus em vão”. Jesus não quer juramento nenhum. A base do relacionamento social do cristão deve ser a lealdade. Nossa palavra deveria ser suficiente para que o outro confiasse em nós e no nosso propósito. Ao puro de coração o juramento se torna supérfluo. Para o cristão, o juramento somente tem sentido, se reforça a lealdade e a sinceridade da palavra. Bastaria olhar para dentro e em torno de nós para vermos que na sociedade moderna a palavra perdeu sua força. Bastaria lembrar as promessas feitas em praças e em privado, durante as campanhas eleitorais, político-partidárias, e nunca cumpridas ou mesmo desmentidas. Esqueçam o que eu escrevi. Esqueçam o que eu prometi. Isso vai contra o espírito de Deus que na palavra de Jesus nos clama: “Bem-aventurados os puros de coração”.
Quem tem coração puro não usa subterfúgios, meias palavras ou palavras ambíguas, não mente de jeito nenhum, não disfarça, não encobre nada. O seu sim seja sim e o seu não seja não. “tudo o que passar disto vem do Maligno”, a quem Jesus chamou de pai da mentira(Jo 8,44).
Jesus, neste domingo, nos ensina a ter um coração puro, que não seja igual ao dos fariseus que apenas pensam em seu bem estar pessoal. Jesus ensina que não é a lei que conta, não é a lei que nos relaciona com Deus e nos santifica. Mas o coração puro, inteiramente voltado para Deus, identificado com a sua vontade, absolutamente fiel, sem armadilhas, sem busca de poder, sem ressentimentos.
Um coração puro que se abra ao outro, em todos os aspectos, na bondade do coração verdadeiramente humano, purificado, santificado, porque somente pode subir ao altar de Deus aquele que está completamente reconciliado.
Caros irmãos,
Resumindo a missa de hoje devemos, como juristas, rever a Lei judaica. Jesus concebe o programa de tirar a Lei das mãos dos fariseus e escribas e de a restituir a Deus, isto é, deixá-la ser novamente expressão da vontade de Deus, de seu amor e de sua fidelidade(Eclo 15,15). Jesus não é contra a lei, antes pelo contrário, Ele quer restabelecê-la em toda a sua pureza; não quer nada abolir dela, mas lhe dar a sua perfeição, que não é o legalismo farisaico, mas o Espírito de Deus mesmo(Mt 5,17-20).
A restituição da Lei de Deus significa uma profunda conversão da “nossa justiça”(Mt 5,20). Significa, no fundo, que a nossa justiça, enquanto ela só vier de nós mesmos, nunca será suficiente para observar a Lei. Pois, Jesus tira de debaixo dos pés de toda a auto-suficiência. Por isso devemos ser os melhores, diferente dos fariseus. Pela radicalidade de Jesus, nós tomamos consciência de ficarmos sempre devendo; porque somos limitados, e é muito salutar esta consciência, de sermos pecadores, merecedores da misericórdia divina, aí começa a nossa salvação. Com a graça de Deus iremos conseguir! As palavras não foram feitas para que os homens delas se sirvam enganando-se mutuamente, mas para que levem seu pensamento ao conhecimento dos outros. Enganar os outros significa deturpar o sinal da palavra, torná-la sinal de divisão (em grego: diabolh - diabolé) e de confusão (em grego: sugcusisV -synkhysis), em lugar de comunhão e de limpidez. Cristo supera, portanto, a lei judaica quando proíbe a mentira em qualquer circunstância, tornando assim inútil o juramento.
Na vida deparamos como no Evangelho de hoje com o homicídio e a reconciliação, o adultério, o divórcio e o juramento que aparecem no texto sagrado. Somos chamados a dar um passo à frente do pecado e da situação pecaminosa, superando a lei morta e seca. Sejamos homens e mulheres renovados, amando os que nos perseguem, os nossos inimigos. O cristão mais do que obedecer a lei, segue as pegadas de Cristo que o precede e que se torna para ele modelo-lei-instância e suprema força interior para o dom do Espírito(Mt 3,11), prêmio-amor-beatificante que nos coloca nos caminhos da fraternidade.
O algo “mais” do convite de Jesus é dar um passo definitivamente na solidariedade e na fraternidade. A nova lei é o amor e a acolhida do diferente, amém!
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