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“Sei em quem acreditei; e estou certo de que o justo juiz conservará a minha fé até o dia de sua vinda” (2Tm 1,12;4,8)
Na celebração do Ano Paulino, a Igreja nos permite, especialmente neste ano, celebrar neste domingo a solenidade da Conversão de São Paulo. É um dos momentos especiais, nas comemorações dos dois mil anos do Apóstolo dos Gentios, escolhido por Deus para ser sua "testemunha diante de todos os homens" (At 22, 15).
O momento do encontro de Saulo de Tarso com Cristo ressuscitado, no caminho de Damasco, marca a sua mudança decisiva da vida; é sua completa transformação, uma lídima conversão espiritual. Num instante, por intervenção divina, o cruel perseguidor dos cristãos ficou cego, oscilando-se na escuridão, enquanto clareava-se já em seu coração a verdadeira luz que o teria guiado e aquecido seu coração, tornando-o fervoroso apóstolo do Evangelho, arfante em sair anunciando a Boa Nova.
A consciência de que só a graça divina tinha podido realizar tal conversão nunca abandonou Paulo. Quando já tinha dado o melhor de si, consagrando-se incansavelmente à pregação do Evangelho, escreveu com renovado fervor: "tenho trabalhado mais do que todos eles; não eu, mas a graça de Deus, que está comigo" (1Cor 15, 10). Incansável, como se a obra da missão dependesse totalmente dos seus esforços, animou-o a profunda persuasão de que a sua força provinha da graça de Deus que agia nele.
Meus irmãos,
Neste domingo, queremos falar sobre a conversão de São Paulo. Precisamente no caminho de Damasco, nos primeiros anos 30 da era cristã, após um período em que perseguira a Igreja, verificou-se o momento decisivo da vida de Paulo. Sabidamente, em Damasco aconteceu uma mudança, aliás, uma inversão de perspectiva. Inesperadamente, ele começou a considerar "perda" e "esterco" tudo o que antes constituía para ele o máximo ideal, quase a razão de ser da sua existência (Fl 3, 7-8).
O que tinha acontecido? São Lucas por três vezes narra o acontecimento nos Atos dos Apóstolos (cf. 9, 1-19; 22, 3-21; 26, 4-23). O centro desta narrativa é que Cristo ressuscitado mostra-se como uma luz maravilhosa e fala a Saulo, transforma o seu pensamento e a sua própria vida. O esplendor do Ressuscitado o cega: assim vê-se também exteriormente o que era a sua realidade interior, a sua cegueira em relação à verdade, à luz que é Cristo. E depois o seu "sim" definitivo a Cristo no batismo volta a abrir os seus olhos, faz com que ele realmente veja.
Nos primórdios da Igreja, o batismo era chamado também "iluminação", porque este sacramento realça, faz ver realmente. O que assim se indica teologicamente, em Paulo realiza-se também fisicamente: curado da sua cegueira interior, vê bem. Por isso, São Paulo foi transformado não por um pensamento, mas por um acontecimento, pela presença irresistível do Ressuscitado, da qual nunca poderá sucessivamente duvidar, dado que foi muito forte a evidência do acontecimento, deste encontro. Ele mudou fundamentalmente a vida de Paulo; neste sentido pode e deve falar-se de uma conversão. Este encontro é o centro da narração de São Lucas, o qual é possível que tenha usado uma narração que provavelmente surgiu na comunidade de Damasco. Leva a pensar isto o entusiasmo local dado à presença de Ananias e dos nomes quer do caminho quer do proprietário da casa em que Paulo esteve hospedado (At 9, 9-11).
A festa de hoje é, assim, a festa da conversão. Cristo chama a Paulo, convida-o ao apostolado, faz dele um verdadeiro apóstolo, testemunha da ressurreição, com o encargo específico de anunciar o Evangelho aos pagãos. Ao mesmo tempo, Paulo aprende que, apesar de sua relação imediata com o Ressuscitado, ele deve entrar na comunhão da Igreja, fazer-se batizar e viver em sintonia com os outros apóstolos. Só nesta comunhão com todos ele poderá ser um verdadeiro apóstolo, como escreve explicitamente na primeira Carta aos Coríntios: "Assim é que pregamos e é assim que vós acreditastes" (15, 11). Há só um anúncio do Ressuscitado, porque Cristo é um só.
Como se vê, em todos estes trechos Paulo nunca interpreta este momento como um fato de conversão. Esta mudança da sua vida, esta transformação de todo o seu ser, não foi fruto de um processo psicológico, de uma maturação ou evolução intelectual e moral, mas vem de fora; não foi fruto de seu pensamento, mas de seu encontro com Cristo Jesus. Neste sentido, não foi simplesmente uma conversão, uma maturação do seu "eu", mas foi morte e ressurreição para ele mesmo: morreu uma sua existência e outra nova nasceu com Cristo Ressuscitado.
De nenhum outro modo se pode explicar esta renovação de Paulo. Só o acontecimento, o encontro forte com Cristo, é a chave para compreender o que tinha acontecido: morte e ressurreição, renovação por parte d'Aquele que se tinha mostrado e tinha falado com ele. Neste sentido mais profundo, podemos e devemos falar de conversão. Este encontro é uma renovação real que mudou todos os seus parâmetros. O que antes era para ele essencial e fundamental tornou-se agora "esterco"; já não é "lucro", mas perda, porque agora só conta a vida em Cristo.
E para nós, o que significa a conversão de Paulo? Significa que também para nós o cristianismo não é uma nova filosofia ou uma nova moral. Somos cristãos unicamente se encontramos Cristo. Certamente Ele não se mostra a nós deste modo irresistível, luminoso, como fez com Paulo para fazer dele o apóstolo de todas as nações. Mas podemos encontrar Cristo, na leitura da Sagrada Escritura, na oração, na vida litúrgica da Igreja. Podemos tocar o coração de Cristo e sentir que Ele toca o nosso. Só nesta relação pessoal com Cristo, só neste encontro com o Ressuscitado nos tornamos realmente cristãos. E assim abre-se a nossa razão, abre-se toda a sabedoria de Cristo e toda a riqueza da verdade.
Portanto, rezemos ao Senhor para que nos ilumine, para que nos doe no nosso mundo o encontro com a sua presença: e assim nos conceda uma fé viva, um coração aberto, uma grande caridade para todos, capaz de renovar o mundo.
Meus caros irmãos,
A primeira leitura (At 22,3-16) desta festa apresenta Paulo como apóstolo de Jesus para todos os fiéis. Tendo sido aprisionado ao sair do Templo de Jerusalém, à beira da morte, Paulo acaba preso pelo tribuno romano. Levado à fortaleza, pede ao tribuno para se dirigir ao povo e profere, de pé, este segundo relato de sua conversão, que pura e simplesmente é uma defesa de sua missão.
Recordando o episódio de Damasco, Paulo quer defender a sua missão como um verdadeiro apostolado, já que também é apóstolo como os que tinham vivido com Jesus e aprendido diretamente dele. Ele inicia dizendo-se judeu por nascimento e por educação, sempre zeloso pelas coisas de Deus. Zelo que o fez perseguidor dos cristãos, o mesmo zelo que fez ouvir e colocar em prática a voz do Pai que o envia para a missão.
Profundamente tocado pela mística de Deus, caindo por terra, ouve a voz de Jesus, que quer ser a perseguição ao próprio Cristo: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 22, 7). Ao identificar a voz de Jesus, disposto ele responde: “Que devo fazer, Senhor?” (At 22, 10). Por obediência à voz do Mestre, dirige-se para Damasco, apoiado por companheiros em vista da cegueira que o atingira.
Pelas mãos de Ananias, judeu piedoso e fiel, recupera a visão. E foi o mesmo Ananias que lhe disse: “O Deus de nossos antepassados escolheu-te para conheceres a sua vontade, veres o Justo e ouvires a sua própria voz. Porque tu serás a sua testemunha diante de todos os homens, daquilo que vistes e ouvistes. E, agora, o que estás esperando? Levanta-te, recebe o batismo e purifica-te de teus pecados, invocando o nome dele!” (At 22,14-16). Paulo em momento algum quis acabar com as tradições judaicas.
Assim, neste trecho, atesta a todos os ouvintes o verdadeiro sentido de sua missão: Paulo é o apóstolo que Jesus ressuscitado enviado a todos, também aos pagãos. O apóstolo que, com a mesma obstinação e coragem de fariseu que perseguia os cristãos, permitirá ao cristianismo romper as barreiras do mundo judaico.
Meus irmãos,
A segunda leitura (1Cor 7,29-31) nos apresenta a Palavra de Paulo, que é um maravilhoso elogio do celibato consagrado e da virgindade, eco da primitiva tradição cristã. Numa sociedade avessa ao celibato que o coloca como fechamento egoísta sobre si mesmo, o Apóstolo nos apresenta essa opção de vida como ministério de amor: a consagração virginal da vida e sua unidade como sinal do fim dos tempos e radical tensão para Deus.
A vocação ao celibato e à virgindade vem de Deus. É ela um mistério eclesial, que une ao Cristo aqueles que a isso são chamados, no corpo e no espírito. A pertença a Jesus Cristo implica uma ruptura, pois determina uma opção generosa, livre. A virgindade entra no espaço do dom total e definitivo de si a Deus e aos irmãos, na plenitude e intimidade do Espírito e na total e radical disponibilidade e a todas as tarefas que Deus confia aos consagrados. A intimidade com Cristo torna-se comunhão e alimenta uma fé capaz de transportar montanhas.
Meus irmãos,
O Evangelho hodierno (Mc 16,15-18) fala que a missão de Cristo é a missão de todos os batizados. Jesus envia os seus discípulos para uma missão bem definida: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a todo a criatura”(Mc 16,15). Os discípulos recebem a imperativa missão de proclamar o Evangelho a todo o mundo. E esta missão é inaugurada com a convocação para se fazer batizado.
Por isso, ao anunciar o Evangelho, cinco sinais aparecerão: expulsar demônios em nome de Jesus, falar novas línguas, pegar serpentes e beber veneno sem nenhum mal e a imposição das mãos e a cura dos doentes. O Reino de Deus é assimilado quando estes cinco sinais são constatados pela graça de Deus.
Assim, como Paulo nos ensinou a viver bem o presente, relativizando-o em vistas ao futuro Reino dos Céus, que nunca terá fim, somos chamados a ser novas criaturas, vivendo o hoje do mundo com os olhos e as ações fixas no céu.
Se Paulo fez uma experiência direta com o Senhor Ressuscitado, direcionando a sua vida totalmente para o serviço do Reino, a missão que nos é apresentada nesta festa da Conversão do Apóstolo das gentes é nos comprometermos com os valores do Reino, levando a boa notícia de Jesus a todas as gentes. Dessa forma, estaremos correspondendo ao Documento de Aparecida, que nos convida a assumir o papel de discípulos e missionários. Inspirados pela Palavra, direcionados pelo Apóstolo, sigamos na construção do Reino de Deus, rumo ao Reino dos Céus.
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