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“Hoje surgiu a luz para o mundo: o Senhor nasceu para nós. Ele será chamado admirável, Deus, príncipe da paz, Pai do mundo novo, e o seu reino não terá fim.” (Is 9,2.6; Lc 1,33)
A solenidade da Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa, é a primeira festa mariana que apareceu na Santa Igreja no Ocidente, a nossa Igreja, a única de Jesus Cristo. É a linda celebração da vida. A vida que nasce do ventre abençoado da mulher. Por isso, celebramos a Mãe de todos os homens e mulheres, a Virgem Maria.
Iniciamos o ano civil, dentro das festividades de Natal, na chamada oitava de Natal, para relembrar o nascimento de Jesus, o Filho de Deus. Esta festa faz parte de todo o ciclo do nascimento do Redentor do gênero humano. A partir deste momento, Maria começou a fazer parte de um povo e se constitui centro da história.
Maria é o elo que une Deus às pessoas, homens e mulheres de boa vontade. Maria é como que a oração plena, em que o simples respirar é um ato de louvor a Deus e de intercessão junto de seu Filho.
Por isso, a Santa Igreja se ufana desta celebração de hoje, porque tudo o que pedimos ao Filho por intermédio de sua piíssima Mãe, Ele nos atende. O “sim” de Maria, confidenciado ao Arcanjo Gabriel no recolhimento de sua visitação, ecoa-se durante os dias natalinos, inspirando-nos a alegria incontida do Magnificat pelo fato de Deus “ter feitos grandes coisas” em Maria, criatura humana, que recebera, em previsão à maternidade divina, todas as graças disponíveis desde sua conceição imaculada.
Cantamos, pois, na solenidade de hoje a antiqüíssima antífona “Salve Sancta Parens”. É a aclamação à Maternidade Divina, é a participação da Virgem Maria no Mistério da Encarnação.
Meus irmãos,
Até a reforma litúrgica posterior ao Concílio Vaticano II, celebrávamos neste dia a Circuncisão do Senhor. A essa tradição judaica, Jesus também foi submetido, oito dias após o seu nascimento. A observância à antiga Lei foi mantida por Jesus, até que se manifestasse publicamente como o Messias prometido, dando a conhecer a nova lei, o mandamento do amor, que é a síntese da criação, que é o ânimo de nossa existência, porque “Deus é amor”.
No Santo Evangelho, Lucas ensina a perfeita sintonia entre a maternidade de Maria e a festa de hoje, confirmando o amor de Mãe para com seu povo em seu filho Jesus. Junto com José, Maria cuida do filho e com carinho vive o mistério que se vai manifestando paulatinamente nos acontecimentos da vida.
Maria guardava no seu coração as maravilhas do amor de Deus e daqueles que viram o seu Filho. Todos são testemunhas da graça de Deus, porque é a revelação do amor e compaixão para com seu povo. Basta acreditar como a Mãe de Deus acreditou e viveu o mistério da encarnação.
Irmãos,
A primeira leitura é uma fórmula de bênção: o povo do Antigo Testamento gostava muito de receber bênçãos: “Que Deus te abençoe”, “O Senhor vos acompanhe” (Num 6,24-25). O rosto de Deus exprime a presença divina e o seu desejo de instaurar uma aliança, uma comunhão com as criaturas.
Tantas vezes Deus tentou fazer esta aliança! Mas a criatura humana sempre a frustrou.
Mas agora, fará uma aliança certa e definitiva, tendo como garantia o seu próprio filho, nascido de Maria de Nazaré. O rosto de Deus assume a face humana e um nome: Jesus, nascido entre os pobres, entre os mais frágeis, porém os céus não se contiveram e cantaram a sua glória: “Hoje surgiu a luz para o mundo: o Senhor nasceu para nós. Ele será chamado admirável, Deus, príncipe da paz, Pai do mundo novo, e o seu reino não terá fim” (Is 9,2.6; Lc 1,33).
E é na contemplação do Deus feito homem, pobre, reclinado no estábulo de Belém, que compreenderemos a mensagem do Santo Padre Bento XVI neste dia e nos inspiraremos a compreender um dos graves problemas sociais da atualidade, talvez o cerne de todo esse conjunto. O Papa nos alerta a ter uma visão ampla e articulada da pobreza. Com toda sua sabedoria, ele explica que, para compreender a pobreza material, bastam-nos os conceitos das ciências sociais. Mas a pobreza imaterial deve-se a vários fenômenos, como marginalização, pobreza relacional, moral e espiritual. “Trata-se de pessoas desorientadas interiormente, que, apesar do bem-estar econômico, vivem diversas formas de transtorno”, ensina-nos.
E com sua especial capacidade de discernimento e de ensinar, Bento XVI aponta a raiz desse problema na “falta de respeito pela dignidade transcendente da pessoa humana. Quando o homem não é visto na integridade da sua vocação e não se respeitam as exigências duma verdadeira ‘ecologia humana’ – numa alusão à Encíclica “centesimus annus”de João Paulo II - desencadeiam-se também as dinâmicas perversas da pobreza”. E inspirando-se no Santo Evangelho, apoiando-se, ainda, na Doutrina Social da Igreja, em sua Mensagem para este dia, o Papa expõe sobre as formas de pobreza e a necessidade de um revigorar na fé para enfrentar essas dificuldades e resgatar a dignidade de homem, cujo primeiro passo foi dado por Maria, com o seu “sim”. Tenhamos, também, a mesma disposição mariana e demos o nosso “sim” como partícipes no plano de salvação, fazendo o que nos cabe e o que a graça nos inspira pelos mais necessitados. Somos todos irmãos!
Ao início de um novo ano, pedimos a Deus para que ele nos conceda algo de que precisamos. E neste início de ano é muito atual esta petição, para pedirmos um novo tempo para o sofrido povo brasileiro – em consonância com a Mensagem de Bento XVI - um tempo de união nacional, para que seja construída e edificada uma política pública de superação da miséria e da fome, com projetos que não dêem apenas comida ao povo, mas dêem oportunidade de construir uma vida digna, trabalho sério e bem remunerado, acesso a todos os benefícios da vida moderna, como saúde, educação, lazer e segurança pública. Um tempo em que sejam superadas todas as formas de corrupção e de desvio do dinheiro público.
Que tenhamos um tempo de renovação na fé, inspirados Espírito Santo. Assim, estaremos atentos à proposta que Deus tem para cada um de nós, empenhando-nos na construção de um mundo novo, cuja palavra de ordem é: “Combater a pobreza, construir a paz”.
Irmãos,
A liturgia de hoje nos conclama a construir, aqui e agora, nas palavras de Paulo VI, “a civilização do amor”. Só temos amor se construímos a paz. Cada um dos que participam do Mistério da Eucaristia deve acender em seus corações a paz, “shalom”, para que seja, nas famílias, na paróquia, na cidade e na arquidiocese, uma vida edificada de conforto e de bem querer em nosso Senhor e Salvador, Deus Menino, que encarnou para que a redenção fosse anunciada a todos os povos.
Por isso, meus amigos, os pastores foram até Belém e encontraram Jesus do modo como lhes fora revelado em sonho: “deitado numa manjedoura”. O Rei dos reis nasceu pobre; como os pobres, se fez um de nós. O Salvador veio humilde para o mundo, com uma específica missão de anunciar a paz e de sedimentar a justiça que abraça a realização das promessas das bem-aventuranças aqui e agora.
Assim se pode entoar o cântico que enleva nossos corações: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”. Aqui reside a mensagem de paz, de construção da paz entre todos nós.
Do encontro da passagem bíblica vem o nosso encantamento: tanto os pastores, como os pais do Deus Menino, se abrem ao sorriso, à alegria, ao sono tranqüilo e à esperança que todos são contaminados e que deve contaminar a cada um de nós.
O nosso encontro com Jesus transforma as pessoas, ou, pelo menos, deveria transformar nossos corações. O encontro gera a alegria e o encantamento, impulsionados para o anúncio porque essa alegria enche os nossos corações, porque “o novo nome da Paz é Justiça”, nas palavras de Paulo VI, de perene memória.
Amigos,
Resumindo, o Mistério da Celebração de hoje é o seguinte: Maria deu Jesus à humanidade, como um presente precioso de Deus, de um modo muito concreto, através do nascimento de uma Mulher no seio de um povo com seus costumes e as suas leis, povo sobre o qual Deus deixa brilhar a sua face, povo-testemunha de um Deus que dá sua bênção para toda a humanidade através de Jesus, nascido dessa Mulher. Todos nós somos convidados a entender a dimensão humana e divina de Jesus, que veio nos dar uma vida nova.
Dizer que Maria é Mãe de Deus é uma afirmação que exalta e engrandece a nossa Mãe querida, sobretudo por colocar Deus ao nosso alcance. Ele está próximo de nós, mas é preciso emprestarmos alegres e esforçadamente nossas mãos, nossa mente e o nosso coração, assim como Ela fez.
O centro da Missa de hoje é a Paz que vem de Deus. A paz que é a plenitude de todos os dons do Senhor, a realização do mistério da salvação. Jesus, nascido de Maria Virgem, é a plenitude de todos os dons. Por isso mesmo é chamado de “nossa paz” (Ef 2,14). Os anjos cantaram o nascimento de Jesus e o anunciaram aos pastores, proclamando, por conseguinte, um tempo de Paz: “Paz na terra aos homens amados por Deus” (Lc 2,14). Paz que gera amor, como o amor de Deus por nós que mandou o seu Filho, unicamente por amor, para que pudéssemos ser associados à vida eterna. Paz, amor, encarnação, redenção, eventos todos estes íntimos.
Se a missão da Igreja de Cristo é testemunhar o Senhor Jesus, ao testemunhá-lo ao mundo, a Igreja proclama solenemente o Evangelho da Paz, porque Cristo é o principal arauto da paz eterna, da paz que é amor, acolhida do diferente e persistente misericórdia: o Príncipe da Paz, como profetizou Isaías.
Ao celebrarmos Maria Santíssima, a Rainha da Paz, a Mãe da Paz, celebramos a paz que Cristo nos deixou (Jo 14,27) e devemos anunciar ao mundo que a Paz somente será possível na cultura da vida que é buscada no Senhor. A presteza em buscar o Senhor e a vontade de servi-lo fazem parte da amizade. Vimos que “buscar o rosto do Senhor” tem o sentido de querer participar do círculo de seus amigos íntimos, como Maria e José participaram. Todos somos chamados à amizade com Deus (Jo 15,15), mas ela somente é possível se apressarmos nossos passos para encontrá-Lo e, encontrando-O, abrirmos nosso coração no sentido de receber a sua graça e doar a nossa fidelidade.
Em tudo o que celebramos neste dia da Paz, busquemos em Maria o alento para glorificar as maravilhas de Deus, porque só quem tem paz e a vive na plenitude da graça pode cantar com a Virgem Santíssima: “A minha alma engrandece ao Senhor e exulta o meu Espírito em Deus meu Salvador”.
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