{"id":19599,"date":"2023-02-24T13:47:40","date_gmt":"2023-02-24T16:47:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.catequisar.com.br\/liturgia\/?p=19599"},"modified":"2023-02-24T13:53:13","modified_gmt":"2023-02-24T16:53:13","slug":"1o-domingo-da-quaresma-a-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catequisar.com.br\/liturgia\/1o-domingo-da-quaresma-a-2\/","title":{"rendered":"1\u00ba domingo da quaresma &#8211; A."},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>\u201cQuando meu servo chamar, hei de atend\u00ea-lo, estarei com ele na tribula\u00e7\u00e3o. Hei de livr\u00e1-lo e glorific\u00e1-lo e lhe darei longos dias\u201d(Cf. Sl 90,15s)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meus queridos irm\u00e3os,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tempo especial da Quaresma \u00e9, originariamente, considerado o tempo de prepara\u00e7\u00e3o para o sacramento do Batismo, via de regra, administrado aos catec\u00famenos \u2013 adultos \u2013 na noite da P\u00e1scoa. Nesta perspectiva situa-se a recorda\u00e7\u00e3o do pecado nas origens da humanidade: todos precisam ser salvos em Cristo Jesus \u2013 o que \u00e9 o efeito do batismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Primeira Leitura deste domingo, retirada do Livro de G\u00eanesis(cf. Gn 2,7-9;3,17), narra o pecado do ser humano, representado por Ad\u00e3o e por Eva, nas origens da humanidade. Evoca o contraste entre o carinho do criador e a leviandade do ser humano, que, tentado pelo desejo da experi\u00eancia do bem e do mal, com a ilus\u00e3o de se tornar igual a Deus, acaba encontrando-se nu e sem nada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na teleologia da primeira leitura notamos que a primeira parte (cf. Gn 2,7-9) do texto que nos \u00e9 proposto apresenta-nos dois quadros significativos. O primeiro quadro (vers. 7) pinta \u2013 com cores quentes e sugestivas \u2013 a origem do homem: \u201co Senhor Deus formou o homem do p\u00f3 da terra e insuflou-lhe nas narinas um sopro de vida\u201d. O verbo utilizado para descrever a a\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 o verbo \u201cyasar\u201d (\u201cformar\u201d, \u201cmodelar\u201d), que \u00e9 um verbo t\u00e9cnico ligado ao trabalho do oleiro. Deus aparece, assim, como um oleiro, que modela a argila. Estamos muito pr\u00f3ximos das concep\u00e7\u00f5es mesopot\u00e2micas, onde o homem \u00e9 criado pelos deuses a partir do barro (o jogo de palavras \u201c\u2019adam\u201d \u2013 \u201chomem\u201d \u2013 e \u201c\u2019adamah\u201d \u2013 \u201cterra\u201d, sugere que o homem \u2013 \u201c\u2019adam\u201d \u2013 vem da \u201cterra\u201d \u2013 \u201c\u2019adamah\u201d \u2013 e, morrendo, voltar\u00e1 \u00e0 terra de onde foi tirado). No entanto, o homem formado da terra n\u00e3o \u00e9 apenas terra, pois ele recebe tamb\u00e9m o \u201csopro\u201d (\u201cnesham\u00e1\u201d) de Deus. A palavra hebraica utilizada significa \u201csopro\u201d, \u201ch\u00e1lito\u201d, \u201crespira\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c9 a vida que vem de Deus que torna o homem vivo. O homem tem qualquer coisa de divino; a vida do homem procede, diretamente, de Deus. \u00c9 significativa a forma como o autor sagrado sublinha o cuidado de Deus na cria\u00e7\u00e3o do homem: Deus \u00e9 o oleiro que modela cuidadosa e amorosamente a sua obra; e, ainda mais, transmite a esse homem formado da terra a sua pr\u00f3pria vida divina. O homem aparece, assim, como o centro do projeto criador de Deus: ele ocupa um lugar especial na cria\u00e7\u00e3o e \u00e9 para ele que tudo vai ser criado.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No segundo quadro (vers. 8-9), o autor sagrado reflete sobre a situa\u00e7\u00e3o do homem criado por Deus. Para que \u00e9 que Deus criou o homem? Para ser escravo dos deuses e prover ao sustento das divindades, como nos mitos mesopot\u00e2micos? N\u00e3o. Na perspectiva do nosso catequista, o homem foi criado para ser feliz, em comunh\u00e3o com Deus. Para descrever a situa\u00e7\u00e3o ideal do homem, criado para a felicidade e a realiza\u00e7\u00e3o plena, o autor sagrado coloca-o num \u201cjardim\u201d cheio de \u00e1rvores de fruta. Para um povo que sentia pesar constantemente sobre si a amea\u00e7a do deserto \u00e1rido, o ideal de felicidade seria um lugar com muitas \u00e1rvores e muita \u00e1gua. Os mitos mesopot\u00e2micos apresentam, ali\u00e1s, as mesmas imagens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No meio dessa vegeta\u00e7\u00e3o abundante, o autor coloca duas \u00e1rvores especiais: a \u201c\u00e1rvore da vida\u201d e a \u201c\u00e1rvore do conhecimento do bem e do mal\u201d. A \u201c\u00e1rvore da vida\u201d \u00e9 o s\u00edmbolo da imortalidade concedida ao homem. Provavelmente, ao falar da \u201c\u00e1rvore da vida\u201d, o autor est\u00e1 a pensar na \u201cLei\u201d: desde o in\u00edcio, Deus ofereceu ao homem a possibilidade da vida plena e imortal, que passa por uma vida percorrida no caminho da Lei e dos mandamentos. Ao lado da \u201c\u00e1rvore da vida\u201d e em contraposi\u00e7\u00e3o a ela (pois traz a morte), est\u00e1 a \u201c\u00e1rvore do conhecimento do bem e do mal\u201d. Provavelmente, representa o orgulho e a autossufici\u00eancia de quem acha que pode conquistar a sua pr\u00f3pria felicidade, prescindindo de Deus. \u201cComer da \u00e1rvore do conhecimento do bem e do mal\u201d significa fechar-se em si pr\u00f3prio, querer decidir por si s\u00f3 o que \u00e9 bem e o que \u00e9 mal, p\u00f4r-se a si pr\u00f3prio em lugar de Deus, reivindicar autonomia total em rela\u00e7\u00e3o ao criador. O homem que renuncia \u00e0 comunh\u00e3o com Deus est\u00e1 a seguir o caminho da morte. A ideia do nosso catequista \u00e9 esta: Deus criou o homem para ser feliz; deu-lhe a possibilidade de vida imortal; mas o homem pode escolher prescindir de Deus e percorrer caminhos onde Deus n\u00e3o est\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na segunda parte do nosso texto (cf. Gn 3,1-7), o autor sagrado reflete sobre a quest\u00e3o do mal. De onde vem o mal que desfeia o mundo e que impede o homem de ter vida plena? Esse mal \u2013 sugere o nosso te\u00f3logo \u2013 vem das op\u00e7\u00f5es erradas que, desde o in\u00edcio da hist\u00f3ria, o homem tem feito. Para dizer isto, o autor sagrado recorre \u00e0 imagem da serpente. Entre os povos antigos, a serpente aparece como um s\u00edmbolo por excel\u00eancia da vida e da fecundidade (provavelmente por causa da sua configura\u00e7\u00e3o f\u00e1lica). Entre os cananeus, estava tamb\u00e9m bastante difundido o culto da serpente. Nos santu\u00e1rios cananeus invocavam-se os deuses da fertilidade (representados muitas vezes pela serpente) e realizavam-se rituais m\u00e1gicos destinados a assegurar a fecundidade dos campos. Ora, os israelitas, instalados na Terra, depressa se deixaram fascinar por esses cultos e praticavam os rituais dos cananeus destinados a assegurar a vida e a fecundidade dos campos e dos rebanhos. No entanto, isso significava prescindir de Deus e abandonar o caminho da Lei e dos mandamentos. A \u201cserpente\u201d surge aqui, portanto, como s\u00edmbolo de tudo o que afasta os homens de Deus e das suas propostas, sugerindo-lhes caminhos de orgulho, de ego\u00edsmo e de autossufici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em conclus\u00e3o: Deus criou o homem para ser feliz e indicou-lhe o caminho da imortalidade e da vida plena; no entanto, o homem escolhe muitas vezes o caminho do orgulho e da autossufici\u00eancia e vive \u00e0 margem de Deus e das suas propostas. Na opini\u00e3o do autor sagrado, \u00e9 essa a origem do mal que destr\u00f3i a harmonia do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Palavra de Deus que hoje nos \u00e9 proposta responde: \u00e9 Deus a nossa origem e o nosso destino \u00faltimo. N\u00e3o somos um min\u00fasculo e insignificante gr\u00e3o de areia perdido numa gal\u00e1xia qualquer; mas somos seres que Deus criou com amor, a quem Ele deu o seu pr\u00f3prio \u201csopro\u201d, a quem animou com a sua pr\u00f3pria vida. O fim \u00faltimo da nossa exist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o fracasso, a dissolu\u00e7\u00e3o no nada, mas a vida definitiva, a felicidade sem fim, a comunh\u00e3o plena com Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como \u00e9 que chegamos a essa felicidade que est\u00e1 inscrita no projeto que Deus tem para os homens e para o mundo? Deus nada imp\u00f5e e respeita sempre \u2013 de forma absoluta \u2013 a nossa liberdade; no entanto, insiste em mostrar-nos, todos os dias, o caminho para essa plenitude de vida que Ele sonhou para os homens. Quando aceitamos a nossa condi\u00e7\u00e3o de criaturas e reconhecemos em Deus esse Pai que nos d\u00e1 vida, que nos ama e que nos indica caminhos de realiza\u00e7\u00e3o e de felicidade, constru\u00edmos uma exist\u00eancia harmoniosa, um \u201cpara\u00edso\u201d onde encontramos vida, harmonia, felicidade e realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o mal que vemos, todos os dias, tornar sombria e deprimente essa \u201ccasa\u201d que \u00e9 o mundo: vem de Deus ou do homem? A Palavra de Deus responde: o mal nunca vem de Deus; o mal resulta das nossas escolhas erradas, do nosso orgulho, do nosso ego\u00edsmo e autossufici\u00eancia. Quando o homem escolhe viver orgulhosamente s\u00f3, ignorando as propostas de Deus e prescindindo do amor, constr\u00f3i cidades de ego\u00edsmo, de injusti\u00e7a, de prepot\u00eancia, de sofrimento, de pecado.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meus caros irm\u00e3os,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por sua vez, a Segunda Leitura, da Carta aos Romanos(Rm 5,12.17-19 \u2013 f\u00f3rmula breve), \u00e9 o coment\u00e1rio do Ap\u00f3stolo S\u00e3o Paulo sobre o mesmo epis\u00f3dio: se, solid\u00e1rios com Ad\u00e3o, todos pecam e morrem, muito mais encontram a justi\u00e7a, a amizade com Deus, em Cristo, pelo qual a gra\u00e7a e a vida entram em nossa exist\u00eancia. A morte f\u00edsica, para Paulo, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 aquele <strong><em>\u201ccastigo de Ad\u00e3o\u201d,<\/em><\/strong> mas a transforma\u00e7\u00e3o da vida, conforme o ensinamento de 1Cor 15,35-53.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final da d\u00e9cada de 50 (a Carta aos Romanos apareceu por volta de 57\/58), multiplicavam-se as \u201ccrises\u201d entre os crist\u00e3os oriundos do mundo judaico e os crist\u00e3os oriundos do mundo pag\u00e3o. Uns e outros tinham perspectivas diferentes da salva\u00e7\u00e3o e da forma de viver o compromisso com Jesus Cristo e com o seu Evangelho. Os crist\u00e3os de origem judaica consideravam que, al\u00e9m da f\u00e9 em Jesus Cristo, era necess\u00e1rio cumprir as obras da Lei (nomeadamente a pr\u00e1tica da circuncis\u00e3o) para ter acesso \u00e0 salva\u00e7\u00e3o; mas os crist\u00e3os de origem pag\u00e3 recusavam-se a aceitar a obrigatoriedade das pr\u00e1ticas judaicas. Era uma quest\u00e3o \u201cquente\u201d, que amea\u00e7ava a unidade da Igreja. Este problema tamb\u00e9m era sentido pela comunidade crist\u00e3 de Roma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste cen\u00e1rio, S\u00e3o Paulo vai mostrar a todos os fi\u00e9is (a Carta aos Romanos, mais do que uma carta para a comunidade crist\u00e3 de Roma, \u00e9 uma carta para as comunidades crist\u00e3s, em geral) a unidade da revela\u00e7\u00e3o e da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o: judeus e n\u00e3o judeus s\u00e3o, de igual forma, chamados por Deus \u00e0 salva\u00e7\u00e3o; o essencial n\u00e3o \u00e9 cumprir a Lei de Mois\u00e9s \u2013 que nunca assegurou a ningu\u00e9m a salva\u00e7\u00e3o; o essencial \u00e9 acolher a oferta de salva\u00e7\u00e3o que Deus faz a todos, por Jesus Cristo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O texto que nos \u00e9 proposto faz parte da primeira parte da Carta aos Romanos (cf. Rom 11,18-11,36). Depois de demonstrar que todos (judeus e n\u00e3o judeus) vivem mergulhados no pecado (cf. Rom 1,18-3,20) e que \u00e9 a justi\u00e7a de Deus que a todos salva, sem distin\u00e7\u00e3o (cf. Rom 3,21-5,11), Paulo ensina que \u00e9 atrav\u00e9s de Jesus Cristo que a vida de Deus chega aos homens e que se faz oferta de salva\u00e7\u00e3o para todos (cf. Rom 5,12-8,39).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para deixar bem claro que a salva\u00e7\u00e3o foi oferecida por Deus aos homens atrav\u00e9s de Jesus Cristo, S\u00e3o Paulo recorre aqui a uma figura liter\u00e1ria que aparece, com alguma frequ\u00eancia, nos seus escritos: a ant\u00edtese. Em concreto, S\u00e3o Paulo vai expor o seu racioc\u00ednio atrav\u00e9s de um jogo de oposi\u00e7\u00f5es entre duas figuras: Ad\u00e3o e Jesus. Ad\u00e3o \u00e9 a figura de uma humanidade que prescinde de Deus e das suas propostas e que escolhe caminhos de ego\u00edsmo, de orgulho e de autossufici\u00eancia. Ora, essa escolha produz injusti\u00e7a, aliena\u00e7\u00e3o, sofrimento, desarmonia. Porque a humanidade preferiu, tantas vezes, esse caminho, o mundo entrou numa economia de pecado; e o pecado gera morte. A morte deve ser entendida, neste contexto, em sentido global \u2013 quer dizer, n\u00e3o tanto como morte f\u00edsico-biol\u00f3gica, mas sobretudo como morte espiritual e escatol\u00f3gica que \u00e9 afastamento tempor\u00e1rio ou definitivo de Deus (a fonte da vida aut\u00eantica).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cristo prop\u00f4s um outro caminho. Ele viveu numa permanente escuta de Deus e das suas propostas, na obedi\u00eancia total aos projetos do Pai. Esse caminho leva \u00e0 supera\u00e7\u00e3o do ego\u00edsmo, do orgulho, da autossufici\u00eancia e faz nascer um Homem Novo, plenamente livre, que vive em comunh\u00e3o com o Deus que \u00e9 fonte de vida aut\u00eantica (a vit\u00f3ria de Cristo sobre a morte \u00e9 a prova provada de que s\u00f3 a comunh\u00e3o com Deus produz vida definitiva). Foi essa a grande proposta que Cristo fez \u00e0 humanidade. Assim, Cristo libertou os homens da economia de pecado e introduziu no mundo uma din\u00e2mica nova, uma economia de gra\u00e7a que gera vida plena (salva\u00e7\u00e3o). N\u00e3o \u00e9 claro que Paulo se esteja a referir, aqui, \u00e0quilo que a teologia posterior designou como \u201cpecado original\u201d (ou seja, um pecado hist\u00f3rico cometido pelo primeiro homem, que atinge e marca todos os homens que nascerem em qualquer tempo e lugar). O que \u00e9 claro \u00e9 que, para Paulo, a interven\u00e7\u00e3o de Cristo na hist\u00f3ria humana se traduziu num dinamismo de esperan\u00e7a, de vida nova, de vida aut\u00eantica. Cristo veio propor \u00e0 humanidade um caminho de comunh\u00e3o com Deus e de obedi\u00eancia aos seus projetos; \u00e9 esse caminho que conduz o homem em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 vida plena e definitiva, \u00e0 salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns acontecimentos que marcam a hist\u00f3ria do nosso tempo confirmam que uma hist\u00f3ria constru\u00edda \u00e0 margem das propostas de Deus \u00e9 uma hist\u00f3ria marcada pelo ego\u00edsmo, pela injusti\u00e7a, pela prepot\u00eancia e, portanto, \u00e9 uma hist\u00f3ria de sofrimento e de morte. Quando o homem deixa de dar ouvidos a Deus, d\u00e1 ouvidos ao lucro f\u00e1cil, destr\u00f3i a natureza, explora os outros homens, torna-se injusto e prepotente, sacrifica em proveito pr\u00f3prio a vida dos seus irm\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estimados Irm\u00e3os,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tempo da Quaresma \u00e9 inaugurado com a recorda\u00e7\u00e3o das tenta\u00e7\u00f5es do deserto. Jesus tem que tomar uma decis\u00e3o: ou os bens do mundo, ou os bens do Reino. Depois de ser batizado, Jesus, antes de come\u00e7ar a vida p\u00fablica, vive no deserto em jejum e em ora\u00e7\u00e3o durante quarenta dias. Jesus veio ao mundo para recri\u00e1-lo, isto \u00e9, para levar as criaturas \u00e0 sua origem primitiva com um destino divino e eterno. O cen\u00e1rio de hoje lembra o tema do para\u00edso terrestre. Neste para\u00edso, Ad\u00e3o e Eva come\u00e7avam a grande miss\u00e3o de povoar a terra, de criarem uma fam\u00edlia de Deus, um povo que fosse a alegria e o prolongamento da Sant\u00edssima Trindade. L\u00e1 nossos primeiros pais, tentados pelo dem\u00f4nio e pelo mal, sucumbiram. Fracassou, aos olhos humanos, o plano amoroso de Deus. Jesus, agora como Novo Ad\u00e3o(cf. 1 Cor 15,45), ao come\u00e7ar a nova cria\u00e7\u00e3o, passa pelas mesmas tenta\u00e7\u00f5es, vence o dem\u00f4nio e ganha, por assim dizer, o direito de reabrir as portas do para\u00edso e construir o Reino dos C\u00e9us, a nova fam\u00edlia do Senhor Deus na terra, neste vale de l\u00e1grimas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As mesmas tenta\u00e7\u00f5es de Ad\u00e3o e de Jesus s\u00e3o as tenta\u00e7\u00f5es dos homens e das mulheres de hoje, as nossas tenta\u00e7\u00f5es. O Evangelho de hoje narra um epis\u00f3dio de nosso quotidiano. Tenta\u00e7\u00f5es que adv\u00eam de uma dura op\u00e7\u00e3o: ou optamos pelos valores divinos e retornamos ao para\u00edso, fazendo o caminho chamado Jesus, ou nos contentaremos com os valores passageiros e ef\u00eameros deste mundo, curtindo o angustiado desejo de ser deus(cf. Gn 3,5), em permanente conflito com o Senhor e sem passagem entre terra e c\u00e9u. A \u00fanica ponte poss\u00edvel para a vida eterna \u00e9 <strong><u>CRISTO.<\/u><\/strong> Para fazer esta ponte Jesus <em>\u201cviveu em tudo a condi\u00e7\u00e3o humana, exceto o pecado\u201d(cf. Hb 4,15).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meus queridos irm\u00e3os,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ad\u00e3o e Eva foram tentados, no para\u00edso, pela gula, irm\u00e3 g\u00eamea da cobi\u00e7a. Neste domingo(cf. Mt 4,1-11), o dem\u00f4nio relembra, com um p\u00e9 no para\u00edso de Ad\u00e3o e com outro na miss\u00e3o de Jesus, tenta-o transformar pedras em p\u00e3o. A cobi\u00e7a \u00e9 a primeira tenta\u00e7\u00e3o a nossa an\u00e1lise. Ser\u00e1 menos a tenta\u00e7\u00e3o de matar a fome e mais a tenta\u00e7\u00e3o de ter. Jesus viera transformar os cora\u00e7\u00f5es de pedra das criaturas humanas em cora\u00e7\u00f5es-morada do Esp\u00edrito Santo. Isso para que o cora\u00e7\u00e3o humano procurasse as coisas de Deus, as alegrias eternas, e n\u00e3o as coisas passageiras do mundo ef\u00eamero. O dem\u00f4nio coloca a cobi\u00e7a, que \u00e9 a m\u00e3e de todos os v\u00edcios como meta para Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda tenta\u00e7\u00e3o colocada pelo dem\u00f4nio \u00e9 o poder, irm\u00e3o da soberba e do orgulho. Poder absoluto. Que n\u00e3o deve contas e obedi\u00eancia a ningu\u00e9m. Ser Deus. Ad\u00e3o, em frontal desobedi\u00eancia a Deus, desejou at\u00e9 mesmo o poder sobre a morte. A Jesus \u00e9 proposto o poder sobre as leis da natureza, o poder sobre os anjos. O dem\u00f4nio oferece o que os homens sempre desejaram: ter tudo em suas m\u00e3os e nada dividir com ningu\u00e9m. Quem quer isso \u00e9 o homem ego\u00edsta e orgulhoso. Isso porque Jesus viera para divinizar o homem e dar-lhe poderes excepcionais, mas sempre em comunh\u00e3o com Deus e com o pr\u00f3ximo. O dem\u00f4nio coloca a soberba como a m\u00e3e de todas as divis\u00f5es, inimiga declarada da fraternidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A terceira tenta\u00e7\u00e3o colocada pelo dem\u00f4nio \u00e9 a domina\u00e7\u00e3o, a partir do <strong><em>\u201cconhecer o bem e o mal\u201d<\/em><\/strong>. Jesus viera como Senhor do mundo. Todas as criaturas lhe estavam sujeitadas. Mas viera para servir e n\u00e3o para dominar. Jesus veio para ser o servo dos servos de todos, e servir com gratuidade. Jesus no Lava-p\u00e9s demonstrou qual deve ser a atitude dos crist\u00e3os: sempre servir, lavar os p\u00e9s dos irm\u00e3os, se colocar como aquele que serve, servindo com generosidade e desprendimento, por amor, por sumo amor!<\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Caros irm\u00e3os,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o essencial que a Palavra de Deus hoje nos prop\u00f5e \u00e9, portanto, esta: Jesus recusou, de forma absoluta, conduzir a sua vida \u00e0 margem de Deus e das suas propostas. Para Ele, s\u00f3 uma coisa \u00e9 verdadeiramente decisiva e fundamental: a comunh\u00e3o com o Pai e o cumprimento obediente do seu projeto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o homem esquece Deus e as suas propostas, e se fecha no ego\u00edsmo e na autossufici\u00eancia, facilmente cai na escravid\u00e3o de outros deuses que, no entanto, est\u00e3o longe de assegurar vida plena e felicidade duradoura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deixar-se conduzir pela tenta\u00e7\u00e3o dos bens materiais, do acumular mais e mais, do subordinar toda a vida \u00e0 l\u00f3gica do \u201cter mais\u201d, \u00e9 seguir o caminho de Jesus? Olhar apenas para o seu pr\u00f3prio conforto e comodidade, fechar-se \u00e0 partilha e \u00e0s necessidades dos outros, pagar sal\u00e1rios de mis\u00e9ria e malbaratar fortunas em noitadas de jogo ou em coisas sup\u00e9rfluas\u2026 \u00e9 seguir o exemplo de Jesus?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Prezados irm\u00e3os,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deus \u00e9 criador e libertador. Em seu des\u00edgnio de amor, criou o ser humano em \u00edntima uni\u00e3o com a m\u00e3e terra. Em sua provid\u00eancia generosa, garante condi\u00e7\u00f5es de vida digna a todas as pessoas. Deu-nos a miss\u00e3o de cuidar de todas as coisas, sem cair na tenta\u00e7\u00e3o de \u201ccomer do fruto da \u00e1rvore da ci\u00eancia do bem e do mal\u201d, isto \u00e9, de entrar na ideologia do poder, que tende a dominar as pessoas e se apossar do que \u00e9 de todos. \u00c9 preciso respeitar e promover o princ\u00edpio da soberania de Deus sobre todas as coisas e administr\u00e1-las com justi\u00e7a, evitando toda esp\u00e9cie de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tenhamos consci\u00eancia de que devemos ter presente: n\u00e3o cair em tenta\u00e7\u00e3o. Durante toda a nossa vida, somos tentados a abdicar do compromisso com o projeto de Deus, deixando-nos levar por propostas diab\u00f3licas. Jesus nos ensinou o caminho de supera\u00e7\u00e3o das tenta\u00e7\u00f5es do poder em sua tr\u00edplice dimens\u00e3o: econ\u00f4mica, pol\u00edtica e religiosa. \u00c9 claro que a economia, a pol\u00edtica e a religi\u00e3o podem ser meios privilegiados para a constru\u00e7\u00e3o do Reino de justi\u00e7a, paz e fraternidade no mundo, desde que sejam organizadas como servi\u00e7o dedicado e honesto ao pr\u00f3ximo, principalmente \u00e0s pessoas mais necessitadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sejamos portadores da gra\u00e7a divina. Com sua obedi\u00eancia radical \u00e0 vontade do Pai, Jesus nos trouxe a gra\u00e7a da liberta\u00e7\u00e3o de todos os males e a vida em plenitude. Seguindo seus passos, podemos ser portadores da gra\u00e7a divina, defendendo e promovendo o direito \u00e0 vida digna sem exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estimados amigos,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As tenta\u00e7\u00f5es est\u00e3o em toda \u00e0 parte e est\u00e3o em confronto permanente com o dem\u00f4nio. Jesus passando pelo deserto, passando pelas mesmas tenta\u00e7\u00f5es do povo que saiu do ex\u00edlio, \u00e9 duramente tentado. Assim, n\u00f3s homens e mulheres, sofremos no dia a dia as mesmas tenta\u00e7\u00f5es: na intimidade da casa, a tenta\u00e7\u00e3o do p\u00e3o. Na intimidade com Deus, a tenta\u00e7\u00e3o de ficar ausente da vida de Deus e a terceira tenta\u00e7\u00e3o nos trabalhos di\u00e1rios, aonde somos muitas vezes tentados a viver a aus\u00eancia de Deus e a auto-sufici\u00eancia. No equil\u00edbrio e desempenho dessas tr\u00eas dimens\u00f5es est\u00e1 a santidade. Por isso, o dem\u00f4nio se faz presente como perturbador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Somos chamados a combater o mal e o dem\u00f4nio no dia a dia. Somos chamados a caminhar para o deserto, para a busca de Deus, para o nosso encontro com a Trindade Sant\u00edssima. \u00c0s tenta\u00e7\u00f5es do ter, do poder e do dominar, que est\u00e3o no sangue da gente desde a desgra\u00e7a de Ad\u00e3o, Jesus veio propor o desapego, a fraternidade e o servi\u00e7o generoso e gratuito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, Jesus sai da cruz das tenta\u00e7\u00f5es e sobre esta vit\u00f3ria constr\u00f3i o Reino, a maneira humano-divina de viver na terra, que Ad\u00e3o n\u00e3o soube fazer. Jesus hoje \u00e9 vitorioso sem o alarde do milagre. Na Sexta-Feira Santa Ele n\u00e3o desce da Cruz, porque nela estava a vit\u00f3ria definitiva do desapego, do servi\u00e7o, da fraternidade, que geram vida e paz, gra\u00e7a e amor, verdade e salva\u00e7\u00e3o. Fa\u00e7amos de nosso retiro quaresmal, de penit\u00eancia e convers\u00e3o, a busca continua do rosto sereno e radioso de Deus, no desapego, no amor, no servi\u00e7o generoso e na caridade que gera fraternura. Assim Seja!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tempo da Quaresma \u00e9 inaugurado com a recorda\u00e7\u00e3o das tenta\u00e7\u00f5es do deserto. 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