Meditações
 
Cristo ressuscitado disse: "Recebei o Espírito Santo"
 
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Pode dizer-se que a "elevação" messiânica de Cristo no Espírito Santo atingiu o seu auge na Ressurreição, quando se revelou como Filho de Deus, "cheio de poder". E este poder, cujas fontes jorram da imperscrutável comunhão trinitária, manifesta-se, antes de mais nada, pela dupla ação de Cristo Ressuscitado: realizar, por um lado, a promessa de Deus já expressa pela boca do Profeta: "Dar-vos-ei um coração novo... porei dentro de vós um espírito novo, o meu espírito"; e cumprir, por outro lado, a sua própria promessa, feita aos Apóstolos com estas palavras: "Quando eu for, enviar-vo-lo-ei". É Ele: o Espírito da verdade, o Paráclito enviado por Cristo Ressuscitado para nos transformar e fazer de nós a sua própria imagem de Ressuscitado.

Sucedeu que "na tarde desse dia, que era o primeiro da semana, depois do sábado, estando fechadas às portas do lugar onde se encontravam os discípulos, por medo dos judeus, veio Jesus, colocou-se no meio deles e disse-lhes:” A paz esteja convosco “. Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. E os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo:” A paz esteja convosco! Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós “. Dito isso, soprou sobre eles e disse-lhes:” Recebei o Espírito Santo ““.

Todos os pormenores deste texto-chave do Evangelho de São João têm o seu significado, especialmente se os relermos em conexão com as palavras pronunciadas por Cristo no mesmo Cenáculo, no início dos acontecimentos pascais. Estes tactos -o triduum sacrum de Jesus, que o "Pai consagrou com a unção e enviou ao mundo" - tiveram a sua consumação. Cristo, que "tinha entregado o espírito" sobre a Cruz, como filho do homem e Cordeiro de Deus, uma vez ressuscitado, vai ter com os Apóstolos para "soprar sobre eles" com aquele poder de que fala a Carta aos Romanos. A vinda do Senhor enche de alegria os presentes: "A sua tristeza converte-se em alegria", como Ele já lhes tinha prometido antes da sua paixão. Verifica-se, sobretudo, o anúncio principal do discurso de despedida: Cristo ressuscitado, como que dando início a uma nova criação, "traz aos Apóstolos o Espírito Santo". Trá-lo à custa da sua "partida"; dá-lhes o Espírito como que através das feridas da sua crucifixão: "mostrou-lhes as mãos e o lado". É em virtude da mesma crucifixão que lhes diz: "Recebei o Espírito Santo".

Estabelece-se assim íntima ligação entre o envio do Filho e o do Espírito Santo. Não existe envio do Espírito Santo (depois do pecado original) sem a Cruz e a Ressurreição: "Se eu não for, não virá a vós o Consolador". Estabelece-se também íntima ligação entre a missão do Espírito Santo e a missão do Filho na Redenção. Esta missão do Filho em certo sentido, tem o seu "cumprimento" na Redenção. A missão do Espírito Santo "vai haurir" algo da Redenção: "Ele receberá do que é meu para vo-lo anunciar".

A Redenção é totalmente operada pelo Filho, como o Ungido, que veio e agiu com o poder do Espírito Santo, oferecendo-se por fim em sacrifício supremo no madeiro da Cruz. Esta Redenção é constantemente operada nos corações e nas consciências humanas - na história do mundo - pelo Espírito Santo, que é o "outro Consolador".


O Espírito Santo na Vida da Igreja e do Mundo
in:Carta Encíclica "Dominum et Vivificantem" do Papa João Paulo II



 
 
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