Meditações
 
O Renovamento na Quaresma é de conversão e pentecostal
 
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(Meditações sobre as opiniões de um Jesuíta e de um beniditino)


1. Leão XIII (na sua Encíclica Divinum illud munus) insistiu na necessidade de um culto fervoroso ao Espírito Santo, criticando a ignorância e o esquecimento que se verificavam na Igreja sobre esta divina pessoa, e a própria falta de ensinamento catequético e de pastoral por parte de pregadores e párocos.

Esta Encíclica pode considerar-se como anunciando já a fase pneumática que vai reemergir na teologia e na espiritualidade, designadamente com a Encíclica Mystici Corporis, de Pio XII, depois com o próprio Concílio, a catequese dos Papas Paulo VI e João Paulo II, toda uma inumerável bibliografia teológica e espiritual que, já desde antes do Concílio, mas mais ainda depois, caracteriza o século XX e acompanha o que pode chamar-se de renovamento pentecostal da espiritualidade contemporânea na Igreja, tal como a caracterizam eminentes especialistas, como por exemplo, o conhecido Padre Jesus Castellano nos seus cursos do Instituto Teológico Teresiano, de Roma . Que se desdobra em frutos de novos movimentos e novas comunidades.

2. Segundo o teólogo Kilian McDonnell O.S.B., relator (em colaboração com o Cardeal Suenenes) do famoso Documento de Malines 1, «o foco do cristão carismático está na plenitude de vida no Espírito, (o que inclui que o foco está também) no exercício dos dons do Espírito, orientados, dirigidos para a proclamação de que Jesus é o Senhor para glória do Pai» [citado por Benigno Juanes S.J, "Falar em línguas", p. 190].

Com efeito, a vida do batizado não pode deixar de ser desejada, rezada e vivida na intimidade do Espírito; o qual, pela fé católica sabemos que in-habita no coração do cristão por virtude do batismo (batismo da água e do Espírito).

Este ponto parece muito importante, considerando que, dentro da Igreja, continuam por vezes a menosprezar-se praticamente os carismas. Antes do Concílio, houve não raro alguma reticência em desenvolver a catequese pentecostal; e em meditar e desejar os dons e os carismas do Espírito Santo. Esta reserva excessiva esteve na causa de erros de discernimento, inclusive em públicas tomadas de posição, como no caso do Padre Pio. Todos concordam em que deve haver prudência, e se devem prevenir os desvios. Mas isso não desculpa erros tão chocantes.

3. Segundo Benigno Juanes, S.J., a particularidade da espiritualidade do Renovamento Carismático é precisamente uma focagem sobre a plenitude da vida no Espírito Santo. Essa focagem implica uma abertura desejada ao Espírito Santo, com fé, atenção e discernimento sobre a ação do Espírito Santo na nossa vida. Ele, que in-habita em nós por mérito dos sacramentos instituídos por Jesus Cristo, reunindo-nos no Corpo Místico de Cristo. Essa conversão, essa fé, essa colaboração com o Espírito permite ao Espírito viver e obrar em nós, de modo a que Cristo possa ser verdadeiramente proclamado Senhor, e em Cristo sejamos conduzidos ao Pai.

Seguindo a interpretação de McDonnell, Benigno Juanes afirma que quando há uma abertura especial ao Espírito Santo, e há expectativas na fé com essa abertura, então isso torna possível que o Espírito Santo atue na vida do cristão de maneira e num grau que não tem lugar se for diferente o foco espiritual. «Esta particularidade (afirma o jesuíta Benigno Juanes) é o que diferencia teologicamente a espiritualidade carismática operativamente de outras espiritualidades» (cfr. ob. cit., p. 190).

De acordo com exposição de McDonnell, a diferença ocorre porque existe uma profunda expectativa de fé no crente iniciado. Isso pode ser explicado de acordo com a doutrina escolástica clássica, pelas graças «ex opere operantes» (pela cooperação das pessoas), graças que se recebem de acordo com a medida da nossa "abertura ou expectativa ou vigilância" (lug. cit., p. 191).

Benigno Juanes acrescenta que, «segundo o sentir dos que abordaram seriamente o tema, o Renovamento Carismático é, como "corrente de graça", a vida "normal" do cristão. Nessa suposição, essa espiritualidade - se é que se pode chamar assim - cabe dentro de todas e quaisquer outras espiritualidades; sem que por isso fique desvirtuado, por exemplo, um instituto religioso. Pelo contrário, será esse um modo singular de fortalecê-lo, e de fazê-lo crescer e desenvolver-se» (ob., cit., p. 190-191).

A vida do batizado não pode deixar de ser desejada e esforçadamente vivida na intimidade trinitária, segundo a fé da Igreja na in-habitação do Espírito Santo no coração do batizado. Dessa intimidade, não pode estar ausente uma focagem no exercício das virtudes infusas, desde logo as teologais, tal como também no recebimento dos dons do Espírito Santo e no dos carismas, que tudo são graças do Espírito Santo que nós não temos o direito de recusar ou preferir, mas sim de desejar e acolher, porque «o Espírito sopra onde quer e como quer».

Este ponto parece muito importante para a nossa santificação, mas também para a edificação da Igreja - e uma coisa não deve separar-se da outra.

4. Estamos na Quaresma, em tempo de nova conversão. Com a nova conversão, desejemos também renovar o nosso batismo e a nossa confirmação, e receber uma nova Efusão do Espírito Santo. Segundo a palavra de S. Paulo, «enchamo-nos do Espírito Santo».

E se neste espírito nos esforçarmos, com humildade e confiança, pela oração e pela penitência, podemos receber as graças de uma efetiva nova conversão (de que falou S. Inácio de Loyola), de uma nova efusão do Espírito e ainda de uma Nova Evangelização.


Mário Pinto



 
 
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