Ser missionário
 
Ver e Enxerga
 
Leia os outros artigos
 

Desde sempre verificamos a presença de uma constante ambigüidade ao direcionarmos o nosso olhar aos que têm usos, costumes, culturas e religiões diferentes dos nossos. É possível considerar negativamente tais diferenças, a ponto de rotular os outros de “bárbaros”, de exóticos e de estranhos. Pela ótica positiva, os outros continuam sendo “diferentes”, mas entram numa dimensão de vizinhança e de proximidade. Diante do “outro” e do “diferente” surgem atitudes diametralmente opostas: uma leva ao desprezo do outro a ponto de “demonizá-lo”, considerando-o um inimigo a ser combatido e, portanto, a ser eliminado; outra “idealiza-o” como se fosse um membro de uma sociedade paradisíaca, onde todos vivem em perfeita harmonia entre si e com a natureza (que o mito do “bom selvagem” o diga!).

Ainda hoje, vez por outra, esta ambigüidade vem à tona com força. Trata-se de uma estranha forma de “miopia” que, no contexto atual de fanatismos e fundamentalismos, pode afetar também as pessoas, cuja vocação consiste em descobrir os múltiplos sinais da presença de Deus na história da humanidade. Do outro lado, existe uma “visão” mais nítida da realidade que, apesar de toda complexidade, nasce e se desenvolve a partir de uma experiência de diálogo e de encontro autêntico com os “outros”. Daí surgem e se descobrem riquezas e valores surpreendentes: outras maneiras de viver, de pensar e de se expressar tornam mais significativa a vida de quem estabelece relações humanas autênticas.

Naturalmente, para que este encontro seja significativo, é necessário superar obstáculos, bem como o sentimento de superioridade, a atitude de arrogância, típica de quem pensa possuir a totalidade da verdade, e toda forma de paternalismo. Tudo isso encontra um ponto de referência em Mt 13,10-17, que realça a maneira de olhar do discípulo de ontem e de hoje. Antes de tudo, o grupo dos discípulos se mistura com a multidão reunida em torno de Jesus, vendo de perto a sua atividade e ouvindo o seu ensinamento (13,1-3). Porém, a expressão “a vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos céus” (v. 11), mostra que o relacionamento dos discípulos com Jesus é diferente daquele da multidão.

Eles têm acesso ao projeto de Deus (= conhecer os mistérios do Reino), dom que a multidão não tem (a eles não foi dado), pois eles, não somente vêem em Jesus o que todo mundo vê, mas “enxergam” nele a presença ativa de Deus. Não por acaso, mais adiante, Jesus os declara bem-aventurados por terem uma “visão profunda” da realidade, que ultrapassa de longe as expectativas de “muitos profetas e justos” (13,16-17). De fato, os discípulos “vêem e enxergam”, constatando pessoalmente que as antigas promessas proféticas se realizam na atividade e na pregação de Jesus. Em contraste com a situação dos discípulos, Mateus apresenta a rejeição da multidão, que vê, mas “não enxerga”, a manifestação de Deus e o seu projeto de salvação atuando em Jesus.

O que estabelece a diferença entre os discípulos e a multidão é o relacionamento com Jesus: os discípulos se identificam com a ação e a mensagem de Jesus, por isso conseguem perceber nele a presença divina, a ponto de assumirem o “mesmo olhar”; a multidão, ao contrário, não consegue o mesmo, porque a chave para entrar nesse “conhecimento” foi seqüestrada pelos doutores da Lei (23,13). Por isso, “vê sem enxergar”, continuando, porém, a receber o anúncio do Reino através das parábolas. A mensagem é clara: só quem está envolvido no projeto de Jesus consegue abrir os olhos para perceber a presença divina na história; quem permanece fechado na própria auto-suficiência, não só terá uma visão superficial da realidade, mas ficará como que petrificado diante da perspectiva de demonizar o “outro” ou de expulsá-lo da história, transformando-o num ser paradisíaco, irreal e fantástico.

Autor: Sérgio Bradanini
www.pime.org.br



 
 
xm732