Ser missionário
 
Um jeito de olhar
 
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esde sempre a missão está ligada a uma certa maneira de olhar; isto é, tem um jeito próprio de considerar as pessoas, a sociedade e o mundo. A partir dos tempos do apóstolo Paulo, o maior missionário do 1o século da era cristã, até os dias de hoje, o problema não mudou: é preciso ter um “olhar” especial para as pessoas que se quer evangelizar. Cumprindo o mandato evangélico de “fazer discípulas todas as nações” (Mt 28,19) ao longo de toda a história, os missionários se dirigem aos quatro cantos do mundo, encontrando outras pessoas e povos e entrando em ambientes e culturas diferentes.

Nesse contexto amplo e universal, para poder anunciar a mensagem do Evangelho é preciso levar muito a sério a alteridade, a multiplicidade e a diversidade de culturas e religiões, as quais possuem outras maneiras de falar e de viver, de pensar e de interpretar a realidade do mundo e da história. Entretanto, embora mergulhando nos contextos e situações mais diversificados, o jeito de olhar do missionário permanece tremendamente ambíguo: pode expressar uma atitude de dominação, de arrogância ou até de desprezo, ou pode estabelecer uma relação fraterna, de amizade e de respeito, alicerçada numa atitude de gratuidade e de reciprocidade.

Ora, para não cair nessa ambigüidade é preciso lembrar que a missão, enquanto missão, tem, como referência fundamental, a pessoa de Jesus: o seu jeito de olhar a realidade, o seu jeito de se relacionar com as pessoas e o seu jeito de oferecer a todos a salvação. É este o núcleo consistente da missão. Com efeito, nos evangelhos esta situação aparece claramente desde a inauguração da atividade pública de Jesus.

Segundo o evangelista Mateus, após a narração do batismo e das tentações, Jesus está pronto para entrar em ação, por isso apresenta o “programa” de sua atividade em 3 etapas.

Primeiro - na Galiléia, Jesus deixa Nazaré e passa a morar em Cafarnaum, onde oficialmente proclama o Reino a todos, não só aos judeus, mas também aos pagãos (4,14-17);

Segundo - em seguida, chama os primeiros discípulos e os convida a segui-lo (4,18-22);

Terceiro - enfim, Jesus mostra em que consiste a sua atividade: anda ensinando a Palavra de Deus, proclamando o evangelho do Reino, e curando toda enfermidade (4,23-25).

A etapa central é muito importante porque é lá que se manifesta o “olhar de Jesus” que provoca uma transformação profunda na vida dos discípulos, constituindo uma “comunidade de irmãos”. O pano de fundo lembra, em primeiro lugar, a experiência do êxodo: Jesus caminha junto ao mar e chama os que formam a base do povo de Deus. Além disso, aparece o mesmo esquema da vocação-missão de Moisés (Ex 3,7-10,) onde a iniciativa divina se manifesta através do “olhar” e da “voz”. É possível vislumbrar também uma alusão à criação com uma diferença: na narração da criação, Deus antes “fala” e depois “vê”; no evangelho Jesus antes “vê” e depois “fala”.

Em todo caso, trata-se de uma visão profunda em que Jesus “re-cria” e renova e convoca os discípulos para um “novo êxodo”. De fato, desde sempre Deus olha as suas criaturas com carinho e com respeito, com um olhar que não pára nas aparências, mas penetra na profundidade do coração (1Sm 16,7; Mt 6,4), vê as necessidades do seu povo (Ex 3,7; Mt 6,32), por isso intervém para oferecer a salvação que ultrapassa os limites do seu povo para se estender a todas as nações (Mt 4,16). Jesus “vê” (vv.18.21) duas duplas de irmãos e, em seguida, convida-os a serem “pescadores de homens”.

Isso quer dizer que o povo do “novo êxodo” deve ser uma “comunidade de irmãos”, cujo fundamento é uma relação pessoal com Jesus, e não uma doutrina ou um código de leis! A partir da “visão” e da “voz” de Jesus, os pescadores de homens podem percorrer o caminho que leva realmente à fraternidade universal.

Autor: Sérgio Bradanini
www.pime.org.br



 
 
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