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Entre o Bem e o Mal
 
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Para a celebração do dia mundial da Paz, o Papa propõe um tema muito sugestivo com o intuito de despertar ou de manter viva a difícil liberdade de escolha entre o bem e o mal.

Para isso recorre a uma afirmação de São Paulo:

“Não te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem” (Rm 12,21). Ele se refere, não ao problema do mal em geral, mas ao mal causado principalmente por decisões humanas erradas. Segundo esta perspectiva, ele quer mostrar que a Paz mundial é um bem que deve ser guardado e promovido exatamente através de decisões livres e gestos concretos de bem. É verdade que muitos conflitos violentos e sangrentos pelo mundo afora encontram suas raízes e suas explicações no desejo de dominação.

De fato, o ser humano contemporâneo, seduzido pelas suas descobertas e pela dominação e controle progressivo sobre a natureza, acredita ser o dono do seu destino e responsável absoluto pela sua história. Ele tenta construir um mundo alicerçado unicamente sobre a auto-suficiência, sem levar em consideração as conseqüências negativas e inimagináveis que isso pode acarretar: desumanização, rupturas de laços familiares e sociais, individualismo crescente, perda de autonomia, de liberdade e de esperança.

Os conflitos sangrentos e a distância enorme entre poucos ricos e a imensa multidão de pobres, sem contar a terrível solidão a que são relegados homens e mulheres de todas as idades, provam e indicam a presença do mal no mundo. Diante disso não só é possível, mas é necessário escolher! Entretanto a realidade é muito mais complexa. Como, e em que sentido, é possível vencer o mal quando se sabe que nem sempre ele é fruto de decisões humanas?

É suficiente lembrar o cenário dramático e desolador da calamidade que atingiu recentemente muitos países asiáticos, para levantar uma série de questionamentos, que nem sempre encontram uma resposta plausível, clara e definitiva. Desde sempre a história humana passa por tragédias de grandes proporções, é surpreendida por acontecimentos repentinos e de certa forma imprevisíveis, cuja extensão ultrapassa totalmente qualquer possibilidade de controle.

A primeira conseqüência de tudo isso é uma profunda sensação de impotência, de um sofrimento intenso, imenso e indescritível, como lembra uma expressão bíblica:

“Grande como o mar é a tua calamidade” (Lm 2,13). Depois da desgraça se buscam as raízes e as causas, mesmo sabendo que não existem explicações exaustivas, definitivas e absolutas. Com efeito, toda calamidade, de qualquer ponto de vista seja considerada, em superfície ou em profundidade, é sempre um grande desequilíbrio, um “golpe” que repentinamente revela até que ponto as pretensões de dominação podem determinar o curso da história ou até que ponto podem chegar os seus limites.

Talvez também este momento atual,
mesmo em toda a sua dramaticidade, seja
uma oportunidade profundamente humana de
levantar uma "imensa onda" de solidariedade

Em todo caso, embora de forma dramática, isso revela também as potencialidades humanas de fazer o bem. O contexto atual não é dos mais confortáveis. Apesar disso, a sabedoria bíblica indica que não é possível alcançar nada de bom se a angústia e a inquietude tomarem conta de tudo. É possível vencer o mal pelo bem (Rm 12,21), única e exclusivamente levando em consideração que o mal feito ou sofrido não elimina a promessa de Deus.

De fato, não é a primeira vez que a humanidade enfrenta turbulências, calamidades, desolação e desgraças. Quase sempre se saiu de cabeça erguida. Talvez também este momento atual, mesmo em toda a sua dramaticidade, seja uma oportunidade profundamente humana de levantar uma “imensa onda” de solidariedade. Não será este um momento propício para que, tornando mudas as armas, a caridade e o bem possam gritar?

Autor: Sérgio Bradanini
www.pime.org.br



 
 
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