Ser missionário
 
Javé ouve a minha Voz
 
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Uma das tendências atuais é aceitar toda expressão da vida moderna pelo simples fato dela existir. Todo comportamento tem direito a expressar-se assim como é, não importa se está certo ou errado (Quem não lembra “é proibido proibir” dos anos 60?).

O que interessa é unicamente a preocupação de respeitar “todas” as opiniões, mais do que buscar a verdade das coisas (afinal cada um pode inventar a própria). A busca atual de todo tipo de “espiritualidade” parece procurar “o divino” no próprio eu, sem perceber o risco de ficar preso dentro de uma estridente, magnífica, e por que não? amarga solidão!

Daí surge a necessidade frenética de diversão, de barulho ensurdecedor: não se ouve mais “a voz do silêncio suave” (1Rs 19,12) da autêntica experiência espiritual!

Quem “inventa” a sua própria “espiritualidade”, muitas vezes abre a porta a um vazio existencial que aceita tudo, desde que suscite novas sensações. A tradição bíblica, no entanto, enfrenta um caminho diferente: ela busca o sentido da vida mediante a atitude de abertura e de diálogo com Quem ouve, fala e age gratuitamente na existência de todos.

Trata-se de uma realidade importante e fundamental também para os não-israelitas:

“seja qual for a oração ou a súplica de qualquer um... escuta no céu onde moras, perdoa e age; dá a cada um segundo seu proceder, pois conheces seu coração: és o único que conhece o coração de todos...” (1Rs 8,38-39). Esta dimensão “silenciosa” de um Deus que escuta a oração e a invocação de todos – diferente da outra em que Deus se cala diante das injustiças (Hab 1,13) e não responde mais às súplicas (Jó 30,20; Sl 83,2; 109,1) – é fonte de vida e de salvação.

Javé permanece em silêncio para “ouvir”, ouve para “agir” e age para “perdoar e salvar”! A estupenda ação de graças do Sl 116, é, nesse sentido, uma das mais profundas expressões dessa tradição espiritual. O salmista, a partir de sua experiência pessoal, deixa transbordar uma intensa série de sentimentos, envolvendo a comunidade inteira, para realizar uma ação de graças no templo de Jerusalém. O que salta aos olhos é como a figura de Javé é percebida na realidade da vida.

Em primeiro lugar, ele é “objeto” do amor e da ação de graças, porque “ouve” sempre com atenção e solicitude (v. 2) a invocação de quem está na desgraça (v. 4) ou agradece “ritualmente” (vv. 13.17). Em segundo lugar, Javé “liberta” (v. 4) das situações mais difíceis e perigosas: laços da morte, angústia e aflição (v. 3); Ele é “justo, clemente e compassivo” (v. 5) porque protege os simples que podem ser vítimas dos espertalhões e salva os fracos e indefesos (vv. 5-6).

É a bondade de Deus que liberta das situações mais dramáticas (“a vida da morte; o olho do pranto; o pé do tropeço” – v. 8), restabelecendo a calma e a alegria de “caminhar diante de Javé na terra dos vivos” (v. 9). De fato, é preciso amar e louvar a Javé na vida concreta! (“Não são os mortos que louvam a Javé, nem os que descem ao lugar do silêncio, mas somos nós, os vivos, que bendizemos a Javé, desde agora e para sempre, Aleluia!” – Sl 115,18).

É preciso manter a confiança em Javé mesmo em situações de turbulência, de angústia e de extremas dificuldades, pois – por outro lado – o ser humano, como tal, não é digno de confiança: “todo homem é mentiroso” (v. 10). Finalmente, o sentimento de gratidão (vv. 12-19) pela “salvação” alcançada se expressa no âmbito comunitário: “erguerei o cálice da salvação (lit: das salvações = indica as várias intervenções divinas ao longo da história) e invocarei o nome de Javé” (vv. 13.17).

Ao voltar do exílio, o povo reencontra o Templo reconstruído (v. 19) porque Javé “rompeu os grilhões”, ouviu a voz dos seus “servos” (v. 16), devolvendo-lhes vida e liberdade.

Autor: Sérgio Bradanini
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