Ser missionário
 
Um grande concerto
 
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O AT não apresenta claramente uma dimensão “missionária” propriamente dita. Nele, tudo parece estar concentrado na noção de eleição, como se o povo de Deus quisesse ficar separado dos outros povos para não se contaminar. Do outro lado, desde as tradições mais antigas (cf Gen 12,1-4), nunca perdeu o sentido de uma missão universal. Existe uma profunda tensão entre o povo de Deus e as outras nações.

Israel e as nações vivem momentos de aproximação e momentos de distanciamento, ou até de ‘separação’, mas estão inseridos no mesmo horizonte de reciprocidade: Israel não existe sem as nações. A missão de Israel consiste em fazer com que os povos se encontrem com Javé, o único e verdadeiro Deus, e a cumpre na qualidade de testemunha de sua soberania universal. Com efeito, a testemunha deve fornecer “razões” para que os povos se voltem para Javé, a fim de que seja reconhecido e proclamado como fonte de vida para todos.

Esta tendência, voltada para um horizonte mais amplo e universal, pode ser notada, de modo especial, na oração dos Salmos. Entre tantos exemplos, pode-se levar em consideração o Sl 67. Ele é muito significativo porque tem uma clara dependência com a fórmula litúrgica da bênção sacerdotal (Nm 6,24-26), atingindo assim o centro da oração bíblica. Pois bem, com muita simplicidade o salmista toma, como ponto de partida, os produtos de uma colheita abundante, considerada como fruto de uma generosa bênção divina, para expressar o desejo de que a benevolência de Deus seja reconhecida e proclamada pelo mundo inteiro.

O conteúdo da bênção – a fertilidade da terra, a equidade do governo de Deus, e a salvação das nações – deve chamar a atenção de todos os povos para se associarem a Israel no mesmo louvor. É interessante notar que os frutos da terra não são objeto, nem de petição e nem de agradecimento; são considerados simplesmente como sinal e garantia da benevolência e da solicitude divina. De fato, o conteúdo da bênção não se reduz à pura fruição, não se identifica com determinados objetos, não pertence à ordem do ter e do possuir, mas pertence à ordem do ser.

Isso quer dizer que não depende da ação humana, mas decorre de uma iniciativa divina. Se o salmista considera os frutos da terra um dom de Deus, é porque quer fixar seu olhar no Doador. Claramente Deus é a fonte de todos os bens, inclusive de uma abundante colheita. Por isso, a alegria de viver sob o olhar de Deus, ou diante de sua face luminosa (v. 2), é um elemento central e indiscutível no contexto da oração dos salmos.

Basta lembrar a expressão semelhante do Sl 4,7b-8: “Javé! levanta sobre nós a luz de tua face; Tu puseste em meu coração mais alegria do que quando seu trigo e seu vinho transbordam”. Sem dúvida, o salmista concentra sua atenção mais na pessoa de Deus do que em seus dons. A bênção divina não se fecha sobre a satisfação imediata da necessidade humana, mas se abre ao relacionamento com Deus: observando o seu modo de agir na história (para que se conheça o teu caminho sobre a terra e em todas as nações a tua salvação: v. 3), e do seu modo de governar (julgas o mundo com justiça e os povos com retidão: v. 5), todos têm acesso a Ele.

O reconhecimento desse fato é a fonte de alegria para todos os povos, que podem finalmente unir sua voz à voz de Israel (Sl 117), formando um grande concerto de louvor. Terra, mundo, povos, nações e todos os confins da Terra mostram um horizonte amplo e universal, em que domina uma profunda alegria humana sob o olhar benevolente e solícito de Deus. O salmista dilata de tal forma o seu olhar, que passa do temporal ao eterno, dos frutos da terra à sua fonte inesgotável: Deus oferece a todos a bênção de uma salvação que ultrapassa os confins do mundo.

Autor: Sérgio Bradanini
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