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Fazer a verdade
 
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No encontro com Nicodemos, após ter afirmado abertamente que "Deus não enviou o seu Filho para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele" (Jo 3,17), o evangelista João evidencia vigorosamente a necessidade de que o mundo se posicione livremente diante da oferta divina da salvação. De fato, logo em seguida, ele apresenta o critério fundamental e a escolha humana com possível êxito negativo e positivo. "Quem nele crê não é julgado; quem não crê já está julgado porque não creu no Nome do Filho único de Deus. Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz porque suas obras eram más. Pois quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus" (Jo 3,18-21).

O que imediatamente salta aos olhos é o fato de que a "missão do Filho", fruto da gratuidade de Deus, provoca e exige necessariamente uma tomada de posição. O dom da salvação pode ser acolhido, mas pode ser também rejeitado. Além da gratuidade divina, está em jogo a liberdade humana. Ora, o critério decisivo, segundo o evangelista, consiste em determinar concretamente qual dos dois caminhos percorrer: o caminho da salvação e da vida ou aquele da condenação e da morte; o da luz e da verdade ou então aquele das trevas e da mentira.

João insiste em mostrar que esse critério, além de ser inevitável, não pode ser adiado para o futuro: é preciso decidir agora, neste exato momento, porque é agora que está em jogo a vida humana e o seu significado. Nessa perspectiva, não é suficiente afirmar que a fé é um dom de Deus, porque o evangelista mostra claramente que, nesse caso, é a liberdade humana que está sendo solicitada a decidir se acreditar ou não. Fé e incredulidade são expressão e fruto concreto de decisões humanas. É interessante notar que não se trata de assumir ou de rejeitar formulações ou doutrinas, mas de assumir ou de rejeitar uma relação livre e profunda com a pessoa de Jesus Filho de Deus.

Com efeito, Deus não oferece doutrinas ou um catálogo de 'verdades' pré-constituídas para salvar o mundo, mas envia o seu próprio Filho, de modo que, a partir da relação estabelecida com ele, os seres humanos possam decidir pessoalmente qual caminho enfrentar. É necessário lembrar, porém, que o fato de "crer" ou de "não crer" é uma decisão humana que não pode ser superficial, como se fosse suficiente uma simples declaração para aceitar ou rejeitar uma oferta qualquer. A questão é muito mais profunda e radical, pois envolve o ser humano em sua totalidade, de modo que fica excluída toda possibilidade de indiferença e de neutralidade.

Uma nítida indicação da seriedade dessa questão aparece na expressão: "os homens amaram mais as trevas do que a luz porque suas obras eram más" (v.19). "Amar mais" indica uma preferência, uma escolha consciente, mesmo porque ela vem acompanhada de uma motivação responsável (obras más). Também "fazer o mal" não é um acidente de percurso que pode acontecer a qualquer um, fruto de alguma fragilidade, mas chega a ser uma opção que se exprime em "não crer" em Jesus e em tudo aquilo que ele representa e realiza no projeto de Deus. Por esse motivo João usa a expressão bíblica "fazer a verdade" para indicar o comportamento de quem se compromete com a vida e a missão de Jesus até as últimas conseqüências.

O ser humano se define a partir do seu jeito de agir como condição indispensável para acolher a salvação oferecida gratuitamente pelo amor divino. "Se caminhar de acordo com os meus estatutos (...) para fazer a verdade: este homem será justo e certamente viverá - oráculo do Senhor Javé" (Ez 18,9).

Autor: Sérgio Bradanini
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