Ser missionário
 
A Verdade é fonte de liberdade
 
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Então, Jesus disse aos judeus que acreditaram nele: 'Se permanecerdes na minha palavra sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres'" (Jo 8,31-32). Jesus apresenta logo aos judeus que acreditaram nele as condições necessárias para serem efetivamente seus discípulos, mas seus adversários ficam perplexos e irritados porque não conseguem abandonar suas próprias convicções e o orgulho de pertencer à descendência de Abraão, como se isso fosse suficiente para ter a salvação garantida! Eles têm a pretensão de que a descendência de Abraão e o apego às próprias tradições religiosas os coloquem naturalmente ao lado da verdade e ao lado do projeto de Deus. Por isso, reagem, reivindicando uma liberdade "de fato", colocando em questão a afirmação de Jesus: "Como podes dizer: 'tornar-vos-eis livres?'" (8,33).

No entanto, o problema crucial é a verdade proposta por Jesus como fundamento da liberdade dos discípulos. Com efeito, o evangelista deixa perceber imediatamente que a verdade está profundamente ligada à palavra e à pessoa de Jesus. O primeiro elemento da condição para ser um discípulo autêntico consiste exatamente na adesão à mensagem de Jesus (permanecer na minha palavra). O segundo elemento ultrapassa o primeiro, exigindo uma adesão ainda mais profunda, pois é preciso aderir à pessoa de Jesus (conhecer a verdade). Ora, a verdade coincide com a Palavra de Deus que se revela e se realiza em Jesus, a ponto de Ele mesmo se autoproclamar, no contexto dos discursos de despedida: "Eu sou a Verdade" (14,6). Estes dois elementos juntos, adesão à Palavra e adesão à pessoa, constituem a revelação e, ao mesmo tempo, a realização do projeto de Deus para a salvação da humanidade. É essa realidade que para o evangelista é fonte e fundamento da liberdade dos discípulos.

Mas de que liberdade se trata? Evidentemente, a condição proposta por Jesus não elimina absolutamente a capacidade de escolha deles, aliás, muito pelo contrário, ela a exige! Com efeito, desde o começo, o evangelista deixa bem claro que os discípulos devem comprometer-se e assim mostrar seu esforço para "permanecerem na Palavra" do Mestre. Portanto, a relação com a verdade, palavra e pessoa de Jesus, implica escuta, acolhida e adesão radical da parte dos discípulos, os quais devem traduzir tudo isso em comportamento concreto: devem "praticar a verdade" (3,21). A identidade mais profunda dos discípulos se manifesta a partir da iniciativa divina de Jesus, e não do desejo de autonomia e de auto-suficiência humana. Jesus quer que seus companheiros sejam realmente pessoas livres como ele: livres dos próprios projetos ou tendências de auto-suficiência, para poderem configurar a própria existência dentro de um horizonte de comunhão plena.

Como sempre, para o evangelista, a figura de Jesus constitui o ponto fundamental de referência. Assim como Ele manifesta sua plena liberdade atuando sempre em comunhão com o Pai, permanecendo unido a Ele, o mesmo deve acontecer com seus discípulos. A partir dessa comunhão vital, a verdade é realmente fonte e fundamento da liberdade. Em outros termos, assim como a liberdade faz parte da condição do Filho, do mesmo modo deve fazer parte daquela dos "filhos". Seria muito interessante entender a missão dos discípulos em termos de exercício daquela liberdade que, fruto da comunhão de vida com sua fonte suprema, Deus e Jesus, é capaz de abrir novos horizontes para toda a humanidade. Por que, a partir da verdade fonte da nossa liberdade, ainda não conseguimos realizar a missão indicada pelo profeta Isaías de "pôr em liberdade os oprimidos e quebrar todo jugo" (Is 58,6)?

Autor: Sérgio Bradanini
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