Ser missionário
 
O engajamento de Deus na história
 
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Na segunda parte do livro de Isaías (Is 40-55) atribuída a um profeta anônimo que atua durante o período do exílio, o que chama 1030 a atenção é o fato de que, ao longo da narração, surgem vozes que falam e convidam o povo a reagir, a proclamar e a pôr-se em marcha. São vozes que marcam algum momento importante ao longo do caminho, apresentado como um 'novo êxodo', e, ao mesmo tempo, alcançam uma dimensão mais ampla. Uma dessas vozes levanta-se, surpreen-dentemente, num pequeno hino de júbilo.

Esse canto de alegria está inserido numa série de imperativos que querem incutir no povo de Deus um novo alento, para que possa enfrentar uma nova etapa de sua história. Em poucas palavras, a genialidade poética desse profeta anônimo encerra uma enorme riqueza de conteúdo. "Como são belos os montes os pés daquele que anuncia: que faz ouvir a paz, que anuncia o bem (mensagem de bem, boas notícias), que faz ouvir a salvação, e que diz o Sião: 'O teu Deus reina' (...) e todas as extreminades da terra verão a salvação do nosso Deus" (ls 52,7-10).

Antes de tudo, aparece a missão profética ritmicamente expressa através de uma sucessão de termos significativos (anunciar, fazer ouvir/proclamar, dizer) para indicar sua ligação profunda com a Palavra. Toda missão, portanto, tem que se identificar como um serviço à Palavra, e a vida do mensageiro tem que ser moldada por aquela mensagem que ele mesmo anuncia. O nosso texto, porém, sem diminuir em nada a importância da figura do 'mensageiro/portador de boas notícias', parece acentuar mais o conteúdo da Mensagem. Também sentido os termos escolhidos pelo profeta são muito expressivos, porque ele quer mostrar o 'engajamento de Deus' na história do seu povo. Por isso, a paz que indica a plenitude da vida, o bem que aponta o sentido de coisas e perspectivas boas, a salvação que indica a superação de todo perigo, ameaça e negatividade da vida, são termos queencontram seu pleno sentido na proclamação da soberania de Deus: "O teu Deus reina!"

Esta soberania deve ser reconhecida com alegria, pois não é outra coIsa senão a manifestação da justiça e da intervenção de Deus que liberta e salva o seu povo da dramática experiência do exílio. É interessante notar que tudo isso acontece a partir da absoluta gratuidade de Deus: não há nenhuma exigência nem a mínima alusão ao arrependimento ou à conversão para poder alcançar a salvação.

O 'engajamento' de Deus beneficia em primeiro lugar a experiência de "Sião/Israel" mas se dilata para manifestar-se a todas as outras nações: "Todas as extremidades da terra verão a salvação do nosso Deus" (v. 10; cf. S1 98, 3). A 'salvação' não se identifica com uma visão de um futuro longínquo ou com sonhos utópicos, mas é uma realidade presente que acontece e é reconhecível dentro do dinamismo da história. Ela visa constituir um equilíbrio harmonioso em que todos os elementos possam formar uma "nova ordem do mundo" alicerçada sobre ajusta e gratuita soberania de Deus.

É a história integral de Israel e das nações que é objeto da solicitude divina! O ser humano contemporâneo parece ter perdido esta dimensão 'global' da própria existência e corre o sério risco de precipitar-se cada vez mais no abismo de múltiplas fragmentações. O fato de correr atrás de muitas coisas secundárias leva, inevitavelmente, a perder de vista o essencial, de modo que a existência humana corre o risco de cair na mais profunda insignificância. A voz de Isaias lança um desafio para não deixar que a vida seja reduzida à superficialidade das aparências, mas que reconheça no dinamismo dos eventos a solicitude de um Deus que ainda hoje oferece paz e salvação a todos os povos.

Autor: Sergio Bradanini
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