Ser missionário
 
O apelo à conversão
 
Leia os outros artigos
 

Paulo termina o seu discurso aos atenienses, introduzindo o núcleo do anúncio cristão. É significativo que ele retome o tema da "ignorância" que lhe serviu como pretexto para apresentar a questão da verdadeira imagem de Deus (17,23). Os atenienses, apesar de todo conhecimento e desejo de "saber" (17,19-20), não conseguiram alcançar um encontro autêntico com Deus, portanto, corriam o risco de confundi-lo com a natureza ou de identificá-lo com "obras de arte e com o pensamento humano" (17,29).

Diante dessa situação, Paulo mostrou a necessidade de mudar de perspectiva: ao invés de considerar o divino como imagem humana, é preciso reconhecer que o ser humano é efetivamente a verdadeira imagem divina. Por isso, ele concentra toda a sua atenção nos elementos essenciais do anúncio cristão, retoma o tema inicial, mas amplia e dilata o seu significado. Nesse sentido, é claro que o termo "ignorância" continua denunciando a multiplicidade dos ídolos e dos cultos pagãos, assim como era radicalmente condenada pela tradição bíblica (Sb13,1-10). No entanto, a expressão "tempos da ignorância" (17,30) tem sentido amplo: indica o período do passado em que não havia um "conhecimento de Deus autêntico".

Paulo quer que seus ouvintes concentrem sua atenção sobre o momento presente. Por este motivo ele afirma que "Deus, não levando em conta os tempos da ignorância, agora convida os homens: todos e em toda parte se convertam" (17,30). Simplesmente tudo isso mostra que, diante do anúncio cristão, é preciso decidir. Aquele Deus, apresentado logo antes como Criador do universo e Senhor da história que se deixa encontrar por quem o busca com coração sincero, é o mesmo Deus que toma a iniciativa no momento atual, oferecendo a todos a possibilidade de uma mudança radical (metanóia = conversão).

A conversão é um convite que vem diretamente de Deus: tem que sair de um passado marcado pela ignorância idólatra, para entrar agora, na salvação do Deus vivo. É interessante notar que o momento atual coincide com o "dia" em que Deus "julga a terra com justiça" (17,31). Esta expressão não deve ser interpretada em sentido jurídico, pois Deus julga com justiça, quando oferece a todos o dom da salvação, como fruto de sua profunda generosidade (vida, respiração e tudo mais: 17,25b).

Em todo caso, Paulo deixa bem claro que a história atual está sob o julgamento divino: nela está em jogo o sentido e o destino de toda a humanidade. Este momento decisivo, acontece "no homem" designado, aprovado e ressuscitado pelo próprio Deus (17,31). Lucas não menciona o nome, porque os atenienses já o conheciam, pois o motivo que causou o discurso de Paulo foi exatamente "porque ele anunciava Jesus e a ressurreição" (17,18). A mensagem é clara: é na humanidade, assumida com todas as fragilidades e limitações da história, pelo "homem" mortal (a morte de Jesus) que Deus, Criador e Senhor, oferece o dom de uma vida significativa e plena, através da ressurreição dos mortos.

Este anúncio constitui o escândalo para os filósofos de Atenas e para todos os intelectuais que compartilham dos mesmos pensamentos e idéias. Eles não conseguem entender a mensagem cristã, concentrada na morte-ressurreição de um homem (Jesus), pelo simples fato de que já possuem na idéia de imortalidade, a segurança de sua vida e a garantia do próprio destino. A situação, ao longo da história, não mudou muito. Infelizmente ainda hoje existe muita gente que desiste de suas responsabilidades históricas: rejeita o anúncio do Evangelho e a oferta concreta de salvação, preferindo refugiar-se na segurança ilusória de um punhado de idéias..

Autor: Sergio Bradanini
www.pime.org.br



 
 
xm732