Ser missionário
 
Como o mestre, assim os discípulos
 
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Em Mt 10,24-25 encontra-se a parte central de todo o discurso missionário que, de certa forma, constitui uma preciosa chave de interpretação. De fato, até aqui, o evangelista apresentou dois elementos essenciais:

1. os Doze são um modelo típico da missão, não porque foram bem sucedidos, mas porque experimentaram, até as últimas conseqüências, sua identidade de discípulos de Jesus. Portanto, segundo Mateus, esse modelo deve servir de referência para todos os pregadores do Evangelho;

2. o evangelista frisa o aspecto comunitário da missão. Com efeito, a proclamação do Evangelho não é reservada a "apóstolos profissionais", mas todos os discípulos recebem o "dom da missão" para serem testemunhas de Jesus, apesar das hostilidades que encontram na sociedade ou dentro das próprias relações familiares.

No texto em questão, encontramos a definição das relações entre o Mestre e seus discípulos, em três aspectos:

1) a vida e o destino do Mestre estão sempre acima do discípulo;
2) discípulo/servo só pode ser comparado ao Mestre/Senhor ("ser como");
3) o discípulo deve saber que sua identidade está sempre ameaçada por
insinuações diabólicas ("Se chamaram de Belzebu o dono da casa,
quanto mais os que são da casa dele!" (v.25)).

Em primeiro lugar, temos um relacionamento diferenciado (Mestre = superior > discípulo = inferior) que aponta os limites da missão do discípulo. É verdade que ele deve dar continuidade à missão do Mestre e, por isso, deve estar pronto para enfrentar as mesmas dificuldades e o mesmo destino, mas é verdade também que ele nunca pode chegar ao ponto de substituir a missão do Mestre! Em outros termos, para Mateus, discípulo e comunidade cristã só podem ser "servos" do Evangelho (= Jesus), nunca proprietários!
Basta lembrar que o mesmo evangelista deixou bem claro quem é o "Senhor da colheita"! (Mt 9,37-38; 10,10).

O segundo aspecto lembra que a missão do discípulo é sempre um "dom recebido" e como tal deve ser exercido. A conseqüência disso também fica muito clara: o discípulo deve viver numa constante tensão de "ser como o Mestre", moldando sua própria vida e missão a partir do Mestre. Nesse elemento central, está em jogo a identidade do discípulo-Igreja, que pode ser reconhecida em sua autenticidade, única e exclusivamente, mediante a fidelidade ao seu Senhor.

Em terceiro lugar, o último aspecto mostra que a possibilidade de um destino dramático torna-se um sinal de autenticidade da missão do discípulo. Basta lembrar o que foi apresentado logo acima (Mt 10,21-22): a adesão a Jesus e à mensagem do Reino pode suscitar uma rejeição tão fanática e cega, a ponto de fazer explodir até as relações mais íntimas dentro da própria casa.

Em resumo, segundo a ótica de Mateus, o discípulo-Igreja, em sua adesão ao Mestre e ao Evangelho, deve sempre estar ciente dos limites da própria missão: nunca pode tomar posse do Evangelho como se fosse propriedade particular. Embora como Ele deva enfrentar perseguições, dificuldades e até calúnias e insinuações diabólicas mais incríveis, o discípulo-Igreja só pode ser e agir "como o Mestre". O destino também não pode ser diferente: o discípulo deve estar disposto, por causa de sua fidelidade à Mensagem, a enfrentar a possibilidade de um desfecho cruel e sem glórias! De fato, Mateus mostra, com toda clareza, que o caminho doloroso da Cruz continua presente na missão dos discípulos como garantia de sua autenticidade. De outro lado, a perseverança nas adversidades torna-se uma ocasião privilegiada em que o discípulo pode manifestar sua fidelidade, moldando sua própria vida a partir da missão de Jesus.

Autor: Sergio Bradanini
www.pime.org.br



 
 
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