Páscoa
 
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Na liturgia pascal, quando da bênção do novo fogo, extraído da pedra, implora-se para que a Luz do Cristo, que ressurge glorioso, dissipe as trevas de nosso coração.

Vivemos dias difíceis no mundo de hoje. Raro é o dia em que, ao ligarmos a televisão, dela não escorre o sangue da violência. Podemos contar os dias em que, ao abrimos os jornais pela manhã, nossas mãos não se ensangüentam com o sacrifício de tantas vidas de irmãos que sucumbiram vítimas do ódio, da cobiça e da luxúria da sociedade. E tantos jovens que se consomem no uso das drogas!

Jesus nos ensinou que o Reino de Deus está em nosso coração (cf. Lc. 17,20) ou, em outra tradução, já está entre nós. Tanto no primeiro sentido, quanto no segundo, a presença de Cristo que morreu e ressuscitou é a Luz que dissipa as trevas que o pecado gerou em cada um de nós e no nosso meio.

Caminhamos, durante a Quaresma, meditando, como  Igreja no Brasil, que a nossa segurança somente pode estar em Deus, que somente a volta para deixar-nos guiar pelo amor pode nos dar a almejada paz.

O Cristo Ressuscitado aparecendo aos seus discípulos saudou-os desejando-lhes a paz: “A paz esteja convosco” (cf. Jo. 20,19) e lhe apresentou suas chagas gloriosas para alegria deles.

Três dias antes, a Maldade chegara ao extremo, quando condenaram-no à morte. Segundo a exposição do Divino Mestre aos discípulos que caminhavam tristes e desanimados para a aldeia de Emaús, ao cair da tarde daquele primeiro dia da semana, isto era necessário para que Cristo entrasse na sua glória.(cf. Lc.24,26)

O rastro do pecado e suas conseqüências que continuam no coração de todos aqueles que não se abrem ao amor de Deus somente será vencido quando nos deixarmos impregnar deste mesmo amor e, pela nossa vida, expandi-lo para todo o mundo. A sociedade somente caminhará para a paz se o foco de suas aspirações for o mandamento do amor.

Aqueles dois discípulos, continua a narração de Lucas, conheceram o Senhor quando Ele partiu o pão e logo confessaram que, já no caminho, sentiam inflamar-se o seu coração.

A Luz de Cristo é nos dada pela fé. O Cristo que se humilhara, assumindo a forma de servo, em cuja natureza humana sofreu a morte, pagou na sua carne o preço de nosso pecado, por isso ele foi glorificado (cf. Fil. 2,5-11) e, com ele, todos aqueles que o acolheram (cf. Jo.1, 12) e, mortos para o pecado, foram vivificados pela graça(cf. Rom.6,5).

São Paulo, nos ensina em continuidade do texto que nossa vida passada foi pregada na cruz, para que não sejamos mais escravos do pecado e na luta de cada dia nos conformemos com a morte de Cristo e comecemos a viver a vida de ressuscitados. Essa conformidade é a renuncia às paixões e vícios, à depravação que nos consome quando nos entregamos aos pecados capitais. É a vida nova marcada pela mesma caridade de Cristo, que, no pão partido, se dá a todos.

Esta é a Luz que deve iluminar nosso coração dele afastando toda a treva. Esta é a Luz que temos de irradiar para o mundo, como discípulos e enviados. Missionários da Verdade e da Vida. Arautos do amor.

O Reino de Deus está em nosso coração. E se está em nosso coração ele deverá estar também em nosso meio. A chama que tomamos do Círio Pascal, na força do Cristo Ressuscitado, se extinguirá de nosso coração se não for repartida, se não se tornar missão.

Cristo é a Luz. Por sua Palavra fomos criados sem nossa participação. Mas, tendo nos dado a liberdade, Ele não nos salvará sem a nossa colaboração.

Sejamos, pois, o novo pão, o novo fermento. Fecundemos o mundo para que se transforme no Reino de Deus, o Reino de Justiça, Amor e Paz.

A Luz do Cristo que ressurge glorioso dissipe as trevas do Mal em nosso coração e em nosso meio.

+ Dom Eurico dos Santos Veloso
Arcebispo Emérito de Juiz de Fora(MG)



 
 
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