Páscoa
 
Jesus ressuscitou! Está vivo e presente no meio de nós!
 
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O brasileiro, em geral, mesmo não identificado com a Igreja Católica ou com o cristianismo, move-se num clima cultural permeado por referências cristãs em que a Quaresma é conhecida como tempo de preparação para a Páscoa, com práticas penitenciais, sobretudo a oração mais intensa, o jejum e a caridade. Conheci uma pessoa, sem vínculo algum de pertença a igrejas cristãs, que entendia ter feito algo muito grave por ter comido carne numa Sexta-feira Santa. Como teria formado esta convicção?

A celebração primeira e fundamental dos cristãos é a Páscoa. Tudo o mais que se celebra nas comunidades cristãs é posterior, como Sábado Santo, sexta e quinta feiras santas, Domingo de Ramos e também a Quaresma. Entendemos melhor tudo isto se lembrarmos que os discípulos e discípulas de Jesus perceberam, no primeiro dia da semana, que Ele estava vivo e encheram-se de uma extraordinária alegria por entenderem que não havia terminado tudo, nem estava tudo perdido após sua trágica morte na sexta feira. Assim, o primeiro dia da semana se tornou o Dia do Senhor, em latim “dies dominica”, de Dominus, Senhor. De então em diante, o primeiro dia da semana é do Senhor e falar de Senhor é falar do Cristo Ressuscitado, aquele que manifestou seu senhorio e divindade vencendo a morte e estabelecendo um horizonte de vida plena para os homens e para o mundo.

O dia do Senhor passou a ter importância cada vez maior na vida pessoal e comunitária dos cristãos, uma vez que nele se celebrava o mistério pascal, a morte e ressurreição de Jesus, pela escuta da Palavra e pela “fração do Pão”, a Eucaristia. Todo domingo era celebrada outra vez a Páscoa da Ressurreição como experiência pessoal e comunitária do evento que dava aos discípulos e discípulas o sentido de pertença a Jesus Cristo, de ser de Cristo, de ser cristãos.

Com o tempo, bem cedo, a comunidade cristã sentiu a necessidade de ter também uma celebração anual que marcasse o tempo histórico-eclesial da vida cristã. Inspirados no costume judaico, os cristãos iniciaram a celebração de um domingo especial, um grande domingo anual de Páscoa, mesmo continuando celebrá-la a cada domingo. Começaram pela celebração de uma vigília noturna com dois momentos: leitura e longa escuta da Palavra de Deus e a Ceia Eucarística como celebração da Páscoa por excelência. Entre os séculos segundo e terceiro, surgiu outro momento: a celebração do batismo dos catecúmenos adultos, devidamente preparados durante um ano ou mais. Somente mais tarde as comunidades foram acrescentando, um cada vez, os dias do tríduo pascal e mais tarde ainda a Quaresma, lembrando os quarenta anos de caminhada do povo de Deus rumo à Terra Prometida e os quarenta dias que Jesus passou no deserto, preparando-se para a sua missão. Especialmente essas duas memórias, no contexto da celebração batismal, introduzem as práticas penitenciais da Quaresma como expressões do processo de conversão dos cristãos, especificamente dos batizandos. Mais que um valor em si mesmo das várias penitências, elas mostravam a necessária disposição de cada um em se converter e acolher a misericórdia e o perdão gratuitos de Deus, doados na morte e ressurreição de Jesus Cristo. Depois que o batismo entrou na celebração da Vigília Pascal, a Quaresma tornou-se um momento especial e conclusivo da preparação dos catecúmenos.

Duas lembranças importantes: as expressões de penitencialismo exteriorista, produto de prática cultural que não procede de séria disposição para mudar de vida e da maturidade humana e espiritual, são inócuas. A Quaresma é caminho. Bom, importante, mas caminho, para se chegar à Páscoa da Ressurreição de Jesus Cristo e à participação na sua vida, como condição fundante para ser discípulo do Senhor.



 
 
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