Nossa Senhora Aparecida
 
A mensagem da “Aparecida”
 
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Entre tantas que o Espírito de Deus nos revela, qual a mais escondida? Escondida aos olhos humanos mas bem evidenciada aos olhos da fé é a mensagem da glorificação da humildade. Só os verdadeiros discípulos de Jesus Cristo acreditam que os “humildes serão exaltados” (Lc 11,11). O Apóstolo Paulo recomenda que tenhamos o mesmo sentimento de Cristo: “Ele era da condição divina, mas não se apegou à sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, tornando-se semelhante aos homens, na condição de servo... por isso Deus o exaltou grandemente (Cf. Fil. 2,6-11). Quando o Anjo do Senhor veio anunciar a Maria de Nazaré sua eleição de Mãe de Jesus, aquele que “será chamado Filho do Altíssimo”, ela se pronunciou de modo surpreendente: “Eis a serva do Senhor” (Lc 1,38). É a resposta que resume sua missão de mãe do Filho de Deus e da Igreja do seu Filho”.

Servir é a razão de ser de quem se torna mãe. Mãe da Igreja é missão recebida ao pé da Cruz. Essa presença materna não deixou de exercê-la na vida dos discípulos do seu Filho ao longo da história. Em toda parte, suas aparições, reconhecidas oficialmente, manifestaram-se mediante imagens luminosas a extasiar os olhos dos videntes. Lembremos as que mais alimentam a piedade popular por todo o mundo. Assim foi em Guadalupe, quando apareceu, em 1531, ao índio João Diogo, na colina de Tepyac, descrita como “uma imagem que proveio de flores colhidas num terreno totalmente estéril”. Assim foi em Lurdes, vista por uma menina de 14 anos, Bernadete Soubirous, ingênua e humilde, que não sabia ler e escrever direito. Era a imagem de “uma Senhora com as faces radiantes, vestida de branco com uma faixa azul, toda sorridente”. Assim foi em Fátima, em lugar espaçoso e descampado, denominado Cova da Iria. Do céu ela apareceu vestida de luz a três pastorinhos, Lúcia, de 10 anos, Francisco, de 9, e Jacinta, de 7.

Assim não foi em Aparecida, em outubro de 1717, o admirável acontecimento nas águas do Rio Paraíba, próximo ao Porto de Itaguaçu. Admirável acontecimento porque nele se manifestou a presença sobrenatural que se apresentou como algo “maravilhoso”, mas não de causar espanto, da forma como ocorreram as aparições acima recordadas. A narrativa do fato descrito no Livro de Tombo da paróquia de Guaratinguetá em 1757 pelo vigário Padre João de Morais e Aguiar simplesmente registra que foi “achada” a imagem por três humildes pescadores, Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso: João Alves, lançando a rede de arrasto, tirou o corpo da Senhora sem cabeça; e lançando mais abaixo outra vez a rede, tirou a cabeça da mesma Senhora, não se sabendo nunca quem ali a lançasse”.

Era uma Imagem pequenina, 39 cm de altura e de material frágil, argila. Assim Nossa Senhora apareceu em terras brasileiras. Não veio do alto, vestida de luz, mas trazida do fundo do rio e de cor morena escura. Muita gente parece não conformar-se com seu tamanho tão pequeno. Reproduzem-se em dimensões maiores nos inúmeros altares das igrejas onde é venerada. Confesso não me sentir bem a não ser diante de uma imagem que se identifique com a original entronizada na Basílica de Aparecida que tanto me encanta e enleva. Lá tudo é grande, só ela é pequenina, tal como ela mesma se coloca diante do Senhor que nela “fez maravilhas e olhou para a pequenez de sua serva.” Penso que o lugar onde ela se sentiu bem foi na pobreza da casa daqueles pescadores que mereceram a graça de achá-la no fundo das águas do rio, durante os 15 primeiros anos. Lá no aconchego de um lar humilde, sobre um altar de paus, ela começou a ser chamada de “Nossa Senhora Aparecida” e “todos os sábados se ajuntava a vizinhança a cantar o terço e mais devoções.”

As multidões peregrinam a Aparecida, sentem-se atraídas pela lição da pequenez – sua maior mensagem – que a faz tão parecida com a gente brasileira. No Brasil tudo é grande mas o povo ainda permanece diminuído no reconhecimento da sua dignidade, no valor do seu trabalho e na sua cidadania. Ao ser agraciada com a missão de Mãe do Salvador, Maria pôde sentir toda a sua pequenez e, ao mesmo tempo, testemunhar a grandeza do Todo-poderoso e sua força libertadora sobre os fundamentos da história.

O “Magnificat” que cantou pode trazer algum sabor de “manifesto social” ao profetizar que o Senhor, “agindo com a força de seu braço, dispersa os soberbos de coração, derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; os famintos enche de bens e despede os ricos de mãos vazias” (Lc 1,51-53). De fato, esse hino é muito mais. É a glorificação “daquela que acreditou” permitindo a Deus realizar grandes coisas por meio dela. Uma dessas grandes coisas é Aparecida que traz em sua mensagem o elogio da pequenez.



 
 
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