Finados
 
Um abraço cheio de ternura
 
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“Um dia, o Anjo da Morte bateu à casa de um homem.

– Pode entrar e sentar, disse o homem, estava te esperando.

– Não vim para conversar, disse o Anjo, vim para levar a tua vida!

– E o que mais poderia levar?

– Não sei, mas todos, quando eu chego, querem que eu pegue qualquer coisa, mas não a vida deles. Se tu soubesses quantas coisas me oferecem!

– Eu não. Não tenho mais nada para te dar. As alegrias, que me foram doadas, vivi-as com intensidade. As preocupações, que me atormentaram, entreguei-as ao vento. Os problemas, as dúvidas, as inquietações, queimei-as para aquecer-me ao fogo da esperança. Renunciei aos bens terrenos. Dei o meu sorriso de presente a todos os que mo pediam. Entreguei o meu coração aos que amei e que me amaram. A minha alma, confiei-a a Deus. Pode pegar, então, a minha vida, porque não tenho nada mais para oferecer-te.

– O Anjo da Morte carregou o homem nos braços, e sentiu que era leve como uma pluma. E o homem achou o aperto do Anjo um abraço cheio de ternura. O Senhor do Céu e da Terra abriu a porta do Paraíso, porque estava para entrar um santo.”

Essa simples história pode nos ajudar a refletir. Apesar dos nossos discursos, todos nós temos medo de morrer. É natural. Acabamos gostando desta vida e demoramos para entender que estamos aqui somente de passagem. Querendo ou não. O mais difícil é viver bem e ao mesmo tempo preparar-nos para o dia de nossa morte, o dia da despedida deste mundo.

Para muitos, viver bem é somente passar bem na vida. Acontece quando nos colocamos acima de tudo e de todos. O que vale, mesmo, somos nós. Pouco ou nada valem a vida e a felicidade dos outros. Talvez isto seja decisivo para quem não acredita em mais nada além deste mundo. Contudo não sei se sermos egoístas seja  o melhor jeito de passar os nossos dias. Por que não apostar mais no amor, fazendo da nossa vida um dom? Amar, fazer o bem e tornar outros felizes seria, já, uma grande maneira de gastar bem a vida. Sem pensar em prêmios ou recompensas, sermos bons, sermos acolhidos como bons, já não deveria ser suficiente para nos sentirmos ricos de algo que vai além do dinheiro e das coisas materiais?

Gastamos muito tempo dos nossos dias para planejar coisas inúteis, deixando tanto tempo vazio. Sem sorrisos, sem palavras de esperança, preocupados em disputar espaços, poder, prestígio. Talvez  falamos mal da vida e dos outros, sempre insatisfeitos. Deveríamos juntar forças para vencer os inimigos da indiferença e da insensibilidade.

Quantas pessoas estão tristes, simplesmente por não ter outra motivação na vida que não seja o seu próprio interesse, o seu próprio sucesso, a sua própria tranqüilidade. Praticamente nunca se incomodam com os outros. Quando morrerem também, poucos vão se preocupar com elas! Estamos correndo o perigo de ficarmos  fechados em nós mesmos, ou em pequenos grupos de amigos privilegiados, que pensam exatamente como nós, sem nunca nos questionar.

 Esta é vida ou é alienação? Até Deus, o Deus da Ressurreição e da Vida, só entra ali, se ajudar nos negócios. Coitado! Paz, solidariedade, justiça, verdade, vida digna para todos, são considerados ideais inúteis, que não dão lucro. Só dor de cabeça. Ou um sentido na vida, se assim entendermos e acreditarmos.

Visitando os cemitérios, nestes dias, lembramos os nossos amigos e parentes falecidos, rezamos por eles. Vamos aproveitar para refletir sobre o tempo que passa, sobre a nossa vida que fica cada vez mais curta. Por que não gastar melhor as nossas capacidades, as nossas energias, a nossa inteligência, os nossos bens?

Talvez não precisemos ser tão santos, tão leves para ser transportados, um dia, nos braços do Anjo da Morte até o Paraíso. Contudo seremos menos pesados, menos carregados de egoísmo e ninharias. É melhor e possível. Leves, porque livres para fazer o bem, livres para amar. Acreditamos; assim seria mais fácil viver e morrer. Seríamos mais felizes, aqui e no céu.

Dom Anuar Battisti



 
 
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