Corpus Christi
 
Eucaristia: memorial do Senhor
 
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As primeiras gerações cristãs celebravam a Eucaristia, denominada “fração do pão”, no dia do Senhor, o domingo, como memorial da ressurreição de Jesus Cristo. Quando foi organizado o Tríduo Pascal, começou-se fazer uma memória especial da instituição da Eucaristia na noite da quinta feira, junto com o lava-pés. A compreensão da presença sacramental do Senhor sob os sinais do pão e do vinho permanece na Igreja até o século IX.

Em novo contexto teológico, já distanciado das origens cristãs, muda também o enfoque sobre a Eucaristia. Ela perde seu caráter popular e comunitário. Perde-se a prática da comunhão sob duas espécies. Algumas explicações acentuam só o símbolo, outras só a realidade da Eucaristia, quando a tradição unira sempre os dois aspectos sob a compreensão sacramental. No século XI, Berengário, padre da Diocese de Tours, na França, querendo contribuir para melhor compreensão da questão, ensina equivocadamente que o pão e o vinho consagrados são somente sinais da união espiritual com o corpo do Senhor que está nos céus. Surgem reações opostas insistindo na presença real e, de tal forma, que se cria um clima de ardor piedoso, até o século 13, com muitas notícias de milagres eucarísticos, com hóstias e corporais manchados de sangue, excitando a mente dos fiéis e produzindo devoções ambíguas.

Os exageros são tais que as autoridades da Igreja passam a exigir condições para se receber a comunhão. Os teólogos escolásticos, especialmente Santo Tomás de Aquino, elaboraram a teologia que temos ainda hoje centrada na presença real. Para fortalecer as práticas eucarísticas, o Concílio de Latrão 4º, em 1215, decide que a comunhão deva ser recebida pelo menos uma vez por ano, na Páscoa. Em 1264, o Papa Urbano 4º instituiu a festa de Corpus Christi para promover a veneração pública da Eucaristia, com a procissão que se costuma fazer até hoje.

Na Reforma Protestante, Lutero manteve-se basicamente dentro da teologia católica sobre a Eucaristia, e os demais líderes da Reforma retomaram posições enfatizando o simbolismo e a ceia. O Concílio de Trento reorganizou a doutrina católica no seu todo e deu sempre ênfase às posições opostas às dos reformadores protestantes. Em Trento, a Eucaristia foi definida pela presença real de Jesus e pelo seu valor como sacrifício. Estas posições chegaram ao Brasil com a primeira evangelização no período colonial e se mantiveram até o Concílio Vaticano II, formando a imensa devoção do nosso povo católico pela Eucaristia.

Para muitos ela é, antes de tudo, um espetáculo e, mesmo sem o dizer, entendem-na como um aparecimento de Deus no mundo, como um espetáculo em que o próprio Deus se faz de certo modo visível. Nossa tradição eucarística está muito ligada ao período colonial em que a festa de Corpus Christi era chamada de “Triunfo Eucarístico”. Nas solenes procissões, o Santíssimo Sacramento era carregado pelo padre como num cortejo, sobre tapetes artisticamente preparados nas ruas e com as janelas das casas ricamente enfeitadas. Essa tradição não se perdeu, dura até hoje em proporções diferentes conforme as regiões. Perdura na importância que se dá à elevação da hóstia consagrada, nas diversas homenagens que os fiéis costumam prestar nas igrejas, especialmente nas capelas do Santíssimo, com prostrações, reverências, beijos e toques com a mão na porta do sacrário. São expressões que sugerem um contato físico com o sagrado. Essas manifestações tinham perdido um pouco de intensidade nos anos do pós-concílio, mas foram resgatadas e mesmo ultrapassadas por grupos de perfil carismático.

Talvez nos falte uma catequese lúcida e para o nosso tempo sobre a Eucaristia, que nos ajude resgatar como ela é compreendida no Novo Testamento: memorial da nova aliança realizada na paixão de Jesus e na sua ressurreição, em forma de comida e bebida, memória do único sacrifício de Jesus em forma de sacramento. O 39º Congresso Eucarístico Internacional, realizado no ano passado em Québec (Canadá), teve como tema central “A Eucaristia, dom de Deus para a vida do mundo”. Pode vir daí o desafio para recuperarmos as origens cristãs, distinguindo as devoções das expressões de fé.

Frei Odair Verussa é frade capuchinho, professor da Escola de Teologia para Leigos da Diocese de Piracicaba



 
 
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