Com a palavra...
 
Ação de graças
Por: Dom Fernando Mason
Bispo Diocesano de Piracicaba
 
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Havia na tradição litúrgica católica um grande momento de ação de graças: era a Santa Missa na noite do dia 31 de dezembro, com o solene canto do "Te Deum". A autoridade civil, imitando os vizinhos do norte, achou por bem estabelecer outro dia de celebração, a saber, o Dia Nacional de Ação de Graças, que este ano ocorre no dia 22 de novembro.

Ter gratidão é um dos mais nobres sentimentos do ser humano. Não é tão fácil ser grato. Em nós, corre mais espontânea a queixa, a lamúria, a carência; tanto que se tivéssemos de listar nossas carências, sairia uma lista longa, sem fim, enquanto que, se tivéssemos de listar as coisas das quais somos gratos, mal escreveríamos umas poucas linhas.

Como então fazer para descobrirmos gratidão em nós? Diz um antigo mestre do Espírito, frei Egídio de Assis, companheiro de São Francisco: Peça com insistência a Deus que "lhe dê a conhecer sua miséria e seus pecados e os benefícios de Deus". Essa fala nos é bem estranha. Será que não é uma fala pessimista, frustrante, negativa?

Há um modo muito ressentido em se sentir pecador e miserável. Mas há também um outro modo, o de uma imensa admiração e reverência que nos faz declarar de todo o coração, livre e sinceramente, que somos pequenos, mas que estamos de corpo e alma atentos aos dons de Deus, dispostos a oferecer tudo que a pequenez pode para amar, admirar, imitar.

Como entender isso? Colocando-se só, diante de si e diante de Deus, sem máscaras, sem muletas, sem as ilusões que temos sobre nós mesmos e também sobre Deus. Como você se vê? Esta pergunta não é fictícia, pois, querendo ou não, haveremos de nos colocar, um dia, diante desta pergunta. Se bem colocada, ela é angustiante. É uma pergunta que raras vezes fazemos, pois, no nosso engajamento pelo cotidiano, aos poucos, nos tornamos surdos e insensíveis à profundidade de nosso existir. Somente desta pergunta é que surge verdadeira gratidão a Deus.

Em Lc 5,1-11 há um episódio: o da pesca milagrosa. Ao ver o milagre, "Simão caiu aos pés de Jesus, dizendo: 'Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!'. Encheram-se de espanto ele e todos os que estavam com ele". O tom faz a música dessa afirmação: "sou um homem pecador". Não é lamúria, nem humilhação. É antes, grande reverência, sincera e profunda, diante da grandeza do Senhor e que o reduz à sua verdadeira posição, humilde e clarividente consigo mesmo. É o profundo sentimento da pequenez diante dessa grandeza magnífica e libertadora.

Esta grandeza, diante da qual nos sentimos pequenos, em vez de humilhar, nos purifica e nos conduz à verdadeira gratidão. Sentimo-nos mais puros, livres, com grande desejo de querer servir, de ser bom, de ter coração grato. Somos levados de volta ao nosso verdadeiro lugar, onde sentimos que algo de real engatou no nosso coração, que algo vai crescer naturalmente, sem "forçar"; sentimo-nos livres do nosso eu queixoso e gratos à grandeza do Deus que nos ama e nos afeiçoa.



 
 
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