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Domingo de Ramos - Jesus, Rei e Servo
Por: Dom Eduardo Koaik
Bispo Emérito de Piracicaba
 
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A liturgia do Domingo de Ramos prende-se sobre dois eixos centrais: Jesus Rei e Jesus Servo Sofredor. Duas atitudes de uma mesma pessoa, aparentemente inconciliáveis.

De fato inconciliáveis segundo categorias puramente humanas. Entretanto, à luz da fé cristã, implicam-se mutuamente. Ao caminharem juntas, fazem emergir a grandeza do Servo Sofredor e o pleno significado do reinado de Jesus: Rei manso e humilde.

A celebração desse dia se inicia com a procissão dos ramos com todos a proclamar: "Bendito o que vem em nome do Senhor" (Mt 21,9). Lembra e revive a explosão popular da época na triunfal entrada de Jesus em Jerusalém.

Ele mesmo, por diversas vezes, havia anunciado aos discípulos: "O Filho do homem irá sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos doutores da lei, deverá ser morto e ressuscitar ao terceiro dia" (Mt 16,21). Mas as multidões, extasiadas com sua pregação e seus gestos de amor para com os pobres e pecadores, viam nele o libertador político tão esperado.

Na oportunidade da multiplicação dos pães já o quiseram aclamar rei: "Mas Jesus percebeu que iam pegá-lo para fazê-lo rei. Então ele se retirou sozinho, de novo, para a montanha" (Jo 6,15).

No Pretório, frente a Pilatos, não negará ser rei mas deixará claro: "O meu reino não é deste mundo" (Jo 18,36). Estas palavras de Jesus são mal-entendidas quando usadas para negar à Igreja o direito de envolver-se com problemas terrenos.

Antes, elas sublinham a bela lição que deixou aos seus discípulos referente ao exercício abusivo do poder pêlos governantes das nações: "Com vocês não deve acontecer disputa de poder para dominar; mas o poder é para servir" (Mc 10,22-45).

Rei humilde, uma figura quase estranha no imaginário humano. Ao rei atribui-se poder, honra, glória, pompa e magnificência. Seu status é o ápice da pirâmide social. Jesus Cristo, como Filho de Deus, é o sentido de toda a criação: "Tudo foi feito por Ele, e de tudo que existe, nada foi feito sem Ele" (Jo l, 3); no plano da salvação, "por meio dele, Deus reconciliou consigo toda a criação, estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz" (Col l, 20).

O apóstolo Paulo assim o apresenta na carta aos Filipenses (2, 6-8): "Jesus Cristo existindo como Deus não se apegou à sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo.

Apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo." E acrescenta logo em seguida: "Foi por isso que Deus o exaltou e o fez Senhor." Na sua entrada em Jerusalém, atraído por sua bondade com os pobres e sua misericórdia com os pecadores, o povo e principalmente "os jovens hebreus" também o exaltaram.

A contrastar com esse clima de espontâneo entusiasmo, ele vem montado num "jumentinho, cria de um animal de carga" (Mt 21,6). Não se conhece outro rei na história que tenha caminhado em meio ao clamor público de "hosanas" de modo tão humilde.

Curiosos agitavam-se a perguntar: "Quem é ele?" As multidões respondiam: "É o profeta Jesus de Nazaré da Galiléia" (Mt 21,10-11). Rei-servo, eis o segredo do encantamento popular. Rei que não domina, servo sempre movido pelo amor.

Rei que sempre escondeu sua glória e privilegiou os gestos de humildade e serviço: "Estou no meio de vocês como aquele que serve" (Lc 22,27). Não só se solidarizou com os humildes deste mundo, mas se identificou com eles.

A ninguém submeteu pelo poder, mas quis a todos conquistar pelo coração que foi transpassado pela lança. Sim, conquistou a todos porque se fez servo de todos.

Semana Santa, tempo propício para atendermos o convite de Paulo: "Tenham em vocês os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo" (Fl 2,5).

O discípulo é chamado a ser rei como o foi o Mestre; nada de atitudes triunfa-listas que o distanciem dos outros, especialmente dos mais humildes.

A palma com a qual saudamos o nosso Rei na sua entrada triunfal em Jerusalém montado no jumentinho, ao levá-la para nossas casas há que recordar permanentemente o desafio que nos lançou: de nos acercarmos aos outros, não pêlos caminhos do poder, mas do serviço fraterno.



 
 
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