Com a palavra...
 
Presença da Igreja no mundo
Por: Dom Eduardo Koaik
Bispo Emérito de Piracicaba
 
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Por sua razão de ser, a Igreja objetiva a construção do Reino de Deus mediante o anúncio da Boa-nova de Jesus Cristo. Este anúncio não parte de pessoas isoladas e livres-atiradores. Esta presença tem sentido de missão confiada aos que formam a comunidade dos batizados em nome de Deus-Trindade: "Ide e fazei com que todos os povos se tornem meus discípulos... Eu estarei convosco todos os dias até o fim do mundo" (Mt.28,19-20).

Não se pode desejar melhor segurança e maior certeza para o cumprimento da missão do que esse "estarei convosco". A Igreja é sinal visível e eficaz para o crescimento do Reino que se estende por todos os corações que acolhem a semente da Palavra de Deus e, compreendendo-a, produzem frutos (Mt 13,23).

Como Jesus foi enviado ao mundo pelo Pai, a Igreja é enviada pelo Filho. Ela está no mundo, mas não se confunde com ele. Nem por isso há de afastar-se, mas há de guardar-se de ser influenciada pelo "espírito do mundo", na forma que o define o apóstolo João, como sendo "os desejos desenfreados, os olhos insaciáveis, a arrogância do dinheiro" (1Jo 2,16).

A presença de Jesus "no meio de nós" não se limitou ao interior do templo. Estava, permanentemente, no meio do povo a curar os enfermos, expulsar os demônios e anunciar a "boa-nova" do Reino que se compendia no ensinamento do Sermão da Montanha. A Igreja, igualmente, não pode "fechar-se na sacristia", há de estar presente no mundo testemunhando sua fé pela maneira de viver segundo o Evangelho.

O evangelista João fala-nos também de outro sentido do mundo, criação de Deus, do qual a Igreja faz parte como dele fez parte o Filho de Deus ao assumir nossa condição humana para salva-lo: "Deus amou de tal forma o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna" (Jo 3,16). Coerente com este gesto, no Concílio do Vaticano 2°, a Igreja propõe-se assumir, como sendo também dela, "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem".

Ao longo de 20 séculos, a história da Igreja mostrou-se ao mundo cheia de luzes e de sombras. Iniciou sua missão debaixo de perseguições: foi a Igreja das catacumbas. No século 4, o imperador Constantino fez do cristianismo a religião do Estado. Por toda a Idade Média, o poder espiritual estava vinculado ao poder temporal: foi a era da Cristandade.

A partir da Renascença, século 16, a Cristandade começou a romper-se: foi o marco da separação entre a Igreja e Estado. Surgiram então duas visões equivocadas. Parte da Igreja passou a entender que ser cristão era sair do mundo e parte do Estado laico a empreender campanha de fazer desaparecer qualquer vestígio religioso dos órgãos públicos.

Com o descobrimento do Brasil, a Igreja que para cá emigrou, a existente em Portugal, era unida ao poder temporal. Luiz de Camões, em "Os Lusíadas", poema imortal de nossa língua, vivendo nesse contexto, pôde cantar "aqueles reis que a fé e o império andaram dilatando". No Brasil-colônia e no Brasil-império, a Igreja crescia sob o amparo do rei e, a partir da proclamação da República, libertava-se dessa subordinação. Somos hoje uma nação com predomínio do pluralismo religioso e cultural.

Nessa nova realidade, a Igreja prossegue em sua missão, marcando uma presença pública, aberta ao diálogo com todos, despida de qualquer espírito de dominação e com vivência cada vez mais evangélica.

Sua ação pastoral, com rejeição a qualquer prática proselitista e sectária, não se propõe conquistar, autoritariamente ou com métodos falazes, mas pelo testemunho de vida de seus fiéis.

Orienta-os para estarem inseridos nas realidades temporais (esse mundo que Deus tanto ama) com o poder do "fermento" que transforma a massa, a qualidade do "sal" que comunica o sabor do Evangelho e a claridade da "luz" a iluminar o caminho do homem para Deus. São imagens criadas por Jesus Cristo para mostrar a seus discípulos o sentido da missão.

Com sua presença no mundo, a Igreja defende os valores éticos e morais decorrentes da lei natural e do Evangelho e, ao mesmo tempo, empenha-se por vê-los implantados na ordem econômica e social, na vida política e respeitados pela pesquisa científica. Ela reconhece estar essa missão acima das forças humanas enquanto visa à conversão da mente, do coração e da conduta que não se alcança a não ser mediante abertura para a ação de Deus.

Considerada pelas pesquisas instituição de grande credibilidade, a Igreja sustenta junto ao povo uma imagem positiva. Desempenha uma ação incentivadora junto aos movimentos populares, sindicatos, associações não governamentais que lutam por causas justas. Sua missão cabe a todos os batizados, hierarquia e laicato: anunciar os valores do Reino e denunciar os contravalores como a injustiça, a corrupção, a violência e outros.

Há os que não se sentem confortáveis com a atuação da Igreja na defesa dos valores morais e sociais intrínsecos à dignidade da vida humana e segundo as exigências do Evangelho. Por que lhe negar esse direito de fazer-se ouvir, reclamado também por qualquer outra entidade que pensa o contrário?

O argumento que se alega que o Estado é laico costuma ser usado de modo falacioso para negar o direito da Igreja de sustentar sua posição. Estado laico não significa Estado anti-reli-gioso, mas apenas que não tem uma religião oficial.

O Brasil é uma nação cristã, não por imposição da Igreja mas em razão de sua história e tradição. Nação sem história é nação sem raízes e sem identidade.

A Constituição, nossa lei magna, espelha fielmente esta nossa realidade. Promulgada "sob a proteção de Deus", reconhece a liberdade religiosa, garante imunidade aos templos e aos imóveis ao seu serviço, propõe o ensino religioso nas escolas públicas, isenta os eclesiásticos do serviço militar obrigatório...

Os representantes da minoria lutaram bravamente na Constituinte para que o Brasil não fosse reconhecido como nação cristã e tiveram que aceitar que a verdade não estava com eles.

O Estado laico foi também aprovado pela maioria e sua função é fazer respeitar a Constituição elaborada, sem desrespeitar a história e a tradição do povo brasileiro. Em qualquer nação onde determinada religião conta com expressiva maioria — como a religião católica no Brasil — a presença dessa maioria tem maior influência na vida do povo e no desempenho das instituições públicas.

Dou exemplo dos Estados Unidos que me dispensa dar outros. O presidente da República, no dia da posse, pronuncia o juramento de fidelidade ao cargo estendendo a mão direita sobre a Bíblia. A moeda do país, o dólar, em todos os seus valores, traz a inscrição: "Em Deus nós confiamos".

Nem por isso o ateu se sente incomodado por tê-la consigo. Temos, por outro lado, o mau exemplo da China cujas manifestações públicas representam o Estado ateu e não a nação de arraigada tradição confucionista e taoísta, duas religiões milenares. O mesmo aconteceu na União Soviética que durante 70 anos, com a tirania do Estado, tentou inutilmente sufocar a alma religiosa do povo.

A presença da Igreja na sociedade brasileira objetiva contribuir, ao lado de outras entidades civis e religiosas, para mudar suas estruturas, com o objetivo de torná-las "de menos humanas para mais humanas", conforme a expressão do papa Paulo 6° na encíclica sob o título O Desenvolvimento dos Povos. Todos aspiramos por uma sociedade de cidadãos livres, iguais e participantes.

Como afirma o Concílio Vaticano 2°, no decreto Apostolicam actuositatem, "a missão da Igreja não consiste só em levar aos homens a mensagem de Cristo e sua graça, senão também em penetrar do espírito evangélico as realidades temporais e aperfeiçoá-las."



 
 
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