Com a palavra...
 
O olhar do Pai sobre o mundo
 
 
Leia os outros artigos
 
Para enviar esse texto automaticamente no FACEBOOK, clique no botão abaixo:
Você tem muitos amigos e envia e-mails para todos? Então você pode enviar esse artigo para todos seus amigos de uma única vez, basta copiar a url abaixo e colar em seu e-mail.
Para enviar manualmente, copie CTRL C o código acima e cole CTRL V no mural ou mensagens de e-mails dos seus amigos:
Leia os outros artigos
 

Preocupado em ajustar a barra de ferro em seu devido lugar, o operário pouco reparou no grupo de pessoas que, da calçada, observava seus gestos. A presença de curiosos era, aliás, uma constante, desde que iniciara seu trabalho naquele viaduto da Avenida Paralela. O que fazia poderia parecer insignificante para muitos; amanhã ninguém mais se lembraria do que ele estava conseguindo realizar naquela hora. E, mesmo agora, não estariam a observá-lo, se não estivessem esperando o próximo ônibus. Ele executava a parte que lhe coubera naquele dia, sem ter a mínima pretensão de entrar para a História. Mas não conseguia esconder a alegria por fazer tudo bem feito. Estava tão concentrado em seu trabalho que nem pensava mais no pedido da mulher, ao sair de casa, pela manhã: "Não se esqueça do remédio para a gripe do Luizinho!" O próprio Luizinho tinha ficado um pouco esquecido. Se não executasse bem aquele serviço, tudo teria de ser refeito. A reclamação do responsável seria inevitável – mas não era isso que o que mais o preocupava. Queria, sim, fazer tudo da melhor forma possível. Jamais se esqueceria das lições de seu pai. Como é mesmo que ele lhe dizia, quando ainda trabalhavam juntos? "O mais importante não é o que a gente faz, mas a alegria de fazer tudo bem feito!" Estava convicto de que nunca se esqueceria daquela lição paterna...

Passou um táxi. O motorista olhou para a construção do viaduto com a mesma indiferença com que olhara antes a batida de dois ônibus, a criança que atravessara a rua correndo e os edifícios da avenida. Depois de catorze horas dentro do carro, não havia mesmo disposição para ver muita coisa. Tudo era igual. Quantas pessoas já levara naquele dia?... O que já tinha andado não estava escrito em lugar nenhum. Que passageiro curioso, o último que conduzira! Fazia uma pergunta atrás da outra. E quando ele ia responder, já ouvia uma nova pergunta. Parecia meio nervoso. Parecia, não: estava mesmo. Quem ainda não tinha levado, desde a madrugada, quando começara o seu dia? Só faltava mesmo o Papa... Mas o quê! Nunca iria levar o Papa... Nossa, como é que estava pensando numa coisa dessas? O melhor mesmo era não pensar. Ainda mais que estava cansado. Devia, sim, ir para casa dormir. Na madrugada seguinte, teria de começar tudo de novo. Começava a chover. Assim, fez de conta que não notou o homem de pasta preta que lhe fazia sinal para que parasse. Ele que pegasse outro táxi. Com o cansaço que começava a dominá-lo, seria arriscado continuar levando as pessoas de um lado para outro...

Ufa! Finalmente! Mais um pouco e o jeito seria voltar para o escritório. O Banco estaria fechado e seria inútil ir até lá. A complicação que iria dar, então, não era bom nem pensar. Bem que estava na hora de aprender a controlar melhor suas compras; não necessitaria, então, ficar negociando o pagamento de seus débitos. Precisava pensar, também, no relatório que deveria entregar a seu chefe no dia seguinte. Estava atrasado e teria de terminá-lo à noite, em casa. Que a mulher o compreendesse. Também ele não gostava de fazer trabalhos em casa. Mas, o que fazer? Se fizesse só o que gostaria, não estaria ali, naquela hora, metido no meio daqueles carros que não andavam...

Uma jovem vendia flores perto da sinaleira. Até que ela não podia reclamar daquele dia. Mas se conseguisse vender um pouco mais do que vendera no dia anterior, poderia comprar a sandália que vira na vitrine de uma loja dias antes. Com o trânsito ruim e os carros parados, melhor para ela, que tinha condições de oferecer para mais gente as rosas que trazia. O sinal abriu e os carros partiram. Tinha que sair logo do meio deles, antes que um carro a pegasse...

O operário ajustou, finalmente, a barra de ferro. O motorista, ao chegar a casa, comeu alguma coisa, deitou-se e adormeceu. O advogado chegou a tempo ao Banco. A jovem conseguiu vender até mais flores do que imaginara.

O Pai do céu acompanhou os passos e os pensamentos de cada um de seus filhos e filhas. E os abençoou.

Dom Murilo S.R. Krieger
Arcebispo de São Salvador da Bahia (BA) e Primaz do Brasil

 
 
xm732