Com a palavra...
 
Uma promissora Quaresma
Por: Dom Eduardo Koaik
Bispo Emérito de Piracicaba
 
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A Quaresma é tempo propício para o incentivo à solidariedade como imprescindível meio para a superação de todas as formas de violência na convivência humana com o propósito de promover a paz.

Este ano, a Campanha da Fraternidade, de cunho ecumênico, está sendo coordenada pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic). Propõe testemunhar o que Jesus Cristo proclama no Sermão da Montanha: "Felizes os promotores da paz", aquela verdadeira paz que nasce da solidariedade, do fazer-se irmão do outro em suas necessidades.

Cristãos, homem e mulher, são pessoas dispostas a assumir o Evangelho do Reino pregado por Jesus Cristo a quem tomam como referência absoluta de suas vidas. Para eles, não há outra boa-nova que possa ser colocada ao lado ou acima da que foi por Ele anunciada. A fé cristã não é mero sentimento; é uma prática de vida que comporta a descoberta e o encontro do Deus vivo.

Só o descobre quem o vê em Jesus Cristo. O encontro com Ele faz exigência de conversão. A conversão não se restringe a uma etapa da vida; é um processo de progressivo amadurecimento. Na medida em que a conversão se radicaliza, cresce a fé. Esta afirmação pode-se deduzir das primeiras palavras de Jesus Cristo ao inaugurar seu ministério público: "Convertam-se e acreditem no Evangelho (Mc 1,15)."

Segui-lo implica, antes de tudo, profunda mudança na orientação da vida; implica, ainda, deixar as seguranças em que nos apoiamos e que podem impedir nosso compromisso com Ele de aceitar seu projeto de vida nova.

O maior acontecimento da história da salvação é a Páscoa, a passagem, através da morte, à vida nova: "morrer com Cristo para ressuscitar com. Ele". É quando o ano litúrgico alcança seu ponto mais alto. Aí está a importância da Quaresma: preparar-nos para celebrar o inefável acontecimento da nossa fé, tempo favorável a este nosso amadurecimento.

Necessário começar por ouvir a voz dos profetas: "Rasgai os vossos corações e não as vestes (Joel, 12,13)" ou segundo a expressão de Ezequiel: "No lugar do coração de pedra colocarei um coração de ] carne (Ez 11, 19)". Eles não se cansam de lembrar que a religião querida por Deus é a do coração. As exigências da fé empenham todas as energias e a pessoa toda - pensamento, sentimento, conduta - na aceitação da vontade divina. Não é empenho de um só dia, mas de cada dia por toda a vida e através de uma conversão sempre mais lúcida.

Por inspiração bíblica, os acontecimentos mais significativos da fé, celebrados na Liturgia, são precedidos por determinado tempo de preparação, simbolicamente restrito a 40 dias. Antes de receber a revelação dos dez mandamentos, Moisés permanece 40 dias no monte Sinai. Antes do encontro com Deus no monte Horeb, Elias caminha 40 dias no deserto. Para senti-lo vivo em nós, toda experiência de Deus necessita de certo tempo de adaptação interior ao dom da graça. Antes de entrar na Terra Prometida, o povo de Israel viveu por 40 anos no deserto, em preparação para o encontro com. o Deus vivo.

Esse tempo de permanência no deserto, onde a insegurança é a provação de cada dia, é também um exercício para o aprendizado da fé. É o tempo em que Deus prova fazendo o homem provar-se a si mesmo conhecer-se e medir sua fragilidade. Sem dúvida, foi um tempo difícil para o povo de Israel, mas tempo em que Javé veio ao encontro do seu povo para ser encontrado por Ele.

Antes de inaugurar seu ministério público, Jesus de Nazaré optou por fazer a experiência do deserto ao longo de 40 dias. Foi um tempo de provações que serviu para ensinar-nos como vencer as tentações que atropelam a vida humana e como acolher, na obediência, os desígnios do Pai. Ele quis precisar desse tempo privilegiado de provação e preparação a fim de orientar sua vida tendo em vista o anúncio da boa-nova do Reino proclamado, sobretudo, no Sermão da Montanha com as bem-aventuranças e nos três anos de vida pública. Esse Reino é a verdadeira Terra da Promissão que se situa para além do horizonte terrestre.

Nossa esperança do futuro apóia-se em tudo que já foi realizado por Jesus de Nazaré. A tensão entre o que foi realizado e o que ainda está por ser realizado caracteriza o tempo da Igreja. Sua missão: tornar presente na história a obra da salvação a partir de revivê-la na Liturgia. Não é demais repetir que a maior festa do cristianismo é a Páscoa, ponto mais alto da liturgia. Durante 40 dias a Quaresma nos prepara para esta festa "ajudando-nos a percorrer com Jesus o caminho da cruz e, com Ele, passar, através da morte, à vida".

Quanto mais importante uma festa, mais exige tempo de preparação. Ao relembrar o tempo que Jesus passou no deserto, preparando-se para sua missão, a Igreja conduz os fiéis a dedicarem maior atenção à escuta de Deus e às práticas religiosas da oração, da esmola e do jejum em referência ao primeiro e segundo mandamentos da Lei, respectivamente, ao amor a Deus, ao próximo e a si mesmo que, na Palavra de Jesus, resumem toda a Lei e os Profetas.

As passagens do evangelho de João a serem lidas nos três últimos domingos da Quaresma - Cristo "água" para nossa sede, "luz" para nossas trevas e "ressurreição" para nossa vida - diferenciam o ciclo Ano A dos dois seguintes. Aplicadas ao batismo, estas mensagens preparam a Vigília Pascal. Viver o batismo é viver a Páscoa, viver a Páscoa é viver o batismo.

Nesse caminho de conversão em direção à Páscoa, muito há de ajudar-nos a Campanha da Fraternidade - 2005 ao comprometer-nos com a promoção da paz. Esta, por sua vez, não se alcança sem a vivência da solidariedade. O esforço de Igreja Cristãs ao se proporem a caminhar solidárias no empenho pela paz na sociedade carrega em si sólido conteúdo penitencial cujos frutos a misericórdia de Deus há de fazer colher também em favor da unidade entre elas, querida por Cristo.



 
 
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