Com a palavra...
 
Lições do presépio
Por: Dom Eduardo Koaik
Bispo Emérito de Piracicaba
 
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O Natal centraliza diante de nossos olhos uma família. O presépio, necessariamente, não é mais que três figuras: o carpinteiro José, Maria de Nazaré e o menino deitado na manjedoura. As demais figuras, todas elas, são dispensáveis. Resultam da imaginação criativa e amorosa de São Francisco de Assis. Há presépios por demais imaginativos, onde essas três principais figuras quase desaparecem. Mais favorece a distração do que a contemplação do mistério.

Embora pudesse ter escolhido outra maneira de vir ao mundo, o filho de Deus preferiu nascer no aconchego de uma família, "filho de uma mulher". Não teve casa, berço, enxoval de bebê... Só fez questão de uma família. Com divina simplicidade narra o Evangelho de Lucas que Maria "deu à luz o seu filho, envolveu-o com faixas e reclinou-o num cocho de animais porque não havia lugar para eles dentro do alojamento".

A família não é uma instituição criada pela autoridade dos homens. E sim pelo poder de Deus, por isso tem uma estrutura intocável. Criados à imagem e semelhança de Deus e, por isso, capazes de amar, homem e mulher são iguais em dignidade conforme reconheceu Adão ao ver Eva: "Ela é a carne de minha carne". Quando decidem viver um para o outro tornam-se "uma só carne", ou seja, uma união indissolúvel. Viver em comunhão, buscando uma unidade profunda que só o verdadeiro amor realiza há de ser o programa de vida de um casamento construído conforme o projeto de Deus.

O presépio tem o poder de enlevar e transportar para o mundo do maravilhoso e nos convencer de que Deus não nos ama só de palavras. "A palavra se fez carne e fez sua morada entre nós". Como diz um poeta: "O presépio não é para ser somente admirado mas, sobretudo, para ser rezado". Ao contemplá-lo com os olhos da fé, nascem em nós vários sentimentos.

Ali está José, da linhagem de Davi, carpinteiro de profissão. Deus quis nascer no lar de um trabalhador e conviver com a simplicidade e a pobreza. Foi-lhe destinada a missão de esposo da mãe do salvador e de pai segundo a lei, e não segundo a carne. Missão desempenhada no silêncio e no escondimento.

Ali está Maria de Nazaré, "meditando em seu coração os acontecimentos". Jovem judia de classe popular, viu-se, um dia, surpreendida pelo anjo "entrando onde ela estava" para saudá-la: "Alegra-te, cheia de graça" e seguidamente anunciar-lhe: "Eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho e tu o chamarás com o nome de Jesus". Ao ser tranqüilizada de sua perturbação com esse anúncio, pronta e generosamente respondeu ao anjo o que Deus lhe pedia: "Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra". Como serva do Senhor, dizendo sempre "sim" à vontade dele, cumpriu sua missão de mãe, desde quando reclinou seu filho na manjedoura, em Belém, até quando o acolheu em seus braços ao pé da cruz, no Calvário.

Ali está o menino-deus, filho eterno do pai e filho da historia dos homens, "nascido de uma mulher". Esperado pêlos profetas do povo eleito da antiga aliança é o Emanuel, o Deus-conosco da aliança nova. Na sua pregação, revelando-se aos homens, dirá de si mesmo: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". Na tradição da fé católica rezamos: "Creio em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem".

Em cada Natal, celebramos o nascimento do filho de Deus na história e em nossas vidas. Em cada Natal, participamos desse acontecimento salvífico anunciado pêlos anjos aos humildes pastores nos campos de Belém: "Hoje, nasceu-vos um Salvador". Este "hoje" nunca se faz passado. Depois desse "alegre anúncio", ninguém poderá mais sentir-se abandonado de Deus. Do Deus-conosco.

Na companhia dos pastores, revestidos de seus sentimentos e envolvidos pela mesma luz daquela "noite feliz", aproximemo-nos do presépio onde sempre encontraremos "Maria, José e o recém-nascido deitado na manjedoura". Festejemos o Natal unidos a essa família, trazendo-a para a intimidade dos nossos lares.



 
 
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