Com a palavra...
 
A propósito das eleições
Por: Dom Eduardo Koaik
Bispo Emérito de Piracicaba
 
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Quem não tem consciência política dificilmente vota certo. Facilmente deixa-se instrumentalizar na hora de praticar o ato mais significativo de sua cidadania e de maiores conseqüências para o futuro do seu país. Votar certo não é comprometer-se com o candidato a postular a representação do povo.

Antes, é estar seguro de que ele é comprometido com o verdadeiro objetivo da política: o bem comum acima de quaisquer outros interesses. Votar certo supõe uma educação para o exercício da cidadania. Creio ser exato afirmar: na democracia, o momento maior da vida do cidadão é o dia das eleições, quando escolhe seus governantes e seus representantes nos parlamentos.


Nesse dia, frente à urna eletrônica, todas as desigualdades cessam. Uma única permanece: a de quem tem ou não consciência política. Importante que fique claro: consciência política não é simples conhecimento da política; mas compromisso com seus valores éticos. Alienação política, uma das causas do atraso do Brasil, é, ao mesmo tempo, desconhecimento e descompromisso. Constrange-me definir - e não o farei - p que sejam os aproveitadores da política.

Infelizmente é verdade: o sistema eleitoral vigente, cheio de vícios, permite, por exemplo, sejam eleitos vereadores sem representatividade e inteiramente desconhecidos do povo. No atual sistema, ainda, o conceito de maioria para legitimar uma eleição pode ser contestado. Por não serem obrigados à fidelidade partidária, os eleitos assumem um mandato que não os vincula às propostas do partido e muito menos aos problemas concretos da população.

A eleição de prefeitos, pelo país afora, no segundo turno, promove um vale tudo dentro do mercado persa. Todos os partidos igualam-se nas barganhas sob o eufemismo chamado "acordos políticos", em que não valem os princípios definidos pêlos partidos; valem os cálculos de esperteza que levam a ganhar eleições visando ao poder pelo poder. Não há quem não dê razão ao Elio Gásperi: "Há mais nobreza em perder o primeiro turno de cabeça erguida do que em ganhar o segundo turno de nariz tapado". A reforma política no Brasil é sempre preterida, porque não é boa para os que conhecem os segredos de permanecer no poder de uma eleição para outra.

De eleição para eleição, em nível federal, estadual e municipal, o problema que vai se agigantando é a situação dos mais carentes, dos mais fracos, dos pobre: os únicos que não sabem como aplicar em seu favor a "lei de Gérson" de levar vantagem. Triste o panorama de negociações entre os partidos quando só enxergam perdas e ganhos de seus interesses menores. De pleno acordo com Jânio de Freitas: "A política admite concessões, mas não desobriga da dignidade". Nas avaliações dos partidos, o que menos costuma pesar é a responsabilidade social: como resolver o problema da desigualdade. Jamais se haverá de resolvê-lo através de projetos com propostas de esmolas. As esmolas merecem todo respeito. Mas a responsabilidade dos governos é implantar a justiça social.


Fala-se muito, em tempo de eleições, que a religião não deve envolver-se com política. É e não é verdade. Não é verdade quando se diz: a religião nada tem a ver com política, cada uma deve preservar sua independência. Eu diria: cada uma deve preservar sua autonomia com fins e meios próprios, sem deixar-se instrumentalizar.

Há regiões no mundo em que a religião instrumentaliza a política e em outras ocorre exatamente o oposto.A posição da Igreja Católica é no sentido de mostrar ao cristão que não pode fazer política prescindindo dos valores evangélicos. São esses valores que projetam uma luz nova sobre os valores éticos que o político deve respeitar.

A Revolução Francesa empunhava a bandeira de uma "fraternidade" que levava os adversários para a guilhotina; o comunismo proclamava uma "igualdade" impondo a ditadura do proletariado; o liberalismo defende uma "liberdade" que permite ao rico explorar o pobre. O cristão também luta por esses três valores da vida humana e os vê iluminados pelo amor de Deus por nós revelado em Jesus Cristo, o enviado do Pai, para anunciar a boa-nova aos pobres: a igualdade de todos como irmãos na dignidade e liberdade de filhos de Deus.

Em certas oportunidades, quando a Igreja fala de política e moral para orientar seus fiéis e querer influir na opinião pública, costumam lembrar que o Estado é laico. No
Brasil, o Estado é laico mas não é ateu. A Carta Magna, a Constituição Federativa do Brasil, no seu preambulo, coloca-se sob a proteção de Deus; em vários artigos, reconhece a existência das religiões e até mesmo lhes atribui certos privilégios.

Estado laico significa: não possuir uma religião oficial. Se o Estado é laico, observava Tancredo Neves, a nação, na sua quase totalidade e por razões históricas, professa o cristianismo. Quem não tem raízes, não tem história. São as raízes que fazem a identidade das nações e explicam os valores e as tradições do seu povo. A separação entre a Igreja e o Estado não significa separação entre Igreja e nação. Nas pesquisas publicadas na imprensa, a Igreja é vista como instituição de maior credibilidade no país; nem por isso se ocupa com disputas hegemónicas.

Em tempo de eleições, faz um trabalho de conscientização dos valores éticos da política, sem nenhum sentido proselitista. Não deve ser julgada pêlos erros do passado; só quem não tem passado não os tem. Mas deve ser elogiada por tê-los corrigido. Evita, de todas as maneiras, ser patrocinadora ou caudatária de partidos e candidatos.

Há fieis que não se conformam com a Igreja por não fazer política partidária. A experiência de muitas gerações ensinou-lhe o que outros ainda hão de aprender. Ela respeita a opção partidária das pessoas e incentiva a participação nas atividades políticas. De seus ministros eclesiásticos, no entanto, chega a exigir uma ginástica quase acrobática para evitar o envolvimento oficial deles próprios e de suas comunidades com os partidos.

O discernimento proposto por Jesus Cristo ainda temos dificuldades de entendê-lo e sobretudo praticá-lo: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Como bem soube observar o filósofo Jacques Maritain, "é preciso saber distinguir para unir". Não tem sentido separar "o que é de César" e "o que é de Deus" porque "o que é de César" também é de Deus.



 
 
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