Formação espiritual
 
Assunção de Maria
Uma perspectiva eclesiológica e escatológica
Autor: Prof. VICTOR HUGO NASCIMENTO
Filósofo e Teólogo.
Professor das Escolas de fé e catequese Luz e Vida e Mater Ecclesiae - RJ
Contato: victorbento.30@globomail.com
 
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Este dogma foi proclamado pelo papa Pio XII, que assim o definiu na Constituição Munificentissimus Deus: “a imaculada sempre Virgem Maria, Mãe de Deus, encerrado o curso de sua vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste”. Com esta afirmação de fé, o Santo Padre tinha em vista tão somente enfatizar a dignidade do corpo humano e de sua vocação transcendental numa época de desprezo do corpo: as guerras sucessivas, com seus flagelos físicos e morais, a libertinagem e a depravação exigiam que se realçasse a nobreza do corpo humano, cuja sorte final é apresentada na figura de Maria glorificada.
A Liturgia da Palavra revela o mistério celebrado nesta solenidade. A primeira leitura, retirada do livro do Apocalipse, apresenta a cena da batalha entre a mulher e o dragão. Especificamente sobre os versículos 1-2, a misteriosa figura da mulher tem sido interpretada desde o tempo dos Padres da Igreja como referida ao antigo povo de Israel, à Igreja de Jesus Cristo, ou à Santíssima Virgem. Qualquer destas interpretações tem apoio no texto, mas nenhuma delas é coincidente em todos os pormenores.

A Mulher representa o povo de Israel, visto que dele procede o Messias, e Isaías comparava-o à “mulher grávida, quando chega o parto e se retorce e grita nas suas dores” (Is 26,17). Também pode representar a Igreja, cujos filhos se debatem em luta contra o mal, por dar testemunho de Jesus (v. 17). Neste sentido escrevia São Gregório: “O sol representa a luz da verdade, e a lua a mutabilidade do temporal; a Igreja santa está como revestida de sol porque é protegida pelo esplendor da verdade sobrenatural, e tem a lua debaixo dos seus pés, porque está em cima dos bens temporais” (Moralia 34,12). E pode referir-se também à Virgem Maria, enquanto ela deu real e historicamente à luz o Messias, nosso Senhor Jesus Cristo (v. 5). Assim escreve São Bernardo: “No sol há cor e esplendor estáveis; na lua só resplendor completamente incerto e mutável, pois nunca permanece no mesmo estado. Com razão, pois, Maria é apresentada vestida de sol, já que ela penetrou o profundo abismo da sabedoria divina para além de quanto pudesse crer-se” (De B. Virgine, 2).

A figura da mulher reflete, portanto, traços próprios da Santíssima Virgem, da Igreja e do antigo Israel, pelo que podemos ver nela incluídas as três realidades. Fato é que, as três são ‘Arcas’: Israel trouxe ao mundo as Leis do Senhor Deus, sintetizadas nas tábuas entregues a Moisés; Maria carregou em seu ventre, na qualidade de Arca da Nova Aliança, Seu filho, Jesus Cristo, o qual se identifica como a nova e eterna Aliança. E a Igreja, que é portadora da Verdade e da fé, é detentora e difusora dos frutos do mistério Pascal de Cristo.

Portanto, como figura feminina, as três possíveis realidades da mulher do Apocalipse, identificam-se com a maternidade. Ao celebrar esta solenidade de Maria, afirmamos também sua maternidade divina, pois as razões do privilégio de sua Assunção encontram-se no fato que ela não esteve sujeita ao império do pecado para poder ser a santa Mãe de Deus (Jesus é Deus), não podia ficar sob o domínio da morte (que entrou no mundo através do pecado - Rm 5,12). Por isto não conheceu a deterioração da sepultura, mas foi glorificada não somente em sua alma, mas também em seu corpo; bem como que a carne da mãe e a carne do filho são uma só carne. Por isto a carne de Maria devia ter a mesma sorte que a carne de Cristo: ambas foram glorificadas no fim desta caminhada terrestre.

O Salmo responsorial faz eco à figura de Maria, colocando-a num trono, à semelhança de uma rainha com vestes esplendentes em ouro (note-se o paralelo com as vestes radiosas da mulher do Apocalipse), conotando glória e poder vindos não dela mesma, porém tributados pelo grande Rei, que no salmo é o próprio Deus. Aliás, Maria, como figura importante da história salvífica, é prenunciada nas Santas mulheres do Antigo Israel. Este salmo apresenta fortes ligações com a dignidade a qual Deus elevou a rainha Ester, como se lê “Três dias depois Ester se revestiu de seus trajes reais e se apresentou na câmara interior do palácio, diante do aposento real, onde estava o rei sentado sobre seu trono, diante da porta de entrada do edifício. Logo que o rei viu a rainha Ester no átrio, esta conquistou suas boas graças, de sorte que ele estendeu o cetro de ouro que tinha na mão. E Ester se aproximou para tocá-lo” (Est 5,1ss). Assim como acontecera com Ester, Maria achou graça diante de Deus (Lc 1,30), o Rei do universo, e foi colocada em lugar privilegiado em seu Reino, com a missão de mãe do Redentor. Daí depreende-se o lugar de destaque assumido pela Virgem Maria no Céu e na terra, como Ela mesma louva no Cântico do ‘Magnificat’: “Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos” (Lc 1,56s.52s).

Esse lugar privilegiado não foi reservado somente para Maria. A honra e glória estão também destinadas, como herança, a todos os crentes, ou seja, a nós, filhos de Deus, como está escrito: “E, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, contanto que soframos com ele, para que também com ele sejamos glorificados. (Rm 8,17). A Teologia paulina, como evidencia a segunda leitura, quer incutir no coração do ser humano, a riqueza da graça do Senhor, que se expressa já nesta vida e na vida do mundo que há de vir. Situamo-nos no coração da realidade escatológica: como herdeiros de Cristo, tudo o que lhe aconteceu, será assumido por nós, seus irmão, membros da Igreja. Ora, se Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram (1 Cor 15,20ss), nós também ressuscitaremos nos últimos tempos (parusia) e seremos glorificados em corpo e alma. Isto foi o que aconteceu com Maria, em sua Assunção, de forma antecipada. Devemos lembrar que a Virgem Maria é membro ativo e ícone da Igreja.  Ela é apresentada desde as origens como discípula do seu filho, unida aos outros discípulos no testemunho da glória que se manifestou em Cristo e pela fé nele (Jo 2,11s). Nos primórdios da Igreja nascente, Maria aparece como membro significativo da comunidade assídua e concorde na oração (At 1,14): a experiência de Pentecostes não lhe é certamente estranha, levando-se em conta especialmente as analogias dessa cena com a da anunciação (At 2,1-4; Lc 1, 35).

As razões pelas quais Maria é considerada membro eminente do corpo eclesial está na direção do mistério de Deus, que de sua parte elege a Maria e faz culminar a obra reconciliadora do Filho; e na direção da criatura, pois Maria é solidária, em Adão, com todos ser humano, e esta solidariedade é a “porta” através da qual o próprio Filho de Deus quis fazer-se solidário conosco, tomando dela a carne de nossa condição humana. Em virtude dessa solidariedade, ela é ordenada providencialmente, como todo ser humano, para o encontro com a vinda divina, que se realiza na encarnação do Verbo, do qual nasce em raiz a Igreja. Por isso Maria não pode, de forma alguma, ser separada do povo de Deus ou situada fora dele.

Em resumo, é o sim radical a Deus que torna a Virgem Maria, envolta no mistério preveniente da Graça, tipo, isto é, ícone e arquétipo da Igreja, realização antecipada daquilo que a Igreja (todos os batizados) é chamada a ser no mais profundo de sua verdade, diante do Senhor. E é esse mesmo sim radical que torna a Virgem modelo a imitar, para que a Igreja (irmã de Maria, em Cristo), atinja a meta que lhe é proposta antecipadamente na Assunção de Maria.

O Concílio Vaticano II ensinou solenemente que Maria é tipo ou figura da Igreja, pois “no mistério da Igreja, que com razão é chamada também mãe e virgem, precedeu a Santíssima Virgem, apresentando-se de forma eminente e singular como modelo tanto da virgem como da mãe. Crendo e obedecendo, gerou na terra o próprio Filho do Pai, sem conhecer varão, sob a sombra do Espírito Santo, como uma nova Eva, que presta a sua fé isenta de toda a dúvida, não à antiga serpente, mas ao mensageiro de Deus. Deu à luz o Filho, a quem Deus constituiu primogênito entre muitos irmãos (Rm 8,29), isto é, os fiéis, para cuja geração e educação, coopera com amor materno” (Lumen Gentium, n. 63).

Os traços com que aparece a Mulher do Apocalipse, representam a glória celeste com que foi revestida, assim como o seu triunfo ao ser coroada com doze estrelas, símbolo do povo de Deus – dos doze Patriarcas (Gn 37,9) e dos doze Apóstolos; daí que, prescindindo de aspectos cronológicos só aparentes no texto, a Igreja tenha visto nesta mulher gloriosa a Santíssima Virgem, “assunta em corpo e alma à glória celestial, exaltada pelo Senhor como rainha universal com o fim de que se assemelhasse de forma mais plena a seu Filho, Senhor dos senhores (Ap 19,16) e vencedor do pecado e da morte” (Lumen Gentium, n. 59).

A Santíssima Virgem é certamente o grande sinal, pois, como escreve São Boaventura, “Deus não teria podido fazê-la maior. Deus teria podido fazer um mundo mais vasto e um céu maior; mas não uma mãe maior que a própria Mãe” (Speculum, capo 8).

BIBLIOGRAFIA

BETTENCOURT, Estevão Tavares. Curso de Iniciação Teológica. Rio de Janeiro:    Escola ‘Mater Ecclesiae’.

FORTE, Bruno. Maria, a mulher ícone do mistério. São Paulo: Ed. Paulinas, 1991.

SAGRADA ESCRITURA. Ed. Ave-Maria eletrônica. (www.bibliacatolica.com.br).

SITE: http://afeexplicada.wordpress.com/2011/05/18/a-mulher-de-apocalipse-12/

 
 
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