Formação espiritual
 
É possível falar de Deus ao mundo moderno? - Parte 2
Autor: Prof. VICTOR HUGO NASCIMENTO
Filósofo e Teólogo.
Professor das Escolas de fé e catequese Luz e Vida e Mater Ecclesiae - RJ
Contato: victorbento.30@globomail.com
 
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O conceito cristão de verdade

A Igreja não é alheia aos esforços que os pensadores, inseridos nas diversas culturas, empreenderam sobre o tema da verdade. Ela mesma compreende-se responsável por este caminho de pesquisa e reflexão, em prol da humanidade, do bem comum. Sobre isto, nos recorda o Papa João Paulo II: “Como em épocas precedentes, também hoje — e talvez mais ainda — os teólogos e todos os homens de ciência na Igreja são chamados a unirem a fé com a ciência e a sapiência, a fim de contribuírem para uma recíproca compenetração das mesmas (...). Este interesse ampliou-se enormemente nos dias de hoje, dado o progresso da ciência humana, dos seus métodos e das suas conquistas no conhecimento do mundo e do homem. E isto diz respeito tanto às chamadas ciências exatas, quanto igualmente às ciências humanas, bem como à Filosofia, cujos ligames estreitos com a Teologia foram recordados pelo II Concílio do Vaticano.”

A Igreja sempre entendeu que sua missão é de constituição divina e, portanto, pela natureza mesma de tal vocação, ela deveria anunciar a todos os homens o que de Deus mesmo recebeu. As escrituras do Novo Testamento já atestam isto: “a Igreja de Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade” (1 Tm 3,15b), e ainda, na oração sacerdotal de Cristo, Ele assim ora ao Pai: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17,17). O pensamento neo-testamentário compreende a “Palavra” encarnada como portadora da Verdade: “o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). Portanto, a Sabedoria divina, o filho de Deus encarnado, Jesus Cristo, é a expressão última da verdade desconhecida até então pelo homem. Cristo profere as palavras de Deus (cf. Jo 3,34), aquilo que viu e ouviu de seu Pai (cf. Jo 8,38). Deus é ser absoluto e irrevogável em seus pensamentos. Ele não pode contradizer-se, pois é todo verdade, ato único e contínuo, por isto, tudo aquilo que Ele comunica, só pode ser verdade, pois o pai da mentira é o diabo (cf. Jo 8,44). Assim se expressa o Concílio do Vaticano II: “Esta ‘economia’ da revelação realiza-se por meio de ações e palavras intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido.”

Cristo, a verdade última revelada aos homens, se imposta como mensageiro daquela verdade há tanto buscada pelos homens. É Ele quem dá a última e plena resposta sobre as perguntas fundamentais colocadas pelo ser humano. É por isto que, pela revelação feita por Jesus Cristo, a fé cristã entende que existe uma verdade universal e válida para todas as culturas. Nesta perspectiva, o relativismo pregado pelo cientificismo moderno não tem espaço, uma vez que a verdade reside em tudo aquilo que é essencialmente humano. Portanto, se a cultura estiver enraizada no que é profundamente humano, revelará em si aquela verdade única e universal, que a fé cristã entende por Deus.

O conceito cristão de verdade parte da categoria ‘Revelação’. Tal categoria é plenamente válida, como já havíamos apontado, uma vez que, sendo realidade suprassensível, ela está elencada dentre aqueles métodos refutados pelos pensadores cartesianos. Prova da validade da Revelação cristã é o fato de filósofos e mesmo pensadores ateus, sem vínculo com fé alguma, atestarem uma abertura metafísica-transcendental da alma humana.  O pressuposto da verdade está na possibilidade do homem progredir. Ele nunca é estático, passivo, mas, no dinamismo do ser humano, as culturas, que, por isto mesmo, também se apresentam dinâmicas, têm a capacidade de ascenderem, isto significa estarem abertas à Revelação, a qual é um dado universal que se apresenta a cima do tempo e do espaço.

As pesquisas efetuadas pela história das religiões e pensamentos religiosos têm demonstrado a Revelação como critério válido para a questão da verdade. Mircea Eliade, historiador das religiões, assim se expressa: “o sagrado é um elemento na estrutura da consciência, e não uma fase na história dessa consciência. Nos mais arcaicos níveis de cultura, viver como ser humano é em si um ato religioso, pois a alimentação, a vida sexual e o trabalho têm um valor sacramental. Em outras palavras, ser – ou, antes, tornar-se – um homem significa ser ‘religioso’.”

Eliade trabalha com o conceito de “unidade da história espiritual da humanidade”, o qual, segundo ele, é uma descoberta recente, ainda pouco assimilada. Isto quer dizer que há uma realidade supra-histórica-cultural comum a todas as pessoas. A contribuição das ciências históricas é apresentar os dados fenomênicos desta unidade espiritual da humanidade, mas a questão do valor da espiritualidade, de Deus e das coisas religiosas ainda soa como novidade e é encarada como pseudo-conhecimento, algo completamente dispensável e estrito a religiosos. O próprio M. Eliade explica esta realidade. Para ele, os mestres do reducionismo, tais como Marx e Nietzche até Freud, provocaram as crises religiosas ao colocarem a religião como inimiga da evolução humana. Destarte, o mundo ocidental moderno encontra-se em uma derradeira etapa de dessacralização, o que intriga os historiadores da religião, a antropologia e a fenomenologia, pelo fato de tal processo ilustrar, na verdade, a perfeita camuflagem do “sagrado”, mais precisamente sua identificação ao “profano”.

Fica evidente que, ainda que a ditadura positivista queira impor a fé e a Revelação cristã como não-científicas, é irrefutável a relevância de tais realidades para o crescimento e superação do ser humano. A verdade para a fé cristã não está encarcerada no relativismo. De uma vez por todas, Cristo, Verbo feito carne revelou a verdade sobre o homem e sobre Deus. Portanto, o objeto principal da revelação divina não são verdades abstratas sobre o mundo e o homem: seu núcleo substancial é o oferecimento por parte de Deus do mistério de sua vida pessoal e o convite para tomarmos parte nela. Assim, para que o homem chegue ao conhecimento da verdade, é mister investigá-la através do viés da criação e da salvação, conteúdos essenciais da Revelação divina.

A criação e a salvação como meios de aproximação da verdade

A finalidade última da Revelação divina é, não outra coisa, atingirmos o ser de Deus. O Magistério da Igreja aponta que no bojo da Revelação de Deus está a salvação do homem: “quis Deus manifestar e comunicar-se a Si mesmo e os decretos eternos da Sua vontade a respeito da salvação dos homens, ‘para fazê-los participar dos bens divinos, que superam absolutamente a capacidade da inteligência humana’”. Pode-se notar que o conhecimento das verdades reveladas por Deus encaminha os homens a uma comunhão plena com o Senhor.

A comunhão íntima com Deus fora estabelecida desde a Criação do mundo, como nos relata o Antigo Testamento. Deus, por amor e no amor cria, do nada, todas as coisas materiais e imateriais, dando-lhes existência, e, ao fim de sua obra criadora, fez o homem e a mulher à sua imagem e semelhança (Gn 1—2). A cena antropomórfica de Deus caminhando à tarde, no Éden, com Adão e Eva (Gn 3,8), corrobora e sintetiza a idéia da amizade e comunhão entre criatura e criador, desfazendo o errôneo pensamento de dominação tirânica de Deus sobre o homem. O ser humano, criado por Deus e para Ele, tem sempre o desejo, mesmo que inconsciente, de busca-lo, o que se expressa pelo desejo da verdade última das coisas. A Igreja compreende que: “A razão mais sublime da dignidade humana consiste na sua vocação à comunhão com Deus. Desde o começo da sua existência, o homem é convidado a dialogar com Deus: pois se existe, é só porque, criado por Deus por amor, é por Ele, e por amor, constantemente conservado: nem pode viver plenamente segundo a verdade, se não reconhecer livremente esse amor e não se entregar ao seu Criador.”

Ora, como já foi indicado anteriormente, a criação, ou seja, o mundo e o próprio homem são vias efetivas de acesso a Deus. São Paulo ensinava isto ao afirmar: “Desde a criação do mundo, a perfeições invisíveis de Deus, o seu poder eterno e a sua divindade tornam-se pelas suas obras, visíveis à inteligência.” (Rm1,20). Ao contemplar a beleza e harmonia das coisas criadas, o homem sempre intuiu uma mente geradora, universal e organizadora de tudo isto. As mais diversas tradições religiosas e culturais denominaram e ainda continuam a chamar este princípio gerador com diversos nomes que no fundo corresponde ao Deus bíblico, o Criador dos céus e da terra.

O ser humano, imagem e semelhança de Deus, tem o poder de melhor expressar e revelar a face de Deus invisível. Através da abertura de sua alma para o Belo, o Bem e o Bom, o homem a Ele se refere: “O homem é um ser sacramental; no nível religioso, exprime suas relações com Deus num conjunto de sinais e símbolos; Deus igualmente os utiliza quando se comunica com os homens. Toda a criação é, de certa forma, sacramento de Deus, porque no-lo revela (cf. Rm 1,19).”

No entanto, o homem e a natureza entraram em desequilíbrio desarmônico com seu Deus. Ao invés daquela comunhão tão profunda e querida pelo Senhor Deus, o homem rompe, em um gesto de desobediência, com a Lei divina. O Gênesis ilustra este rompimento narrando a queda dos primeiros pais em forma de crônica. O livro apresenta a serpente como figura do mal e do tentador e o ato de comer do fruto proibido como síntese da rebelião do ser humano contra Deus. O desfeche desta narrativa se dá com as palavras condenatórias de Deus dirigidas à serpente, à mulher e ao homem, culminando com a expulsão de Adão e Eva do jardim do Éden. Esta sessão é identificada pelos estudiosos como proto-evangelho, pois o hagiógrafo deixa entrever no meio da cena a possibilidade de uma remissão futura ao colocar na boca de Deus as seguintes palavras: “Porei ódio entre ti (a serpente) e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” (Gn 3,15).

O cumprimento da promessa da liquidação total da serpente (o pisar-lhe a cabeça) foi realizado definitivamente em Cristo Jesus, centro do cósmo e da história. O descendente da mulher vence o mal e a morte, reestabelecendo, assim, a ordem natural e espiritual da criação divina. A morte e ressureição de Cristo trazem em si este poder redentor, o de recriar o mundo que fora criado em perfeição por Deus Pai: “Em Jesus Cristo, o mundo visível, criado por Deus para o homem (aquele mundo que, entrando nele o pecado, foi submetido à caducidade) readquire novamente o vínculo originário com a mesma fonte divina da Sapiência e do Amor”.

A salvação oferecida por Cristo é ambivalente. Ela se concretiza nas realidades intra e pós-mundanas. Ponto comum do pensamento da coletividade, a salvação se dá na vida eterna. Logo se pensa na eternidade ao lado de Deus, junto aos anjos e santos, ao que se denomina céu. Contudo, o céu começa na terra. Cristo salvou o gênero humano ainda para esta vida, que, por consequência, define a vida pós-morte. O homem é salvo ou não já neste mundo. “Não podemos, pois, perguntar-nos apenas quem vai para o céu e desentender-nos simultaneamente da questão do céu. É necessário perguntar o que é o céu e como vem à terra. A salvação do além deve refletir-se numa forma de vida que torne o homem humano no aquém, isto é, neste mundo, e portanto conforme com a vontade de Deus. (...) Eu diria, pois, que a salvação começa com a vida reta e justa do homem neste mundo, que abarca sempre dois pólos: o indivíduo e a comunidade.”

O homem, ao levar uma vida reta e justa, está aderindo ao grande projeto salvífico de Deus. Estas duas qualidade morais levam ao assentimento da fé, de maneira livre e incondicional, até aquele momento em se chega à uma certa unidade interior, quando se unem as realidades do bem, do verdadeiro, de Deus e do homem. Esta unidade interior do homem é a consciência. É neste organismo que se desenvolvem as decisões e juízos de dentro do ser humano. É neste sacrário inviolável que se desenrola a trama da fé e da adesão da mente humana à verdade revelada. É neste núcleo interior e secreto, onde Deus faz morada, que o ser humano dá a melhor resposta a Ele, através da obediência da fé (cf. Rm 1,5; 16,26; 2 Cor 10, 5s). Com ela o homem se entrega livremente e totalmente a Deus, bem como pode aderir firmemente à verdade revelada em Cristo, tomando para si seus ensinamentos e salvação.

Ora, dar o assentimento pela fé a Deus, significa mesmo chegar à plenitude máxima possível pela Revelação. Segundo Tomás, todas as verdades conhecidas pela mente humana, na realidade são expressão daquela Verdade única que dá a subsistência às demais verdades naturais e sobrenaturais conquistadas pelo homem. Segundo o aquinate:  “A verdade sob cuja luz a inteligência humana tudo julga é a Verdade Primeira. Pois, assim como da verdade da mente divina derivam para a inteligência dos anjos as imagens infusas das coisas, a cuja luz os anjos compreendem tudo o que compreendem, da mesma forma deriva da verdade do intelecto de Deus, à guisa de modelo, a verdade dos primeiros princípios, à luz dos quais a nossa inteligência formula os seus juízos sobre tudo. E uma vez que só podemos formular os nossos juízos a partir da verdade dos referidos princípios, na medida em que tal verdade constitui um espelho da Verdade Primeira, dizemos que julgamos tudo a partir da Verdade Primeira.”

Todas as possibilidades de verdade, portanto, são de certa forma, criadas, conjecturadas, no sentido de serem construções humanas para expressar o ser das coisas. Deus, Verdade Única e Primeira, criador de tudo, sustenta sua criação com o seu Ser. Esta realidade é que concede às criaturas, sejam visíveis ou invisíveis, sua entidade, isto é, sua verdade ontológica. Deus é a Verdade imutável. É esta imutabilidade de Deus que valida a Sua Revelação e sustenta os diversos fragmentos de verdades buscadas e conhecidos pelas diversas ciências.

É a esta Verdade Incriada e Imutável que os homens têm procurado avidamente, na qual possam repousar e sentirem-se saciados, deleitados. Esta estupenda verdade, imperceptível aos meros sentidos do intelecto humano, pode sim ser conhecido por conta da Revelação cristã. Em Jesus temos acesso pleno e definitivo Àquela verdade última, justamente porque o conteúdo revelatório é a pessoa do próprio Deus, O qual oferece uma nova e eterna Aliança aos homens, reconstruindo o mundo em Cristo Jesus. Uma vez que o mundo e o homem revelam a Deus de forma insuficiente, as palavras e gestos de Cristo no-Lo revela. É através da adesão voluntária e racional, mediante o dado da fé, que se abre a real possibilidade de acessar a verdade, pois, “a fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio (cf. Ex 33, 18; Sal 27 (26), 8-9; 63 (62), 2-3; Jo 14, 8; 1 Jo 3, 2).”

Cabe-nos agora refletir como se atualiza na concretude da vida, aquele chamado do homem à comunhão divina. Como a revelação têm encontrado espaço e adesão no mundo moderno, e como entender a Igreja e o anúncio do Evangelho como verdades válidas universalmente, mesmo em meio às tantas e conflitantes culturas.


JOÃO PAULO II. Encíclica ‘Redemptor hominis’. São Paulo: Paulinas, 1979, n° 19.

Concílio Ecumênico do Vaticano II, Constituição Dogmática ‘Dei Verbum’. Petrópolis: Vozes, 1998. n. 2.

ELIADE, Mircea. História das crenças e das idéias religiosas I. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 13.

Cf. ELIADE, 2010. p.16.

Concílio Ecumênico do Vaticano II, Constituição Dogmática ‘Dei Verbum’. Petrópolis: Vozes, 1998. n. 6.

Catecismo da Igreja Católica, n° 27. São Paulo: Loyola, 1999.

Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. Conclusões da Conferência de Puebla. São Paulo: Paulinas, 1979, n. 920.

JOÃO PAULO II. Encíclica ‘Redemptor hominis’. São Paulo: Paulinas, 1979, n° 8.

RATZINGER, Joseph. Fé, verdade e tolerância: o cristianismo e as grandes religiões do mundo. São Paulo: IBFC “Raimundo Lúlio”, 2007.

TOMÁS. Questões disputadas sobre a verdade. Col. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1988.

JOÃO PAULO II. Introdução da Encíclica ‘Fides et ratio’. São Paulo: Paulinas, 1998.

 
 
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