Formação espiritual
 
É possível falar de Deus ao mundo moderno? - Parte 1
Autor: Prof. VICTOR HUGO NASCIMENTO
Filósofo e Teólogo.
Professor das Escolas de fé e catequese Luz e Vida e Mater Ecclesiae - RJ
Contato: victorbento.30@globomail.com
 
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O homem sempre buscou chegar ao conhecimento da verdade. Ele tem empreendido esforços no longo caminho de procura do que é e como chegar a um consenso definitivo sobre a verdade. Desde filósofos, amantes da sabedoria e portadores da verdade, até os grandes santos, passando pelo homem mais humilde, todos, sem exceção, nas mais diversas realidades e culturas têm ansiado encontrar respostas absolutas sobre a existência do homem e do cosmo.

Por não haver, nesta aventura da busca, um consenso entre filósofos e acadêmicos, várias teorias e visões a cerca da verdade existem e continuam sendo debatidas. O problema reside na postura da modernidade, a qual retardou e mesmo interrompeu o processo de acesso à verdade ao abandonar e invalidar o método clássico, o da metafísica. Como aponta o Cardeal Ratzinger: “Não é moderno perguntar pela verdade. (...) há uma atitude apriorística ante a realidade, que nos diz: não faz sentido perguntar sobre o que é, só podemos perguntar-nos sobre o que podemos fazer com as coisas”.

Deste modo, a verdade tem sido tratada como relativa, como que impossibilitada de ser reconhecida unanimemente, posto que cada povo e cultura, em seu “modus vivendi”, percebe cada qual uma verdade, muitas vezes contrárias entre si. Esta realidade desafia o discurso religioso e missionário, onde a fé encontra dificuldades de penetrar, frente à desconfiança natural do homem, especialmente o do pós-iluminismo.

Ainda assim é possível falar de Deus como realidade e verdade válidas a todo homem, uma vez que os princípios de busca meramente racionais mostram-se insuficientes. A metodologia eficaz apresenta-se no passar das realidades visíveis para as invisíveis; isto quer dizer, através da contemplação das coisas criadas e naturais, analogamente se pode chegar à interpretação do mundo cifrado, sendo possível decifrá-lo através da Revelação divina, que é em si, a verdade.

O homem deseja conhecer a verdade

Ao percorrermos as páginas da história da Filosofia, nelas encontramos os pensamentos da humanidade, sintetizados naquilo que é próprio, inerente à natureza humana. O fio condutor dos questionamentos e das reflexões humanas é a busca pela verdade. A filosofia estuda a verdade de diversos ângulos. A metafísica se ocupa da natureza da verdade. A lógica se ocupa da preservação da verdade. A epistemologia se ocupa do conhecimento da verdade. A filosofia aristotélica, inclusive a tomista, destacam-se pelo uso do método correspondentista, ou seja, compreendem a verdade como a adequação daquilo que se dá na realidade e aquilo que se dá na mente. O estagirita já apontara no livro I sobre a metafísica que “todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer: uma prova disto é o prazer das sensações, pois fora até da sua utilidade, elas nos agradam por si mesmas e, mais que todas as outras, as visuais.”

Ora, para a filosofia é muito clara sua função, a de pôr as questões fundamentais sobre o princípio e a finalidade da vida; buscar a verdade última de cada coisa. Esta é verificada, ao menos no método clássico-aristotélico, através do prazer proporcionado quando a mente concorda e repousa ao encontrar o “em-si” do que fora buscado. Assim, a verdade não se abriga meramente na linguagem ou no discurso sobre o objeto, pois algo não é, só por ser afirmado como tal, mas se afirma como verdade que é na coisa mesma. Neste sentido, o papa João Paulo II, conclama aos filósofos e cientistas a retomarem tal tarefa, pois a mesma vem sendo esquecida e assim a busca da verdade tem sida negligenciada na modernidade: “Variados são os recursos que o homem possui para progredir no conhecimento da verdade, tornando assim cada vez mais humana a sua existência. De entre eles sobressai a filosofia, cujo contributo específico é colocar a questão do sentido da vida e esboçar a resposta: constitui, pois, uma das tarefas mais nobres da humanidade.”

No fundo, os filósofos e pesquisadores têm deixado esta função primordial de questionar a origem do mundo e do homem por não mais acreditarem na possibilidade de uma verdade universal. Tem-se preferido, segundo o modelo moderno, buscar fragmentos de verdades (que se encontrados, de fato são verdadeiros e válidos), mas de forma obtusa e, portanto, plural e arbitrária.

Com o abandono da metafísica e da teologia, o critério de verdade cristalizou-se naquilo que a maioria dos positivistas classificou como absoluto. O método científico universalmente aceito como paradigma, se imposta como único e irrefutável meio de se chegar à verdade. Vivemos uma verdadeira “ditadura do conjuntural convertido em absoluto.” Na verdade cada objeto deve ser pesquisado de acordo com sua natureza. O método cartesiano vai bem para avaliar o empírico, coisas concretas, no entanto, não é o melhor para a busca da essência dos entes, ou seja, para a busca metafísica e teológica da verdade. Portanto, a filosofia, com sua pioneira potência na busca das causas primeiras, não pode estar presa à metodologias pré-estabelecidas, por simplesmente serem legitimadas por campos dominantes do saber. Tal insistência destrói a essência e tarefa tão próprias da filosofia. Ela deve gozar de liberdade. Tem de continuar (ou mesmo retomar) no seu caminho de ir além da linguagem que gira em si mesma, quase que falaciosamente, sobre a qual se sustenta a idade moderna.

A teologia, como em um círculo, atrelada à filosofia, tem a tarefa de contribuir na árdua empreitada na questão da verdade. Isto porque ambas se mantêm fiéis à sua finalidade e intenção: a de conhecer o que é o Bom, o Belo e o Verdadeiro. As duas ainda procuram responder àquelas questões basilares da humanidade, às quais angustiam e interpelam desde sempre a toda a humanidade: a verdade sobre o mundo, sobre o início e fim do homem, sobre Deus e a possibilidade de uma vida além-mundo. Certamente tais questionamentos podem ser respondidos, ainda que parcialmente, pelo esforço da razão humana. A Igreja assim ensina, de forma explícita desde o Concílio Vaticano I, com a Constituição dogmática “Dei Filius”, e reafirma tal compreensão no Concílio do Vaticano II, com a Constituição dogmática “Dei Verbum”: “A Santa Igreja, nossa Mãe, atesta e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido, com certeza, pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas.”

Cabe-nos agora nos perguntar o que a teologia e, portanto a fé cristã católica entende por verdade, uma vez que a Igreja afirma como critério de fé, ser ela mesma portadora e sustentáculo da verdade revelada. Como ela recebeu tal verdade? Qual a natureza de tal verdade? Como entender o discurso religioso salvífico em meio ao pluralismo e absolutismo categórico modernos?

 
 
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